Ano I - Nº 04 - Maio de 2002 - Quadrimestral - Maringá - PR - Brasil - ISSN 1519.6178

 

 

Saber e Emancipação [1]

 

Jair Pinheiro*

 

Resumo:

Este artigo visa apresentar uma breve reflexão sobre a relação conhecimento e organização sob um enfoque materialista, a partir da Introdução à Crítica da Filosofia do Direito, de Marx.

Palavras chaves

Organização, conhecimento e burocracia e dominação

 

A polêmica tem acompanhado toda a obra de Marx, inclusive entre os não-marxistas. Alguns textos do autor têm suscitado mais polêmicas que outros, entre os quais se inclui Crítica da Filosofia do Direito de Hegel – Introdução. Passarei ao largo da polêmica para me deter no que julgo uma contribuição indispensável para o exame das representações simbólicas sob um enfoque materialista.

Diz o autor: “É certo que a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas, que o poder material tem que ser derrocado pelo poder material, mas também a teoria transforma-se em poder material logo que se apo­dera das massas. A teoria é capaz de apoderar-se das massas quando  argumenta e demonstra ad hominem, e argumenta e demonstra ad hominem quando se torna radical; ser radical é tomar as coisas pela raiz.” (1997, p. 9). Neste texto, Marx utiliza o termo teoria em sentido bastante amplo e toma a religião – cristã, na acepção hegeliana – como um dos objetos de sua crítica; religião que, também, aparece aí como teoria do conhecimento.

Para os propósitos dessa exposição, pode-se decompor a afirmação acima em três partes: primeira, um poder material que se opõe a outro poder material, o que, como é sabido, é uma referência de Marx às classes sociais em luta; a segunda, a teoria (representações simbólicas) como poder material quando se apodera das massas; e, terceira, a transformação da teoria em poder material por meio da argumentação e demonstração ad hominem. Dessas, a terceira parte talvez seja a que mais restou obscura no pensamento marxista, malgrado os esforços para superar a lacuna sobre como a “teoria se transforma em poder material”, já que a fórmula apresentada por Marx parece insuficiente.

Na continuação do parágrafo citado,  Marx afirma como “(...) imperativo categórico” que “derrubar todas as relações nas quais o homem é um ser humilhado, subjugado, abandonado e desprezível (...)”. As relações a que ele se refere materializam-se em organizações típicas e, no entanto, ele não explora as potencialidades explicativas da relação entre organização e conhecimento, o que fará Gramsci já no século XX.

Para preencher essa lacuna é preciso, a meu ver, retomar a noção gramsciana de organização da cultura; é preciso, pois, pensar em formas emancipatórias de organização da cultura. Não me refiro à organização em sentido simples de classificação e sistematização de elementos pré-existentes. É preciso conceber organização em sentido dialético, como Gramsci.

Neste caso, na medida em que se organiza cria-se. O processo de criação é, ao mesmo tempo, organização do pensamento e do objeto pensado de uma determinada forma. Se temos por objeto a sociedade, ou mais precisa­mente, as formas de vida de homens e mulheres em sociedade, segue que tomar nosso próprio pensamento sobre essas formas de vida como objeto de reflexão pode nos revelar como chegamos a essa forma de organização da vida e, pelo menos em tese, à proposição de formas alternativas.

O primeiro efeito dessa reflexão deverá ser a desnaturalização da forma social presente, denominada burguesa. Isto supõe, seguindo essa linha de raciocínio em que organizar é criar e vice-versa, que a crítica à sociedade burguesa, malgrado seus objetivos, a reproduz, na forma na medida em que se realizar de acordo com a organização cultural burguesa, baseada numa integração social vertical.

De acordo com Lênin, no socialismo “(...) as funções de fiscalização e de contabilidade, cada vez mais simplificadas, serão desempenhadas por todos, por turnos, tornar-se-ão depois um hábito e finalmente tornar-se-ão caducas como funções especiais de uma categoria especial de indivíduos.” (1980: 255). Parece-me que essa utopia continua válida, pelo menos para evitar a divisão da sociedade entre dirigentes e dirigidos, como temem os anarquistas. Contudo, a questão ainda não foi enfrentada operacionalmente a ponto de esclarecer como chega­ríamos a esse Estado de coisas. Essa lacuna resultou no que Wright (1981) denominou “uma espécie de inacabamento” da visão leninista, por não ter uma teoria das contradições da burocracia.

No que diz respeito ao conhecimento, além do inacabamento apontado por Wright, julgo necessário redefinir a perspectiva temporal contida na visão leninista. Em lugar da expressão “no socialismo”, talvez devêssemos utilizar “na luta pelo socialismo” a administração tenderá à simplificação, de tal modo, que homens e mulheres do povo poderão dela se ocupar.

A diferença entre uma e outra é que, a primeira, pode induzir à interpretação de uma mudança abrupta e acabada derivada do processo revolucionário e, a segunda, supõe uma mudança processual complexa segundo os ritmos e escansões próprios das diferentes estruturas (econômica, jurídico-política e sócio-cultural) de cada formação social.

Com esta introdução, o que pretendo destacar é a noção de que “organização” e “conhecimento” são termos de uma relação dialética. Sem qual­quer pretensão intelectualista, isto significa que conhecemos como e na medida em que organizamos o objeto da nossa ação. Conseqüentemente, a organização vertical estabelece uma divisão vertical de trabalho, da qual par­ticipa a divisão entre trabalho operacional e trabalho intelectual, assim como, um conhecimento que apresenta a realidade como “natural­mente” dividida entre executores dos diversos trabalhos como necessidade exclusivamente técnica.

Na medida em que uma determinada organização do trabalho constitui a base da sociabilidade em determinada formação social, ela se torna o que Bourdieu denominou estruturas estruturantes, ou seja, que estruturam nossa percepção da realidade. Os critérios da organização moldam as estruturas cognitivas, o que confere plausibilidade à representação da realidade, posto que moldam as estruturas mentais.

Nessa medida, “A imposição simbólica apóia-se sobre a imposição, ao conjunto dos agentes, de estruturas cognitivas que devem parte de sua consistência e de sua resistência ao fato de serem, pelo menos na aparência, coerentes e sistemáticas e estarem objetivamente em consonância com as estruturas objetivas do mundo social.” (1996, p. 118) Tendo em vista essa relação entre estruturas objetivas e estruturas cognitivas, não é de se admirar a profusão de estudos dedicados à busca da melhor organização escolar e da produção, principalmente a partir da década de 30.

Neste ponto, Bourdieu dirige a Weber uma crítica, perfeitamente compatível com a crítica marxista, de que a legitimidade da sociedade burguesa “se enraíza no acordo imediato entre as estruturas incorporadas, tornadas inconscientes, como as que organizam os ritmos temporais (por exemplo, a divisão em horas, inteiramente arbitrária, do emprego do tempo escolar) e as estruturas objetivas.” (id.)

Como Bourdieu recusa o modelo marxista de análise, sua contribuição, embora notável, não permite a identificação entre as estruturas objetivas e os interesses das classes dominantes. Para ele, Foucault “transfere para o céu das idéias, por assim dizer, as oposições entre os produtores (culturais, como assinala o autor) e os que se utilizam das obras analisa­das.” (id.: 57) por recusar a possibilidade de encontrar princípio explicativo “nas divergências de interesses e de hábitos mentais entre os indivíduos.”

O modelo de análise de Bourdieu atribui ao Estado um poder acima do atribuído aos demais campos, por concentrar o capital político, o capital econômico e o simbólico. Este último lhe confere a função de simbolizar a coesão social. Até aí, embora diferente, a análise de Bourdieu não é incompatível com a análise materialista do Estado.

O distanciamento ocorre na medida em que o Estado é colocado ao lado de outros campos, como: o literário, o jurídico e o científico; mas com um poder especial, que é o de monopolização do universal. Aqui, Bourdieu se refere à possibilidade que apenas o funcionário do Estado tem de se apresentar como a encarnação do interesse público e, portanto, neutro em sua condição mesma de funcionário. Isto lhe permite, à semelhança do pensamento liberal e malgrado sua crítica a este pensamento, apresentar o Estado contra a sociedade e, com isso, negar sua função de organizador da dominação política de uma classe particular, a burguesia.

Em resumo, se Foucault transfere a crítica para o céu das idéias, Bourdieu a transfere para o pântano dos interesses imediatos, tal como manifestos pelos agentes, segundo o campo no qual estão inseridos. Isto ocorre porque seu modelo de análise não considera que se o funcionário do Estado obtém êxito na definição das categorias de análise para interpretação do próprio Estado, é porque essa operação simultânea de administração e produção do conhecimento sobre o Estado tem a acumulação como referência (Cf. Offe); razão pela qual é impensável a ação política estatal em oposição à acumulação, a não ser por inépcia dos operadores ou por efeito de uma crise aguda do Estado capitalista.

Para finalizar essa breve digressão sobre Bourdieu, a crítica a ele dirigida visa apenas incorporar sua contribuição ao modelo de análise mate­ria­lista sem desfigurá-la. Assim, os conceitos de estrutura estruturante e de instituições instituídas como correspondentes à estrutura cognitiva, reproduzida inconscientemente no ato de analisar, é fundamental para compreender a transformação da teoria em poder material.

Essa é a razão pela qual a atividade política é educativa, não apenas pelos fluxos de informações existentes ou não; mas, sobretudo, pela organização das atividades, atribuição de tarefas, definição de instâncias deliberativas etc., pois são esses critérios de organização que determinará as próprias categorias de análise da atividade política.  

Isto posto, aqueles  que voltam seus esforços para a emancipação não podem pensar a “organização” e o “conhecimento” como elementos separa­dos, integrantes de campos distintos da ação política, como se o segundo informasse a melhor maneira de fazer a primeira; e esta, por sua vez, oferecesse os melhores instrumentos para a obtenção daquele.

Assim concebidos, no contexto das lutas políticas, esses dois termos passam a ser tratados como meios distintos que concorrem para o mesmo objetivo, qual seja, o da conquista e/ou manutenção do poder. Essa abordagem permite tratar organização e conhecimento como meios (no sentido instrumental) da ação com vistas à mudança ou conservação da ordem social, jamais como meios, no sentido de ambiente, e objetos (no sentido de categorias do pensamento).

Evidentemente, essa exposição está bastante esquemática. Por isso, não está contemplado aqui as nuanças desse debate nem a riqueza dele no campo do marxismo. Mas esse esquematismo é proposital, porque o objetivo é destacar os riscos que a ação emancipatória corre de reproduzir a dominação quando toma organização e conhecimento como elementos exteriores entre si.

Neste caso, pode-se indagar qual a importância dessa advertência se esse debate já é antigo no campo do marxismo? A meu ver, a história dos movimentos socialistas no século XX não deixa dúvidas quanto à importância da advertência, pois a queda do muro de Berlim, como acontecimento emblemático, revelou que aquelas tentativas de emancipação dos trabalhadores se tornaram dominação sobre eles, embora diferente da dominação verificada no Ocidente, o que parcela considerável da es­querda resistia, até então, a reconhecer.

Feito esse esclarecimento, passo à segunda parte da reflexão.

 

Todo homem e toda mulher são intelectuais

Para retomar mais uma noção gramsciana, “Todos os homens (e todas as mulheres, devemos acrescentar) são intelectuais, (...) mas nem todos (...)  desempenham na sociedade a função de intelectuais.” (1995: 7). Isto por­que, ainda de acordo com Gramsci, mesmo o trabalho mais simples exige algum grau de elaboração intelectual e, além disso, todos têm uma consciência moral e uma concepção de mundo, pois “Se é verdade que toda linguagem contém os elementos de uma concepção do mundo e de uma cultura, será igualmente verdade que, a partir da linguagem de cada um, é possível julgar da maior ou menor complexidade da sua concepção do mundo.” (1989: 13).

O antagonismo de classe que marca as formações sociais capitalistas lhe confere a desigualdade como traço evidente, que salta aos olhos. Por isso, fala-se muito em desigualdade de renda, de oportunidades, de direito etc. Mas a desigualdade de conhecimento só é referida – quando referida – como resultado das demais, talvez porque falar dela seja embaraçoso.

No máximo, se concebe essa desigualdade como resultado de outras desigualdades; mas o fato é que também há uma distribuição desigual do conhecimento nas formações sociais capitalistas, o que, por sua vez, está relacionado à função político-ideológica das instituições sociais tipicamente burguesas, notadamente o Estado.

Sem dúvida, parte da desigualdade de conhecimento resulta de outras formas de desigualdade como, por exemplo, de renda. Neste caso, a relação entre a causa e o efeito é óbvia, principalmente num país como o Brasil, onde muitos se encontram no dilema entre ler ou comer.

Mas uma outra parte dessa desigualdade de conhecimento resulta de uma operação do Estado, que institucionaliza um sistema de filtro da informação que pode ou não chegar – e, também, como chegar – aos cidadãos. Para institucionalizar esse sistema de filtro o Estado classifica as informações em dois blocos: as que podem ser publicadas e as que não podem. Em seguida, define as circunstâncias e os procedimentos para o acesso às que podem ser publicadas, incluindo-se as leis que regulam a imprensa.

Até este ponto, nos movemos no terreno da desigualdade como traço exterior característico da sociedade burguesa. É preciso ir mais fundo, à razão do fundamento do antagonismo de classe, qual seja, a propriedade privada dos meios de produção, incluindo os de produção da informação.

Se, no plano econômico, a propriedade ou não dos meios de produção define os principais lugares nas relações de produção, no plano do conhecimento, a esses lugares correspondem, também, diferenças do poder de enunciação de opiniões e de interesses. Essa diferença é material, político-institucional e intelectual. Ou seja, tanto os meios materiais para formular e difundir opiniões também são de propriedade privada como o lugar ocupado pelos agentes define as opiniões que, a partir dele, podem ser formuladas. Acrescente-se que as organizações institucionalizadas (empresa, escola etc) do lugar ocupado nas relações de produção também definem as categorias cognitivas das opiniões que podem ser formuladas. As opiniões em contradição com a racionalidade desse lugar são consideradas, naturalmente, irracionais.

Essa diferença geral no interior da sociedade se reproduz no interior de cada instituição tipicamente burguesa, cuja forma de organização típica é a burocracia (Cf. Pinheiro, 1997). Assim, se todos os homens e todas as mulheres são intelectuais, como afirma Gramsci, o exercício dessa faculdade está fortemente condicionado pela posição ocupada na sociedade; posição esta, que é uma combinação do lugar ocupado nas relações de produção com os lugares ocupados nas diversas instituições nas quais o indivíduo está inserido.

Mas o condicionamento do exercício intelectual não se esgota nessa condição objetiva. Como já vimos com as observações sobre Bourdieu, à essa condição corresponde a condição subjetiva, ou seja, uma estrutura cognitiva composta de estruturas mentais, esquemas de percepção e formas de pensamento que sancionam esses lugares e o modo de fazer a eles correspondentes como naturais. Não por acaso, muitas críticas à burocracia têm chegado a ela ao final do percurso.

Esse retorno ao ponto de partida da crítica (à burocracia) ocorre por causa do entrelaçamento entre as categorias de análise e interpretação do fenômeno burocrático e os interesses corporativos que, por sua vez, se baseiam na relação de dependência material do funcionário com a burocracia que lha paga o salário. Desse modo, o funcionário se torna interessado tanto na reprodução da estrutura burocrática como no tipo de conhecimento nela produzido e em seu monopólio.

A expressão “fortemente condicionada”, acima utilizada, é proposital e indica que no campo da produção cultural, os conceitos não podem ser tomados de modo unívoco, se é que pode em algum campo. Para utilizar as formulações de Therborn, a subjetividade é moldada pelos discursos que interpelam os indivíduos e, na medida em que os qualifica para atuar em uma determinada ordem social, também os qualifica para qualificar, cria o espaço para a crítica. Portanto, no nível do pensamento, o preparo para atuar de determinado modo no interior de determinada estrutura não exclui a crítica.

Contudo, malgrado o seu conteúdo, a crítica reproduzirá na forma a estrutura criticada se os critérios de organização institucional e de grupos, além dos de validação do conhecimento, não forem alterados. Um exemplo atual dessa reprodução, é o debate em que parte da oposição se vê enredada ao criticar as políticas sociais do governo com os mesmos critérios contábeis e organizacionais utilizados pelo Estado.

A conclusão dos críticos acaba se aproximando perigosamente da do governo, qual seja, a de que o Estado está falido e que é preciso baratear os custos dos serviços. É dessa forma que os custos passam da condição de meios para alcançar um objetivo político à de fim (real, mas não necessariamente declarado) da ação política. Um outro exemplo, mais importante e mais complexo, é o da crítica social, que substitui classes por elites, dominação por coesão social etc. Com isso, se estabelece um grande consenso quanto ao objetivo de salvar a sociedade contra a barbárie. Ou seja, fica obscurecido o fato de que a coesão social sob o MPC corresponde ao sucesso do capital em subjugar todas as classes não burguesas e que seu modo de funcionamento é excludente de uma parcela crescente do padrão de civilização que ele cria.

Ou, dito por outras palavras, manter a sociedade burguesa coesa implica criminalizar os que ela exclui. Essa observação se torna ainda mais importante quando nos damos conta de que é assim desde o início do capitalismo quando, por exemplo, na Inglaterra do século XVII se estabeleceu uma lei que criminalizava a “vagabundagem” dos camponeses que vagavam pelas cidades após serem expulsos do campo pelos “enclosures”. 

Desse modo, a alternativa socialismo ou barbárie foi substituída por civilização ou barbárie; ironicamente sob uma forma de civilização que gera a barbárie.

Para uma crítica cuja forma represente uma ruptura com a forma burguesa de produção do conhecimento, não basta a produção e difusão de publicações alternativas, o que já é feito em maior ou menor escala, conforme a conjuntura e as possibilidades materiais das forças políticas de oposição.

Em suas notas sobre o jornalismo, Gramsci sugere uma série de medidas sobre a produção e difusão do conhecimento, conforme a especialização das atividades e à necessidade de difundir a formação humanista. Não exa­minarei tais notas, assinalo-as aqui, apenas para lembrar que as preocupações daquele autor continuam válidas.

Proponho acrescentar, também sob a forma de notas, sem a pretensão de profundidade, portanto, alguns aspectos relativos à produção de conhecimento e que estão presentes ao longo dessa reflexão:

1 – Relação entre tempo e conhecimento. As lutas dos trabalhadores devem incluir entre suas bandeiras a reivindicação de tempo para os estudos e para as atividades culturais em geral. Hoje, assiste-se no país um descompasso entre o consenso quanto à importância da educação e jornadas de trabalho que, cada vez mais, roubam aos jovens o tempo para os estudos. A importância dessa reivindicação está em colocar em pauta o problema, por um lado,  do controle do tempo e, por outro, o do conhecimento que não é mero consumo de informação, mas exige tempo de reflexão e amadureci­mento.

O controle do tempo como bandeira de luta tem o potencial de evidenciar que a velocidade dos acontecimentos, apresentada como característica natural da sociedade moderna e, portanto, alheia aos conflitos de interesses, nada mais é que o ritmo da produção e circulação da mercadoria, produção e circulação cuja velocidade é multiplicada pelo tempo que rouba do trabalhador sob a forma de jornadas de trabalho estafantes.

Não é difícil demonstrar aos trabalhadores que o aumento da produção corresponde ao aumento do tempo dedicado ao trabalho e que o ganho de produtividade do trabalho corresponde ao trabalho passado e, portanto, que a oferta progressiva de mercadorias no mercado e sua circulação rápida é tempo roubado aos trabalhadores pelo capital. Na medida em que a informação passa a ser produzida segundo os mesmos critérios, a circulação rápida de informação cria a impressão de que o mundo está mudando muito rapidamente.

Essa ilusão pode ser percebida pelo paradoxo da própria percepção popular, pois se, de um lado, tudo parece mudar muito rápido, de outro, quando voltamos a atenção para os problemas que afligem os trabalhadores, constata-se uma incrível estabilidade. Ou seja, a própria proclamação de que o mundo moderno está em mutação permanente tornou-se um artifício ideológico que obscurece o fato de que as condições de existência dos trabalhadores permanecem as mesmas.

Decerto há mudanças reais no mundo, mas, em primeiro lugar, as estruturas fundamentais da sociedade não mudam em ritmo intenso, exceto em períodos revolucionários e, em segundo, tais mudanças são o resultado das lutas de classes. Essa é a razão pela qual o ganho de redução da jornada de trabalho de décadas passadas está se perdendo, pois nesse momento as lutas dos trabalhadores encontram-se na defensiva.

É preciso, pois, desnaturalizar essa idéia de que vivemos num mundo onde os acontecimentos ocorrem em ritmo cada vez mais intenso por efeito de uma força interior própria. Essa força é o capital e a reivindicação de controle social do tempo pode revelá-la.

2. Divisão do trabalho e conhecimento. Estabelecer uma distinção entre divisão vertical e divisão horizontal do trabalho. A primeira, que inclui a divisão entre trabalho operacional e trabalho intelectual, é uma necessidade da dominação política e, a segunda, do desenvolvimento técnico. A denúncia da primeira é condição para a emancipação.

3. Critério de organização e conhecimento. Sempre que a necessidade técnica prescindir da divisão vertical do trabalho ela deve ser abolida e, nos casos em que ela for absolutamente necessária, do ponto de vista técnico, a verticalização operacional deverá ser compensada pela horizontalização do processo decisório.

Com essas três notas tocamos no problema da organização da vida cotidiana, o que se constitui em um processo de sociabilidade secundária e, portanto, em como e porque o mundo em que vivemos é percebido como natural.  Por meio da crítica material podemos desnaturalizá-lo. A crítica, para ser material, deve ultrapassar o estágio da retórica, e se fazer acompanhar de formas alternativas de organização das relações cotidianas de produção e de decisão política.

4. Enunciação do saber popular. Incentivo à produção intelectual dos trabalhadores e das camadas populares sobre suas experiências e suas perspectivas sociais, sem a preocupação de se elas apresentam ou não sofisticação, a fim de favorecer a apropriação intelectual, pelos trabalhadores e pe­las camadas populares, da sua própria experiência.

5. Articulação entre conhecimento científico e filosófico e saberes diversos. Se o século XIX foi positivista pela fé que depositou na ciência, o século XX o é pela apropriação da ciência pela fé. Ou, dito por outras palavras, os saberes excluídos da ciência no século XIX, e por isso desligitimado, no século XX se apropriaram do discurso científico. Este é um terreno pantonoso no qual se afunda toda tentativa de regulamentação, razão pela qual não pretendo realizar qualquer esforço nessa direção.

Contudo, parece forçoso reconhecer pelo menos quatro aspectos dessa questão. O primeiro, que a denúncia da dominação de classes não apresenta respostas a questões existenciais com as quais se defrontam todos os indivíduos; o segundo, que tais questões existenciais não se resolvem com a satisfação das necessidades materiais; o terceiro, que não há relação causal necessária entre determinada posição política e determinado conteúdo da fé e vice-versa e, o quarto, que a forma dada ao conteúdo da fé aponta posicionamentos políticos numa ou noutra direção sem, contudo, determiná-los.

Qual a relação destes aspectos com as lutas políticas de classes? Os partidos e demais organizações burguesas têm se esmerado tanto no esforço de se apresentarem como continuidade (continuidade esta que não existe, conforme o terceiro aspecto acima mencionado) dos saberes tradicionais e, para isso, realizado um grande trabalho intelectual para integrar sua análise social num quadro geral de explicação do mundo em que a forma social burguesa apareça como um resultado do desenvolvimento natural da cultura, como se esta tivesse um desenvolvimento natural.

O que precisa ser demonstrado, também segundo o critério da crítica material, é que esse desenvolvimento já é, embora não inteiramente, deter­minado pelas lutas de classes em seus aspectos fundamentais. Nas formações sociais capitalistas, toda forma de saber validada (ciência, filosofia, religião, arte e direito) passa pelas escaramuças das lutas políticas, o que inclui tanto a propriedade dos meios de produção do conhecimento como pela autorização institucional de enunciação.

Portanto, se a passagem histórico-social de um modo social de produção a outro resulta das lutas de classes, a representação simbólico-cultural desta passagem é resultante da combinação entre a necessidade de legitimar a nova ordem e a necessidade de representação inclusivo-existencial do ser humano, secularizada na formação social presente.

 
REFERÊNCIAS  BIBLIOGRÁFICAS
 
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WRIGHT, Erik O. (1981). Classe, Crise e o Estado. Rio de Janeiro, Zahar.


[1] Texto apresentado ao V Encontro de Revistas Marxistas Latinoamericanas em 1999, na PUC-SP.
* Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP, membro do NEILS – Núcleo de Estudos de Ideologias e Lutas Sociais vinculado ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Ci­ências Sociais da PUC-SP e do Conselho Editorial da revista Lutas Sociais.