|
Ano I - Nº 03 - Dezembro de 2001 -
Quadrimestral - Maringá - PR - Brasil - ISSN 1519.6178
|
|
Considerações acerca da solidariedade no
espaço de produção para uma efetiva concretização de alternativas
(Considerations concerning the solidarity in the production space for an effective materialization of alternatives) Maurício Custódio Serafim
[1]
|
||||||||||||||||||||||
|
Resumo: Este trabalho tem como escopo a discussão
da possibilidade da solidariedade fazer parte da estrutura organizacional
das cooperativas. Considerando que este tema está longe de ser banal,
o artigo ressalta que a natureza do espaço de produção – tendo por principal
enclave ordenador a economia – é inadequada para a boa qualidade dos inter-relacionamentos
humanos devido aos elementos controle
e compulsão, característicos desse espaço
existencial. Recorre-se a Alberto Guerreiro Ramos como fonte de conceitos
e categorias para um melhor entendimento e aprofundamento do tema proposto.
É enfatizado que sem a transformação do espaço de produção a fim de abarcar
a razão lúcida – estabelecendo um sistema social misto do tipo economia/isonomia
de modo a restaurar a autodeterminação do indivíduo – a conduta solidária
fica comprometida. Palavras-chave:
solidariedade,
cooperativa, Teoria da Delimitação dos Sistemas Sociais.
Abstract: This study has the objective to discuss the
possibility of the solidarity in making part of the cooperative organization
structure. It is known that, this subject is not considered as something
banal, so the article emphasizes that the essence of the production space
– where the principal space of existence is the economy – is unsuitable
for a good quality of human relationship because of the elements such
as control and compulsion, that are own of this space of existence. Alberto
Guerreiro Ramos' studies are used as source of concepts and categories
to a better understanding of such subject. It is emphasized that without
a production space changing in order to include the lucid reason – establishing
a kind of economy/isonomy, that is a mixed social system, to be possible
to restore the individual's self-determinant – the solidary action will
not the possible. Key words: solidarity;
cooperative organization; Social Systems Delimitation Theory. |
||||||||||||||||||||||
|
Introdução
No Brasil, o fenômeno da precarização das condições e relações
de trabalho vem assumindo grandeza preocupante sob o ponto de vista
dos trabalhadores. Alicerçado na reestruturação produtiva, juntamente
com o pior desempenho da atividade econômica do país durante todo o
século XX ocorridos na década de 1990, engendrou-se um quadro de destruição
de mais de 3 milhões de empregos (MATTOSO, 1999). De acordo com Pochmann
(2001), um dos principais fatores para a perda de dinamismo na economia
brasileira foi a inserção desta à globalização sem levar em conta políticas
industrial ativas, comercial defensiva e social compensatória, deixando
o mercado de trabalho exposto de forma frágil às vicissitudes do capital. Propostas tanto em nível de políticas macroeconômicas quanto
iniciativas em nível regional e local estão surgindo como frutos da
busca de alternativas para o atual quadro socioeconômico brasileiro.
Dentre elas está se destacando a economia
solidária (SINGER; SOUZA, 2000), que surge como modo de produção
e distribuição alternativo ao capitalismo. Possui como desafio maior
promover mudanças qualitativas das condições e relações de trabalho,
por fazer a exigência que seus integrantes optem por valores de cunho
comunitário e pela primazia do trabalho sobre o capital. De acordo com
Singer (2000, p.13) a unidade típica da economia solidária é a cooperativa
de produção, cujos princípios organizativos são: posse coletiva dos
meios de produção pelos trabalhadores que as utilizam para produzir;
gestão democrática da organização, seja por participação direta ou por
representação; repartição da receita líquida entre os cooperados por
critérios aprovados após discussões e negociações entre todos; destinação
do excedente anual também por critérios acertados entre todos os envolvidos. Neste sentido, talvez seja banal afirmar que a economia solidária
esteja ancorada na solidariedade, dado que seu nome já a contempla.
A cooperativa, como unidade típica dessa proposta de economia, deve
ser o locus da materialização da solidariedade,
a transfiguração de valores abstratos em atos concretos. Contudo, o
sentimento de banalidade pode deixar passar uma pergunta que, quando
exposta, causa um certo constrangimento para aqueles que já a pressupõe:
é possível a solidariedade no espaço de produção
de cooperativas? Devido à abordagens aligeiradas que não levam a
sério perguntas deste estilo, são cometidos absurdos teóricos por não
considerarem características específicas do espaço de produção – aqui
definido como o local ou ambiente onde se realiza a ação de produzir
bens e/ou serviços. Contra esse tipo de abordagem, Alberto Guerreiro Ramos se
configura como um personagem ímpar no meio acadêmico brasileiro. Foi
um desses intelectuais que de vez em quando aparecem na academia para
incomodar, e com seus perspicazes e contundentes questionamentos e formulações
teóricas, nos faz acordar de nossos sonhos dogmáticos, como diria Kant.
Mulato baiano, nascido em Santo Amaro da Purificação em 1915 e falecido
em 1982 aos 67 anos de idade, teve sua trajetória marcada por importantes
contribuições na área da sociologia, sendo A
redução sociológica seu trabalho mais conhecido. Durante o período
em que foi professor na Fundação Getúlio Vargas, na Universidade de
Sorbone e na Universidade do Sul da Califórnia, desenvolveu a Teoria
da Delimitação dos Sistemas Sociais, elaborada em diversas de suas obras,
culminando com o livro A nova ciência das organizações, de 1981. Para ser formulada, essa
teoria necessitou de uma profunda avaliação da concepção do mercado
como ente psico-sociológico e de seus efeitos sobre a vida humana associada.
E será dessa fonte que o presente trabalho irá se utilizar, com o intuito
de "desbanalizar" a pergunta colocada acima. Para tal, num primeiro momento será discutido o conceito
de solidariedade e se fará uma tentativa de relacioná-lo com a questão
da racionalidade, com o intuito de se fazer uma ponte à Teoria da Delimitação
dos Sistemas Sociais. Num segundo momento, a teoria será discutida e
suas principais categorias descritas, a fim de proporcionar o instrumental
necessário ao entendimento do tema deste artigo. Por último, as conseqüências
dessa análise para a possibilidade da solidariedade no espaço de produção
das cooperativas terão seu espaço.
Solidariedade e racionalidade
No entender de Assmann e Sung (2000), a palavra solidariedade se encontra numa verdadeira
selva de significados e conceitos. Longe de ser um termo unívoco, ele
é polissêmico e por vezes ambíguo. Por isso a importância de se estabelecer
neste trabalho uma conceituação que atenda seu fim. Geralmente, solidariedade possui um sentido moral que vincula
o indivíduo à vida, aos interesses e às responsabilidades de um grupo
social, de uma nação ou da própria humanidade. Ela indica uma relação
de responsabilidade entre pessoas unidas por interesses comuns, de maneira
tal que cada elemento do grupo se sinta na obrigação moral de apoiar
os demais. Contudo, não se confunde com qualquer forma de sectarismo,
corporativismo ou egoísmo coletivo. Antes de tudo, seu fundamento se
baseia no reconhecimento de que estamos todos interconectados com todos
e com todo o cosmos. Dessa forma, interesses individuais e a solidariedade
devem ser combinados de forma dinâmica, dialógica e inteligente, sempre
tendo em vista a unidade na diversidade (ELCSS, 1998). A solidariedade deve ser muito mais que um conceito, devendo
supor comprometimento com a ação, com a prática. Ela deve gerar estilos
de vida nas quais a pessoa, sempre que necessário, seja capaz de renunciar
ao seu próprio interesse em favor do interesse, bem-estar e progresso
de outros ou da coletividade (ELCSS, 1998). Há, no entanto, elementos que impedem que tal estilo de vida
se hegemonize no espaço de produção e que são exclusivos desse espaço.
De acordo com Ramos (1989), é inadequado afirmar que o interesse pelas
pessoas possa ser harmonizado com o interesse pela produção de mercadorias.
Aponta que esta harmonização só se justifica à base de uma abordagem
unidimensional da organização e do ser humano. Nesse sentido, o comportamento
administrativo é uma categoria de conformidade a prescrições formais
e impostas. Quanto mais a atividade humana é considerada administrativa,
menos ela é uma expressão de realização pessoal, pois as exigências
próprias das organizações econômicas não coincidem, necessariamente,
com aquilo que é requerido pela boa qualidade da existência humana em
geral. Assim sendo, o comportamento administrativo é intrinsecamente
vexatório e incompatível com o pleno desenvolvimento das potencialidades
humanas (RAMOS, 1989). Desta forma, o ser humano – enquanto participante
apenas do enclave econômico – é submetido a compulsões operacionais
que o inibem de se tornar uma pessoa solidária. Braverman (1980) afirma
que, de fato, o controle é
o conceito fundamental de todos os sistemas gerenciais
[2]
. E este também é o elemento central de um outro conceito
que se denominará neste trabalho de racionalidade
instrumental (ou funcional) reducionista, que será estudada a partir
de agora, juntamente com um outro conceito denominado de racionalidade substantiva. Esse par conceitual
é trabalhado por Ramos, que por sua vez é de origem weberiana. Weber
(1984) faz a distinção entre a racionalidade
instrumental ou funcional (Zweckrationalität)
que é determinada por uma expectativa de resultados ou "fins calculados"
e racionalidade substantiva ou
de valor (Wertrationalität)
que é determinada independente do cálculo custo/benefício e não caracteriza
nenhuma ação humana que atua de forma hipotética. Na racionalidade funcional
[3]
não se aprecia propriamente a qualidade intrínseca
das ações, mas sua maior ou menor convergência, para atingir um fim
preestabelecido, independente do conteúdo que possam ter as ações. Esta
racionalidade não se pergunta pelos seus pressupostos e nem pelo seu
sentido, agindo na esfera do como sem se perguntar pelo porquê.
Isso determina um nível de ação teleológica exclusivamente técnica,
interesseira, em que predomina a dominação e o controle do sujeito sobre o real; ao sujeito cabe estabelecer os fins
e eleger os meios de toda a ação
[4]
(RAMOS, 1983; MÜHL, 1996). A racionalidade substantiva
[5]
é o critério de
todo ato intrinsecamente
inteligente, que se baseia num conhecimento lúcido e autônomo de relações
entre fatos. É um ato que atesta a transcendência do ser humano, sua
qualidade de criatura dotada de razão. Aqui a razão, que preside ao
ato, não é sua integração positiva numa série sistemática de outros
atos, mas o seu teor mesmo de acurácia intelectual (RAMOS, 1983, p.39).
E continua Ramos,
esse é um ato de domínio
de impulsos, sentimentos, emoções, preconceitos, e de outros fatores
que perturbam a visão e o entendimento inteligente da realidade. De
ordinário, a racionalidade substantiva é estreitamente relacionada com
a preocupação em resguardar a liberdade
[6]
. Nesta racionalidade,
seus pressupostos e seu sentido ganham importância, preferindo antes
agir na esfera do porquê,
participando da esfera do como
apenas por acidente. Em resumo, a razão
como força ordenadora da mente – permitindo o equilíbrio dos cosmos
interno – se constitui de uma dimensão instrumental voltada para o cálculo
de conseqüências e de outra dimensão entendida como substantiva, direcionada
a elaborar e julgar os valores associados à própria vida. Estas duas
dimensões da razão permitem ao ser humano calcular e legitimar, ou não,
seus atos, fruto da liberdade de escolha que só ele possui entre todos
os seres vivos. Será chamada a razão que professa essas duas dimensões
de razão lúcida. Como visto anteriormente, o controle é a categoria fundamental
dos sistemas gerenciais e um elemento essencial da racionalidade funcional.
Para que o ser humano possa assumir um estilo de vida solidário, é necessário
que ele possa exercer e exercitar sua razão lúcida. Contudo, o espaço
de produção, sob a égide da compulsão e do controle, permite predominantemente
o exercício de apenas uma das dimensões da razão. Neste sentido, o ser
humano se desintegra, se reduz a um maximizador da utilidade, ficando
sob a égide de um espaço sobrepujado pela racionalidade funcional reducionista.
Reducionista porque incompleto, sem abarcar todas as dimensões humanas.
Impossibilitada de ser exercida neste espaço, a dimensão substantiva
da razão deve ser de alguma forma dominada ou anestesiada para que a
pessoa se sinta menos violentada em sua humanidade. Destarte, a capacidade
de ser solidário fica comprometida, pois a capacidade de elaboração
e o julgamento de valores associados à vida – faculdade associada à
racionalidade substantiva – se encontra em estado letárgico pelas características
desse espaço. Para um melhor entendimento das afirmações colocadas e para
a ampliação da discussão da possibilidade da solidariedade no espaço
de produção, a seguir será analisada a proposta de Guerreiro Ramos,
que nos convida a enxergar a realidade social sob uma ótica multifocal.
A Teoria da Delimitação
dos Sistemas Sociais
A delimitação dos sistemas sociais, proposta por Ramos (1989),
parte do pressuposto que o ser humano é mutidimensional por natureza,
dotado de uma força ativa que lhe permite ordenar a vida em sua psique.
Essa força é a razão, descoberta
pelos gregos, pedra angular no alicerce da vida humana associada. O objetivo de Ramos é contrapor um modelo de análise de sistemas
sociais e de delineamento organizacional de múltiplos centros ao modelo
atual centralizado no mercado, que tem dominado as empresas privadas
e a administração pública nos últimos cem anos. Sustenta que uma teoria
da organização cuja principal categoria é o mercado, não é aplicável
a todos os tipos de atividade, mas apenas a um tipo especial. Afirma
que a sociedade se encontra sob o domínio do mercado e, portanto, sujeito
as suas leis. Segundo comprova, as leis do mercado foram construídas
sobre os pilares da razão instrumental reducionista. A aplicação de
seus princípios a todas as formas de atividade está dificultando a realização
de possíveis novos sistemas sociais, necessários à superação de dilemas
básicos de nossa sociedade. Demonstra como as leis do mercado se apossam
de todos os espaços da existência humana, propondo que estes espaços
ou enclaves sejam delimitados. Dito de forma simples, o autor propõe
que o espaço de produção formal seja delimitado, não alcançando a vida
completa do ser humano, pois entende que o autodesenvolvimento da pessoa
humana é um projeto para o qual a organização formal não proporciona
condições propícias. Ramos procura um modelo alternativo de pensamento devido
às limitações e influência desfiguradora da vida humana como um todo
proporcionada pela hegemonia de mais de duzentos anos da sociedade centrada
no mercado. Este modelo tenciona restaurar o que a sociedade centrada
no mercado deformou ou, em parte, destruiu: os elementos permanentes
da vida humana. O ser humano, diz Ramos, para viver de acordo com as prescrições
da sociedade centrada no mercado, é coagido a reprimir a função normativa da razão no desenho de
sua existência social, trazendo conseqüências funestas para sua capacidade
de coordenação ou regulação das próprias ações como ser humano livre.
Inerentemente à sociedade centrada no mercado é a astúcia de induzir
o ser humano a internalizar aquela coação como condição normal de sua
existência. A teoria da delimitação se estrutura, portanto, na concepção
clássica da razão, no autodesenvolvimento do ser humano, na crítica
ao reducionismo da razão instrumental que se estabeleceu na sociedade
como um todo e na ordenação delimitativa dos diversos espaços da existência. Antes de partir para a descrição das principais categorias
da teoria, cabe aqui discutir a multidimensionalidade
do ser humano, tomando como referência o legado deixado pelos gregos.
Para Platão (1997), a alma (em grego psyché)
– entendida aqui no sentido
em que os gregos a atribuíam como uma espécie de energia, típica dos
seres animados, responsável por seus movimentos e ações – é constituída
de três elementos ou dimensões. Essas são verificáveis por meio da análise
da motivação humana e da expressão dos conflitos que decorrem dos diversos
apelos motivacionais. Tomando o conceito de razão concebida pelos pensadores
clássicos gregos como uma "força ativa na psique humana que habilita
o indivíduo a distinguir entre o bem e o mal, entre o conhecimento falso
e o verdadeiro e, assim, a ordenar sua vida pessoal e social" (RAMOS,
op.cit, p. 2-3), fica claro que o ser humano pode decidir entre diversos
apelos motivacionais por meio da dimensão da razão. Os motivos que nos
levam a manifestações próprias do ambiente da convivialidade, tais como
o orgulho e a indignação, entre outras, são expressas pela dimensão
do espírito ou sentimento. Já os motivos primários se expressam pela
dimensão da necessidade, desejo ou apetite. Resumindo, o objeto da razão
é a sabedoria; o do espírito/sentimento é a honra; e o do apetite é
o ganho para a satisfação das necessidades sensuais. Assim, a multidimensionalidade
do ser humano requer que o mesmo deva possuir a razão, espírito/sentimento
e apetite. Cada uma destas dimensões proporciona ao ser humano o desenvolvimento
de capacidades que lhe são necessárias para realizar sua vida. Nos diálogos
de A República, Platão (op.cit.,
p.145) deixa claro a idéia de delimitação dos elementos humanos quando
persegue o conceito de justiça, afirmando que ela "não governa
os assuntos externos do homem, mas apenas seus assuntos internos, seu
ser verdadeiro, não deixando que nenhum dos elementos da alma exerça
uma tarefa que não lhe é específica, nem que outros elementos usurpem
mutualmente suas respectivas funções". Para este autor, a delimitação
é uma idéia essencial para que o desenvolvimento do ser humano e da
cidade-estado seja pleno e harmonioso. Com a expansão da descoberta grega da mente, passou-se a
aceitar que o ser humano tenha a capacidade política, em virtude da
existência da razão; capacidade social, devido a sua existência na convivialidade
de outros seres humanos; e a capacidade biológica, em virtude da sua
existência no mundo físico. Assim, o ser humano passou a existir dentro
de uma concepção de animal político, social e biológico, correspondendo
aos três elementos ou dimensões da alma em Platão. Portanto, para que o ser humano exerça sua multidimensionalidade
de modo a ter uma existência completa, os espaços por ele vivenciados
devem permitir que todas suas dimensões sejam exercitadas. Nos dizeres
de Arendt (1983, p.59) "...nenhuma atividade pode tornar-se excelente
se o mundo não proporciona espaço para seu exercício". Se apenas um dos componentes se tornar hegemônico na vida
humana associada, ela se desfigura e deixa de se tornar uma espaço propício
para o desenvolvimento humano. No próximo tópico serão analisadas e
discutidas as principais categorias da teoria de Ramos e sua proposta
de delimitação dos sistemas sociais.
Principais elementos
e categorias da teoria da delimitação dos sistemas sociais Partindo da multidimensionalidade do ser humano, a teoria
da delimitação dos sistemas sociais propõe que os diferentes espaços
da existência humana correspondam a cada uma de suas dimensões. Também
faz parte da teoria o limite que se impõe ao espaço que cada dimensão
deve ocupar na existência humana. De acordo com ela, os valores do espaço
da convivialidade e os da economia/mercado não podem usurpar os do espaço
da razão. A teoria possui uma forte característica que é a de impor
limites ao mercado e a sociabilidade sem, entretanto, desconsiderar
a importâncias de cada uma delas. Mas não advoga um igualitarismo, em
importância, de todos os espaços e dimensões. Determina que a razão
seja suprema frente as demais dimensões, no sentido que os clássicos
lhe atribuíram, pois que essas se subordinam às deliberações daquela. Uma sociedade, tendo como sua ordenadora a razão e tendo
delimitado o espaço da economia/mercado, constitui-se naquilo que Ramos
(1989) definiu como o paradigma
paraeconômico. O autor também afirma que a paraeconomia, além do
que já foi dito, é constituída do mercado como enclave da realidade
multicêntrica, e que nesse paradigma, podem existir múltiplos critérios
substantivos de vida pessoal e uma variedade de padrões de relações
interpessoais. Na concepção do paradigma, o ser humano será incidentalmente
um maximizador da utilidade, devendo se ocupar com o ordenamento de
sua existência conforme suas próprias necessidades de realização. Além
disso, nesse espaço social, o indivíduo não é forçado a se conformar
inteiramente ao sistema de valores de mercado. Resumidamente, o espaço retratado pelo paradigma é um espaço
em que o indivíduo pode ter ação adequada, em vez de se comportar apenas
de maneira que venha a corresponder às expectativas de uma realidade
social dominada pelo mercado. Desta forma, é aberta à possibilidade
da solidariedade ser exercitada e exercida pelos indivíduos. A figura a seguir mostra as dimensões principais do paradigma
paraeconômico. Ramos alerta que as categorias, enclaves ou espaço de
existência do paradigma (em negrito na figura) devem ser consideradas
como elaborações heurísticas, no sentido weberiano. Portanto, não se
deve esperar nenhuma situação no mundo concreto que coincida com esses
tipos ideais, existindo apenas sistemas mistos.
O paradigma paraeconômico
Fonte: Ramos, 1989
É necessário agora uma explicação de alguns detalhes específicos
do paradigma. Orientação individual
e comunitária – No mundo social visualizado pelo paradigma, há lugares para a realização
individual livre de prescrições impostas, e essa realização tanto pode
ocorrer em pequenos ambientes exclusivos, quanto em comunidades de regular
tamanho. Nesses lugares alternativos ou espaços de existência, é possível
uma verdadeira escolha pessoal, tendo-se em mente a multidimensionalidade
do ser humano. Ramos se detém um pouco mais no que não seria uma escolha
pessoal nos termos em que coloca em sua teoria. Essa não seria uma escolha
entre quais produtos que seriam melhores para a satisfação pessoal frente
à outros. Em outras palavras, Ramos não reduz o indivíduo a um agente
maximizador da utilidade, cuja "liberdade de escolha" se dá
em atividades de comércio. Para finalizar, é reproduzido um importante
parágrafo (op.cit., p.143) para o entendimento desse tópico: Em vez de proclamar a possibilidade de uma total integração
das metas individuais e organizacionais, o paradigma aqui apresentado
mostra que a realização humana é um esforço complexo. Jamais poderá
ser empreendido num tipo único de organização. Como detentor de um emprego,
o indivíduo é, geralmente, obrigado a agir segundo regras impostas.
Contudo, em diferentes graus, tem ele variadas necessidades. Por exemplo,
precisa participar da comunidade, da mesma forma que tomar parte em
especulações que dêem expressão à singularidade de seu caráter. Os cenários
adequados à satisfação de tais necessidades, embora em grande parte
não estruturados, são até certo ponto modelados por prescrições ou a
que se chegou por consenso, ou que foram livremente auto-impostas.
Prescrição contra ausência
de normas
– Para que se consiga a execução de qualquer trabalho, é preciso que
haja a observância de normas operacionais. Há uma relação inversamente
proporcional entre o caráter econômico do trabalho e a oportunidade
de realização pessoal. Quanto maior a primeira, menos chances tem de
se obter a segunda, isso porque há uma menor oportunidade de uma verdadeira
escolha pessoal, no sentido que já foi discutido neste trabalho, quanto
maior for as prescrições operacionais formais e impostas sobre o indivíduo.
Na linguagem kantiana, o indivíduo estaria nesse contexto de prescrições
sob o primado da vontade heterônoma, e não da vontade autônoma, sendo
esta última uma exigência necessária para a conduta solidária. Como
Ramos afirma (op. cit., p.144), o comportamento administrativo é uma
categoria de conformidade
a prescrições formais e impostas. O autor ainda chama a atenção para
dois conceitos que a teoria administrativa e econômica tradicional corrente
dá legitimidade: o processo de superorganização
e de despersonalização do
indivíduo, no contexto do sistema de mercado. A superorganização ocorre
com a transformação de toda a sociedade num universo operacionalizado,
em que se espera que o indivíduo viva como um ator, a quem cabe um papel
determinado. Numa sociedade superorganizada, o indivíduo se despersonaliza,
ou seja, perde a identidade pessoal, na medida em que é induzido a interiorizar
uma determinada identidade, exigida pelos papéis que se espera que desempenhe.
Contudo, a teoria da delimitação não pretende a eliminação
das prescrições do mundo social. Entende que as mesmas são indispensáveis
à manutenção e ao desenvolvimento do sistema de apoio de qualquer coletividade.
No entanto, interessa-se pela delimitação dos enclaves em que cabem
tais prescrições, e nos quais podem até ser legitimamente impostas ao
indivíduo. Nos sistemas sociais que visam maximizar a realização pessoal,
as prescrições não são eliminadas, mas mínimas, sendo estabelecidas
por consenso, sem transformar, dessa forma, os indivíduos em agentes
passivos. Para finalizar, a total eliminação das prescrições e das normas
é incompatível com uma significativa realização humana, no contexto
do mundo social. Os fatos classificados nas categorias de horda e anomia
põem em risco a viabilidade de toda a tessitura social. Agora parte-se para a conceituação das categorias apresentadas
no paradigma. A economia é um
espaço altamente ordenado e prescritivo, estabelecido para a produção
de bens e/ou para a prestação de serviços e onde o mercado tende a se
tornar a categoria predominante na ordenação da vida individual e social.
Nesse contexto, razão é normalmente sinônimo de cálculo de conseqüências.
Assim como se apresenta, esse conceito de razão é parcial, uma vez que
carece de seu elemento substantivo. É na economia que as pessoas detêm empregos e realizam trabalhos,
raramente se ocupam. Esse fato torna-se evidente quando se considera
que o "trabalho é a prática de um esforço subordinado às necessidades
objetivas inerentes ao processo de produção em si", enquanto "a
ocupação é a prática de esforços livremente produzidos pelo indivíduo,
em busca de sua realização pessoal" (RAMOS, op.cit., p.130). Já o emprego se constitui em um posto de trabalho formal
junto a uma organização ou a uma pessoa, dentro do escopo do mercado.
Os efeitos que o emprego exerce sobre a vida humana em geral são alienantes,
transformando o ser humano em "vítima patológica da sociedade centrada
no mercado" (RAMOS, 1981, p.98-108). A isonomia (igualdade
de normas) é um espaço ou contexto em que todos os membros são iguais.
É uma oportunidade para o exercício mais igualitário de vivência, exercitando-se
a convivialidade. De acordo com Ramos (op.cit., p.150-151) são cinco as características
desse espaço. O primeiro aspecto se alude ao seu objetivo essencial
de permitir a realização de seus membros, independentemente de prescrições
impostas. As prescrições, quando inevitáveis, se estabelecem por consenso
e visando contribuir para a boa vida do conjunto. A segunda característica
é o caráter autogratificante do espaço, pois os indivíduos que nele
livremente se associam desempenham atividades compensadoras em si mesmas.
As atividades realizadas nesse contexto
são promovidas como vocações, não como empregos, estando aí a
terceira características das isonomias. Nelas, a recompensa básica do
indivíduo está na realização dos objetivos intrínsecos daquilo que faz,
não na renda eventualmente auferida por sua atividade. O quarto aspecto
é a não diferenciação entre liderança ou a gerência e os subordinados.
Dessa forma, uma isonomia perderia seu caráter se seus membros se dicomizassem
entre aqueles que tomam decisões ou estabelecem políticas e aqueles
que simplesmente acatam tais decisões. A isonomia é concebida como uma
verdadeira comunidade, onde a autoridade é atribuída por deliberação de todos.
O sufixo nomo indica que,
nesse tipo de associação, não há um órgão diretor determinado e exclusivo,
como podem sugerir os sufixos arquia
e cracia, em monarquia e democracia. Portanto,
isonomia não é uma democracia. Finalmente, a quinta característica refere-se
ao seu tamanho. Se a isonomia aumentar de tamanho além de um determinado
ponto ótimo, de modo a surgir e se desenvolver relacionamentos secundários
e categóricos, eliminando os contatos face-a-face, a isonomia necessariamente
declinará, transformando-se numa democracia, oligarquia ou burocracia. O espaço da fenonomia
(do grego phaineim = mostrar)
caracteriza-se como uma oportunidade para o exercício da realização
pessoal. Deve ser entendida como um estado de busca permanente, já que
é próprio do ser humano dar significado à vida. Por isso, pode-se afirmar
que a fenonomia é uma oportunidade de realizar algo que preencha a lacuna
o sentido de sua existência. Este sistema social tem caráter esporádico ou mais ou menos
estável, iniciado por um indivíduo, ou por um pequeno grupo. A subordinação
à prescrições formais são mínimas e a opção pessoal é máxima, constituindo-se
como um ambiente necessário às pessoas para a liberação de sua criatividade,
sob formas e segundo maneiras escolhidas com plena autonomia. Seus membros
empenham-se apenas em obras automotivadas, o que significa que, de modo
geral, se mantêm altamente ocupados e seriamente comprometidos com a
consecução daquilo que consideram importante. As fenonomias são cenários
sociais protegidos contra a penetração do mercado e, portanto, os critérios
econômicos são incidentais em relação à motivação de seus membros. Apesar
do interesse em sua individualidade, o membro desse espaço tem consciência
social. Sua opção visa tornar outras pessoas sensíveis quanto a possíveis
experiências que são capazes de partilhar ou apreciar. Em suma, o exercício
de qualquer atividade que engrandeça, que possa ser classificado como
nobre ou que proporcione o sentimento de satisfação íntima, pertence
ao espaço fenonômico. Exemplos são as atividades relacionadas com as
artes, alguns trabalhos intelectuais e o trabalho em prol do bem comum. A anomia, horda e o isolado são categorias
anormais, que se regem pela marginalidade do sistema social. A anomia define pessoas destituídas de senso
social e de vida pessoal. Elas não têm um norte para suas vidas. A anomia
caracteriza a pessoa que perdeu o sentido para sua vida. A horda refere-se ao sentido coletivo da anomia, caracterizado como
um conjunto de pessoas sem rumo, sem sentido da ordem social. O isolado (insulação), diferentemente do indivíduo anômico e os membros da
horda, está totalmente comprometido com uma norma que para ele é única.
Considera o mundo social inteiramente incontrolável e sem remédio. Desta
forma, encontra ele um canto em que, de forma consistente, pode viver
de acordo com seu peculiar e rígido sistema de crenças. O isolado se
torna um alienado, no sentido político. Ele não perde um certo senso
do social, mas quando o perde, transforma-se em anômico. As categorias expostas do paradigma paraeconômico pressupõem
que, em cada um desses espaços, projeta-se um modelo de ser humano.
Para efeito deste trabalho, será discutido cada um dos modelos, associando-os
a um ou mais espaços ou categorias da delimitação dos sistemas sociais. Contudo, antes é necessário alertar que os modelos apresentados
são do tipo heurístico e, portanto, não existentes em sua forma pura
no contexto real, apenas em formas mistas. Alerta-se ainda que, assim
como esses espaços perpassam a existência humana como um todo, os modelos
de ser humano também estão presentes em maior ou menor grau, em cada
ser humano. O homem operacional
se caracteriza por buscar apenas sua subsistência em termos de necessidades
básicas, tanto as de natureza primária quanto as sociais mais elementares.
Ele tem sido considerado um recurso organizacional a ser maximizado
em termos de produto físico mensurável. De acordo com Ramos (1984),
as demais características do homem operacional são: a passividade; o
ajustamento via treinamento formal; a motivação para o trabalho com
base em obtenção de vantagem de recompensa material e econômica; a ausência
de preocupação ética associada ao trabalho; a ausência de liberdade
pessoal no âmbito do espaço da economia; a ausência de recompensa intrínseca
no exercício do trabalho, tendo como conseqüência a satisfação postergada.
O espaço do homem operacional corresponde, em larga escala, à economia. O modelo de homem reativo
é fruto de uma nova visão da motivação e da constatação da influência
de seus sentimentos e valores no espaço de produção econômica ou organizacional.
Contudo, os objetivos buscados não foram realmente alterados, em relação
ao modelo do homem operacional. Como Ramos afirma (1984, p.5) "seu
principal objetivo era o ajustamento do indivíduo ao contexto de trabalho
e não seu crescimento individual. O resultado final de utilização excessiva
de 'relações humanas' foi a total inserção do trabalhador e não seu
crescimento pessoal". O homem reativo se caracteriza pela adaptabilidade
às normas do grupo institucional; pela subordinação aos ditames do grupo
informal e adaptabilidade ao meio. Constitui uma categoria que expressa
a adaptabilidade e a sociabilidade do ser humano, imergindo-o no grupo
e subordinando-o a ele. O espaço do homem reativo é a economia, a burocracia,
ou seja, o ambiente de massas ou grupos sociais maiores. Ele também
pertence, eventualmente, aos espaços isonômicos ou conviviais. O homem parentético
[7]
é a concepção do ser humana na dimensão lúcida
da razão. Caracteriza-se por ter uma participação ativa nas organizações;
ter consciência crítica acerca dos valores organizacionais; compreender
os ditames da razão substantiva, em contraposição às condicionantes
do comportamento definidas a partir das imposições externas; dimensionar
e avaliar, permanentemente, o espaço em que vive; poder romper com suas
raízes; estar como que em suspenso no seu meio social, procurando compreendê-lo;
estar comprometido na construção da vida particular e social, com base
em valores éticos; compreender e exercitar a vida em cada espaço de
existência humana. Ele procura dar significado à vida com auto-estima
e autoconfiança. O homem parentético constitui uma categoria que expressa
a autonomia e a atividade (no sentido contrário ao da passividade).
Os espaços em que ele encontra plena possibilidade de ação é o da fenonomia
e o da isonomia. Ramos (1984) associa os modelos de homem às dimensões da
razão. Dessa forma, o homem operacional se fundamenta na dimensão biológica
ou física; o homem reativo na dimensão social; e o homem parentético
se firma na dimensão política. Cabe lembrar que é necessária a presença
destes modelos em cada ser humano, pois sem elas, perde sua característica
de humanidade, passando à condição de unidimensionalidade. O quadro
a seguir mostra de forma gráfica as idéias até aqui expostas.
Síntese das principais categorias da teoria da delimitação dos
sistemas sociais
Elaborado pelo
autor a partir dos fundamentos teóricos apresentados por Ramos (1984,
1989)
[8]
Resta agora discutir as principais decorrências da teoria
da delimitação dos sistemas sociais para a questão da solidariedade
no espaço de produção.
Solidariedade no espaço de produção: algumas ilações da teoria
de Ramos
O resgate da natureza humana é proporcionado pela teoria
da delimitação, na medida em que ela o propõe, entendendo o ser humano
em sua multidimensionalidade. Consequentemente, é permitido vislumbrar
o homem além de sua dimensão econômica. Dessa forma, descortina-se a
possibilidade de ver o homem na organização como um ser que age e não
apenas um ser que se comporta, isto é, um ser que se autodetermina e
não apenas aquele que se conforma a regras exteriores. Uma outra decorrência está na compreensão da razão em sua
lucidez. Com isso, se introduz um novo entendimento da solidariedade
no contexto organizacional, abrindo espaço para a razão substantiva
como partícipe da ordenação da vida humana associada. Com efeito, a
capacidade de normatizar a conduta humana é restaurada, pois os valores
intrínsecos do ser humano podem participar como referenciais da determinação
do sentido que ele (o ser humano) pode dar a cada ação que pratica.
Essa conclusão é importante na medida em que – como já discutido – a
solidariedade não se estabelece num espaço existencial por meio de normas
ou regras impostas, mas da livre escolha da pessoa em adotá-la como
estilo de vida. A solidariedade não pode ser totalmente compreendida no contexto
da produção apenas pelo exercício da razão moderna. Essa é sempre intencional,
isto é, está sempre condicionada ao objetivo pela qual é exercida. Em
outras palavras, a razão moderna é a razão instrumental ou funcional,
que constitui apenas uma das duas dimensões da razão lúcida. Para que a solidariedade possa se estabelecer num contexto
social, esse deve se sustentar sobre um paradigma que parta da premissa
da multidimensionalidade humana, para que haja a possibilidade do uso
da racionalidade substantiva nesse espaço, condição necessária para
a prática da solidariedade. Espaços que satisfazem essas condições são as isonomias e
as fenonomias, adequados à plena possibilidade de ação do homem parentético.
Nesse sentido, para que a solidariedade no espaço de produção de uma
cooperativa seja efetivamente o critério de relacionamento em sua estrutura
[9]
, tal espaço deve ser transformado
– superando seu caráter meramente econômico – num espaço constituído
em alto grau pelo enclave isonômico.
Em outras palavras, é condição sine
qua non para o estabelecimento da solidariedade num espaço de produção
que esse seja um sistema misto formado pelos enclaves economia/isonomia. Isso significa que tal espaço de produção se apresenta com
as seguintes características apontadas a seguir: a) há a observância
de normas operacionais, mas que não compromete a oportunidade de uma
verdadeira escolha pessoal; b) as prescrições são estabelecidas por
consenso e visando contribuir para a boa vida do conjunto; c) recompensa
básica do indivíduo é um misto da renda obtida de sua atividade e da
auto-satisfação na realização dos objetivos intrínsecos daquilo que
faz; d) mecanismos criados para a eliminação da dicotomia concepção-execução,
para que não haja diferenciação entre aqueles que tomam decisões ou
estabelecem políticas e aqueles que apenas acatam tais decisões; e)
autoridade é atribuída por deliberação de todos, constituindo-se, portanto,
numa verdadeira comunidade; f) o tamanho (número de pessoas) deve proporcionar
contatos face-a-face, não podendo exceder além de um determinado ponto
ótimo, de modo a surgir e se desenvolver relacionamentos secundários
e categóricos. Sem os contatos face-a-face, o enclave isonômico declinará,
prevalecendo o econômico. A capacidade de sobrevivência do cenário isonômico
fica comprometida quando o número de seus membros excede a cinqüenta.
Desse modo, o espaço de produção se tornará uma burocracia, implicando
numa perda da capacidade do ser humano de se relacionar de maneira solidária.
Últimas palavras
A pergunta "é possível a solidariedade no espaço de
produção de cooperativas?" foi parcialmente respondida no tópico
anterior. É claro que não se quer advogar que essas considerações são
suficientes para o estabelecimento da solidariedade neste cenário. Tal
afirmação seria imprudente. Este trabalho apenas quer frisar que esses
critérios são condições necessárias para que se possa travar uma
conversa mais enriquecedora acerca da solidariedade em cooperativas.
Sem o entendimento de que as cooperativas precisam transformar seu espaço
de produção para que o enclave da isonomia passe a ser seu partícipe,
propostas sérias como a economia solidária – que visa a mudança qualitativa
das relações de e no
trabalho – podem ficar comprometidas. É de se esperar que a essas alturas a desbanalização da pergunta
feita esteja um pouco mais clara. Não basta um setor de recursos humanos
e algumas dinâmicas de grupo para que de imediato se crie um ambiente
de solidariedade nos espaços de produção de cooperativas. Realidades
organizacionais que almejam ser alternativas precisam ser entendidas
à luz de categorias que permitam enxergá-las de forma multiespacial,
de modo que se construa um ambiente verdadeiramente humano e, por conseguinte,
aberta para a possibilidade do estabelecimento de uma estrutura organizacional
solidária. Por fim, sugere-se neste artigo que Alberto Guerreiro Ramos
seja resgatado e estudado, por se entender que seu trabalho se mostra
à altura do presente questionamento do paradigma que estrutura nossa sociedade
ocidental, constituindo-se de uma análise profunda e abrangente dos conceitos
e categorias para o entendimento da realidade organizacional.
|
||||||||||||||||||||||