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Ano I - Nº 03 - Dezembro de 2001 -
Quadrimestral - Maringá - PR - Brasil - ISSN 1519.6178
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Trabalho
e educação na produção capitalista flexível Vanderlei Amboni
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RESUMO: A organização do trabalho flexível
instituiu uma determinada racionalidade no modo de produzir mercadorias
para o mercado multinacional e, para este fim, buscou estabelecer regras
de flexibilização nas relações de produção no mundo do trabalho capitalista,
criando um trabalhador polivalente e qualificado para as exigências impostas
pela automação das máquinas. Essa organização racional do trabalho flexível, estabelecida
no interior do espaço produtivo automatizado, teve como objetivo o aumento
da capacidade produtiva da “classe que vive do trabalho” e, conseqüentemente,
uma maior extração de mais valia. PALAVRAS-CHAVE: Reestruturação Produtiva, Racionalidade
administrativa, Flexibilização, Polivalência e Ohnismo. |
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INTRODUÇÃO O objeto de estudo que pretendemos
investigar é a relação social estabelecida no interior do espaço produtivo,
a partir da organização social do trabalho flexível e do controle que
a mesma exerce sobre a classe que vive do trabalho e a educação
necessária para a formação deste trabalhador
polivalente e flexível.
1. RACIONALIDADE PRODUTIVA: Métodos Organizacionais e Controle Ideológico
da Classe que Vive do Trabalho
O sistema Toyota teve sua origem na necessidade particular
que se encontrava o Japão de produzir pequenas quantidades de numerosos
modelos de produtos; em seguida evoluiu para tornar-se um verdadeiro
sistema de produção. Dado sua origem, este sistema é particularmente
bom na diversificação. Enquanto o sistema clássico de produção de massa
planificado é relativamente refratário à mudança, o Sistema Toyota,
ao contrário, revela-se muito plástico; ele adapta-se bem as condições
de diversificação mais difíceis. É porque ele foi concebido para isso.
[1]
A
acumulação de capitais, por parte da burguesia japonesa necessitava
de um novo projeto que assegurasse a reconstrução do país ¾ pós Segunda Guerra Mundial ¾, sob bases sólidas na reorganização social e, no
mundo do trabalho, adequasse a produção às exigências da sociedade.
Com esse objetivo, a Toyota
[2]
, nos idos de 40, enfrenta grave crise e, para sua
sobrevivência dispensou um quarto da sua força de trabalho, através
de acordo com o sindicato, e assegurou aos trabalhadores remanescentes
a vitaliciedade no emprego sob a condição da flexibilidade do trabalho. Taichiro
Ohno, engenheiro-chefe da Toyota, empreendeu uma reengenharia
[3]
no modo de produzir mercadorias, para superar a crise
da empresa capitalista japonesa e aumentar a produção, aproveitando o máximo da capacidade produtiva da classe
que vive do trabalho. O acordo, entre a Toyota e o sindicato, criou
o emprego vitalício para os trabalhadores. A força de Trabalho, neste
processo, segundo Womack, tornou-se um capital fixo, tanto a curto como
a longo prazo. Assim,
para adequar a produtividade no mundo do trabalho à real capacidade
produtiva da empresa japonesa, Ohno iniciou suas “experiências” introduzindo
novos conceitos de produção. Para
Womack:
...Seu
primeiro passo foi agrupar os trabalhadores em equipes, com um líder
de equipe no lugar do supervisor. Cada equipe era responsável por um
conjunto de etapas de montagem e uma parte da linha, e se pedia que
trabalhassem em grupo, executando o melhor possível às operações necessárias.
O líder da equipe, além de coordená-la, realizava tarefas de montagem;
particularmente, substituía trabalhadores eventualmente faltantes ¾ conceitos esses inéditos
nas fábricas de produção em massa. O passo seguinte de Ohno foi atribuir à equipe as
tarefas de limpeza, pequenos reparos de ferramentas e controle de qualidade.
Como último passo, depois que as equipes estavam funcionando a contento,
reservou um horário periodicamente para a equipe sugerir em conjunto
medidas para melhorar o processo...”.
[4]
Neste
processo produtivo, instituído por Ohno, em fins da década de 40, teve início o “círculo de controle da qualidade
- CCQ”
[5]
e, com ele, o controle sobre a produção que é efetivado
no processo produtivo. A
idéia de base dos CCQ é a criação de pequenos grupos de operários, para
discutir e apresentar soluções a partir do seu lugar na produção e no
processo de trabalho. O funcionamento, dessa técnica, implica em estudos
e leituras para o aprimoramento do conhecimento, para que os trabalhadores
possam estar constantemente envolvidos na solução dos problemas que
a empresa possa enfrentar, onde se percebe uma violenta exploração na
força de trabalho. Hirata,
em seus estudos sobre o CCQ, nos diz que a posição do patronato em relação
às técnicas de participação dos trabalhadores nos CCQ tem como objetivo
criar um clima de harmonia entre os empregados visando sua participação
e valorizando sua contribuição como prova de que o trabalhador
está pensando na empresa e não contra ela.
[6]
Escamoteia-se,
nesta posição do patronato japonês, que os CCQ, além de prover gratuitamente o capitalista da força de trabalho, servem como critério de promoção e seleção
dos trabalhadores para possíveis cargos na gerência, punindo aqueles
que se recusam a participar desses círculos.
[7]
O
processo de controle de qualidade total ¾ TQC ¾ nasceu em 1950, no Japão,
diferenciando-se do modelo americano, que controla a qualidade no processo
de produção. No modelo japonês, o controle da qualidade inicia-se na
pesquisa de mercado, buscando identificar o desejo do cliente,
objetivando uma produção de baixo
custo e de qualidade. Para este fim, o TQC requer o envolvimento de
todas as ilhas de produção
[8]
, contribuindo
de forma permanente para o desenvolvimento da qualidade no processo
produtivo e sua manutenção, buscando aperfeiçoar a produção com qualidade
e com um aumento na produção. Em
essência, o paradigma japonês se constitui em combater a
causa dos problemas e não seus efeitos, ou seja, no processo
de produção, quando há falhas, deve-se procurar sua causa ¾ evitando-se a porosidade
na produção ¾, rastreando-a
até chegar às suas origens, utilizando-se da técnica dos cinco porquês
[9]
, solucionando-a para que não volte a ocorrer o problema,
em vez de, simplesmente, substituir a peça defeituosa, que está paralisando
produção. Este
processo de controle de qualidade possui cinco dimensões, que são: 1.
qualidade do produto; 2. custo; 3. eficiência de entrega; 4. moral ¾ que tem por base a satisfação
dos clientes ¾; 5. segurança ¾
dos trabalhadores, dos clientes e da população vizinha à fábrica ¾, que estão voltados à competitividade e ao contínuo
melhoramento da produção, buscando a ampliação do mercado consumidor.
Na
produção fordista, quando é constatado um defeito nas peças, o operário
na linha de montagem não pode parar a produção, pois a mesma é de responsabilidade
do “gerente de produção”. A peça com defeito é “encaixada” e, no final
da linha de montagem, quando todo o processo está concluído, é que irá
ser corrigido o problema, no setor de “retrabalho”
[10]
. Para
resolver o problema dos “defeitos”, Ohno:
“...colocou uma corda sobre cada estação de trabalho,
instruindo os trabalhadores a imediatamente pararem toda a linha de
montagem caso surgisse um problema que não conseguissem acertar. Então,
toda a equipe viria trabalhar naquele problema.
[11]
Para
evitar custos na produção e reduzir o “tempo morto”,¾ pois a linha de montagem parada significa perda de
produtividade ¾ Ohno foi mais longe, instituiu um sistema de resolutividade
frente aos problemas, denominado “os cinco porquês”, no qual, os trabalhadores
são instruídos a se perguntarem sobre o “porque” em “cada nível do
problema, até encontrarem sua derradeira causa, e encontrar uma solução
para que o problema não se repita”. Para
a execução deste processo de trabalho, demanda-se por trabalhadores
polivalentes ou mesmo multiqualificados, o qual rompe com a organização
do trabalho que pressuponha postos de trabalhos fixos. Ou seja, se faz
necessário um trabalhador com competência técnica e qualificado para
assumir o controle de várias máquinas. Os
caminhos buscados por Ohno, para organizar esse novo sistema de produção
estava traçado. Uma “produção enxuta”
[12]
, com trabalhadores flexíveis e integrados na produção,
com o controle de qualidade da produção em suas mãos. Estes trabalhadores
tornaram-se, ideologicamente, co-responsáveis com a empresa, de tal
maneira que incorporaram o “espírito Toyota”, sendo chamados a participar
da “família Toyota”. Ou de outras empresas que adotam esta racionalidade
produtiva. A
ideologia burguesa, gestada na “produção enxuta”, procura estabelecer,
na relação capitalista de produção, um relacionamento cooperativo, aproximando-se
mais a gerência ¾ que tem o papel de controlar o ritmo de trabalho
e a produção ¾ e os trabalhadores, pois a produção depende da integração
de todos os envolvidos no processo produtivo, para o bem da empresa. Com
relação a isso, Markert nos dirá que:
... O novo comportamento gerencial orienta-se pelo
consentimento e pela participação; os processos de aprimoramento estão
interligados num processo de aprendizagem cooperativo que abrange todos
os que fazem parte da empresa e que deve estabelecer-se como estratégia
comunicativa e cooperativa de solução de problemas; a organização do
trabalho deve eliminar a hierarquia e a divisão taylorista, passando
a favorecer, por meio da cooperação dócil, grupos de trabalho e teams.
[13]
O
ideário burguês, acima expressado, se sustenta na concepção de harmonia
entre as classes sociais, pois, evidentemente, parece haver a aceitação
e a incorporação, por parte dos trabalhadores, da “política concorrencial”
e da “competitividade”, imposta nas relações entre capitalistas, a qual
leva os trabalhadores a defenderem seus interesses como se fossem os
da “fábrica”. Defendendo a empresa, o trabalhador estaria defendendo-se
contra o desemprego. O apego do trabalhador pela “sua” empresa é a expressão
máxima da ideologia burguesa, levando Antunes a fazer a seguinte indagação:
“O que é o ‘espírito Toyota’, a ‘família Toyota’, “a Nissan,
fábrica da nova era’, o ‘sindicato-casa’, senão a expressão mais límpida
e cristalina deste mundo do trabalho que deve viver o sonho do capital?”
[14]
. Como
o princípio de organização do trabalho está voltado para a qualidade
total, a “produção enxuta“ procura eliminar os defeitos da produção.
Com este objetivo, o ohnismo instituiu e adaptou vários métodos para
atingir a perfeição do sistema produtivo. Um dos métodos adaptados pelo
ohnismo, foi criado por Shewhart, na década de 30. O ciclo PDCA
[15]
(Plan, Do, Check, Action), que atua no sentido de
analisar constantemente a produção, tendo como fundamento, a busca constante
pela qualidade nos produtos, revendo sempre os princípios produtivos,
reavaliando e corrigindo as possíveis falhas no planejamento.
[16]
O
ciclo repete-se continuamente, a partir dos problemas decorrentes do
processo produtivo detectados na fase de action, levando em consideração
os cinco porquês, com o objetivo de buscar o zero defeito.
Este
princípio, leva todos os envolvidos no processo produtivo a estarem
constantemente aplicados e a ficarem atentos às mudanças que se fizerem
necessárias à produção, realizando-a no sentido de assegurar o sucesso
do produto. Todos
os métodos de trabalho são cuidadosamente planejados e executados. Se,
durante a execução do que ficou determinado pelo planejamento, alguma
coisa sair errado, faz-se uma revisão e uma avaliação do processo produtivo,
buscando soluções para que o erro não se repita durante novo ciclo produtivo. Para
Neves, além do PDCA, o controle de qualidade:
... conjuga sete ferramentas: gráfico de Pareto, diagrama
de causa e efeito, estratificação, lista de verificação, histograma,
diagrama de correlação e gráfico, além de gráficos de controle.
[17]
As
ferramentas indispensáveis para a qualidade total na produção são assim
definidas: a)
O Gráfico de Pareto, criado pelo economista Vilfredo Pareto,
tem como objetivo central identificar as causas principais dos problemas
encontrados no trabalho e buscar soluções efetivas, visando obter o
máximo da produção com a solução dos problemas. b)
O Diagrama de Causa ou Efeito foi desenvolvido por Kaoru Ishikawa,
sendo utilizado quando necessita identificar as causas de um problema.
O diagrama permite aos analistas gráficos a partir dos grupos básicos
de possíveis causas, desdobrar tais causas até os níveis de detalhe
adequado à solução do problema. c)
A estratificação é uma técnica que permite quantificar as causas
de um problema, ordenando-as e desdobrando-as sucessivamente. d)
A Lista de Verificação é um quadro de anotações, onde são
registrados os números
de ocorrências de problemas ou eventos. Sua aplicação consiste na observação
dos fenômenos, registrando-os de forma simples. e)
O Histograma é um gráfico, onde permite-se visualizar os fenômenos
e se ter uma noção da freqüência em que ocorrem. Os
demais gráficos auxiliam os estudos para efetivar uma produção enxuta,
voltada para a qualidade na produção e na distribuição.
Todos
esses elementos compõe o quadro que a fábrica de produção enxuta deve
ter para sua orientação na implantação do programa de qualidade total.
Além disso, deve-se priorizar o “cliente” como
ponto central na sua orientação produtiva. Para
que esse programa seja implantado na fábrica, o principal é o método
cinco S
[18]
, que assegura ao capital, o controle sobre a “classe
que vive do trabalho”, impondo-lhes regras de racionalidade na utilização
e na conservação das máquinas-ferramentas, com a finalidade de maximização
do lucro, pois evita-se o desperdício. O
shitsuke, através de autodisciplina impõe aos trabalhadores a submissão
frente ao capitalista, pois o mesmo consiste na aceitação dos padrões
éticos e morais que “regem a organização onde se trabalha”.
2. PRODUÇÃO ENXUTA: Comportamento produtivo voltado para a competitividade
A
fábrica de produção enxuta é regida por forte princípio de descentralização
e horizontalização da produção, voltada para um mercado exigente e,
por isso, adota estratégias produtivas, na qual seu objetivo consiste...
...na obtenção do erro-zero e do ideal O-Puffer.
Cada um dos membros da empresa ‘responsável pela qualidade de seu
trabalho e do produto e os processos de fabricação devem estar na mais
absoluta sintonia com o estoque de encomendas. O objetivo final é a
realização do princípio Real-Time 1; um
sistema de produção capaz de reagir instataneamente aos desejos dos
clientes. O comportamento ideal dos membros de todos os turnos é a realização
da estratégia Kaizen: o desenvolvimento continuado e cooperativo dos
modos de melhoramento.
[19]
Para
Womack, a produção enxuta tem duas características fundamentais:
...transfere o máximo de tarefas e responsabilidades
para os trabalhadores que realmente agregam valores (...) e, possui
um sistema de detecção de defeitos que rapidamente relaciona cada problema,
uma vez descoberto, sua derradeira causa.
[20]
Coriat
denomina o sistema de produção enxuta como a “fábrica mínima”, conceituando-a
como uma “fábrica reduzida às suas funções, equipamentos e efetivos
estritamente necessários para satisfazer a demanda diária ou semanal”. Para
o funcionamento dessa “fábrica mínima” são introduzidos mecanismos que
asseguram e regulamentam a produção. O just-in-time
[21]
,¾ uma das técnicas introduzidas
¾ “é um instrumento de controle da produção que busca
atender à demanda da maneira mais rápida possível e minimizar os vários
tipos de estoque da empresa”. Antunes
nos diz que:
...a produção é variada, diversificada e pronta para
suprir o consumo. É este que determina o que será produzido, (...).
Desse modo, a produção sustenta-se na existência do estoque mínimo
....
[22]
Sobre o Kanban
[23]
¾ sistema de supermercados ¾ o seu uso se dá, segundo Coriat, porque Ohno leu
em um artigo na imprensa que uma empresa norte-americana de aviões havia
adotado o sistema dito de “supermercado”, e decidiu aperfeiçoar o método
e aplicá-lo em todos os níveis do processo de trabalho, adotando os
seguintes princípios:
...o trabalhador do posto de trabalho posterior (aqui
tomado como ‘cliente’) se abastece, sempre que necessário, de peças
(‘os produtos comprados’) no posto de trabalho anterior (a seção). Assim
sendo, o lançamento da fabricação no posto anterior só se faz para
realimentar a loja (a seção) em peças (produtos) vendidas
....
[24]
Assim, há em curso “uma revolução nas
técnicas de controle do processo de fabricação e encomendas e de otimização
do lançamento das fabricações”.
3.
PRODUÇÃO LINEARIZADA: Método organizacional e a construção do trabalhador
polivalente
Um princípio “ohnista” é a “linearização
da produção e de uma concepção de organização do trabalho em torno de
postos polivalentes”. Modem, citado por Coriat,
diz que o objetivo da linearização da produção é o de implantar máquinas
de tal maneira que se permitam aos trabalhadores a adaptação às variantes
qualitativas e quantitativas da demanda, constituindo-se esse método
na materialização do objetivo da produtividade, através da flexibilidade. Partindo desse princípio, a implantação
de lay outs verificada para a produção, encontra-se centrada nas instalações
em forma de “U”, na qual “entradas” e “saídas” estão frente a frente,
possibilitando a “organização da produção segundo postos que materializem
séries de operações” sob o comando de trabalhadores flexíveis operando
com várias máquinas. Do ponto de vista de Ohno, conceber as
organizações em forma de “U”, “combinando seu encadeamento espacialmente
umas as outras” ‘é fundamental para a produção. Coriat destaca dois aspectos que julga
importante nessa organização capitalista de produção:
A
primeira é reduzir drasticamente os tempos de espera, de estocagem e
de transferência: o trabalhador é posto em situação de dever, ininterruptamente,
maximizar seu tempo de operação.(...). A segunda, (...), é que, (...), as tarefas determinadas
aos trabalhadores podem a todo momento ser redefinidas e recompostas,
inclusive através de uma ‘ultrapassagem de fronteiras’
[25]
entre duas formas ‘U’ virtuais e justapostas ou linearizadas
...
[26]
Essa organização do trabalho tem como
princípio o “tempo partilhado”
[27]
, visando a eliminação do “tempo morto”. A linearização das secções de produção
proposta pelo ohnismo e o caráter multifuncional dos trabalhadores,
nesse processo produtivo, leva a gerência a atribuir tarefas moduláveis,
na qual variam, tanto em quantidade, quanto
sua natureza. Ohno dirá sobre o tempo partilhado que
“ É impensável delimitar através de algum paralelo 38 as zonas de trabalho
de cada operário”, fazendo referência ao paralelo 38 que divide a Coréia
em duas.
[28]
Outro processo organizativo do trabalho,
que se torna original em Ohno é a criação do trabalhador multitarefeiro.
Coriat dirá sobre essa “via japonesa de
organização” que:
...Seu traço central e distintivo (...) é que em lugar
de proceder através da destruição dos saberes operários complexos e
da decomposição em gestos elementares, a via japonesa vai avançar pela
desespecialização dos profissionais para transformá-los não em
operários parcelares, mas em plurioperários, em profissionais polivalentes,
em trabalhadores multifuncionais.
[29]
Dirá, ainda, que:
...Este movimento de desespecialização dos
operários profissionais e qualificados, para transformá-los em trabalhadores multifuncionais, é de fato
um movimento de racionalização do trabalho ...
[30]
Para atender às exigências desse processo
produtivo complexo e altamente informatizado, profundas transformações
são exigidas na formação do profissional ou na qualificação do trabalhador,
para suprir as demandas de trabalho qualificado, advindas com esse padrão
produtivo postos por novas tecnologias, com seu método organizacional
e de gerenciamento do trabalho. O trabalho qualificado pressupõe conhecimento
de quem o executa; de saber impresso na subjetividade e na consciência
de quem participa do fazer. É resultado de uma prática social na determinação
ontológica do ser homem. Qualificação esta que, Rolle assim define:
Qualificação não é um modo de reconhecimento e de
codificação social das qualidades de trabalho, mas uma maneira de mobilizar,
de reproduzir e de adicionar as diversas formas de trabalho.
[31]
Freyssenet, que trabalha com o temática
da qualificação, observa que o ato de produzir do homem é um
ato, que demanda saber acumulado e conhecimento; qualidade, que é atributo
da atividade humana e os conhecimentos expressam esse ser ativo, consciente
e objetivante. Portanto, um ser que produz
por carregar o conhecimento e a experiência do campo de produção. Para Freyssenet, a qualificação é abordada
dessa maneira:
Para ser qualificada, exige-se de uma atividade que
os problemas a serem resolvidos sejam compreendidos de forma abrangente,
que as soluções para os mesmos sejam elaboradas, que as soluções sejam
realizadas e a responsabilidades por elas assumida. Ela pressupõe conhecimento,
experiência, autoridade e possibilidades materiais.
[32]
Frigoto,
observa que:
...As demandas da polivalência e multi-habilitação
são, contraditoriamente, demandas do capital na sua base técnica e defesa,
pelo menos de grupos restritos de trabalhadores...
[33]
.
Para que os setores produtivos do capital
possam adquirir produtividade e competitividade, é necessário um processo
de formação permanente dos trabalhadores, para que possam atender às
novas demandas advindas com a tecnologia ¾ em constante transformações
¾ e, para este fim, a lógica educacional deve atender
a lógica do mercado. Do ponto de vista do Capital, a necessidade
premente, para o momento, é a formação de um trabalhador polivalente.
A polivalência aqui:
...significa simplesmente um trabalho mais variado com certa abertura
quanto à possibilidade de administração do tempo pelo trabalhador e
não importa necessariamente mudanças qualitativas das tarefas. Representa
nada mais que uma racionalização formalista com fins instrumentais
e pragmáticos calcada no princípio positivista de soma das partes...
[34]
Para
o conjunto da classe trabalhadora, coloca-se a perspectiva de politecnia,
o que representa o domínio da técnica a nível intelectual e a possibilidade
de um trabalho flexível
[35]
. O
processo de trabalho, agora, automatizado e com alta tecnologia, se
põe ao trabalhador que tem que operar com diversas máquinas, tendo a
informática introduzido novas linguagens no espaço produtivo. A flexibilidade
se impõe ao trabalhador, como regra, e exige dele conhecimento e um
trabalho em equipe. Para
a formação profissional desse trabalhador, observa-se uma tendência
à universalização dos conhecimentos gerais, sem limitá-lo a uma única
atividade ou profissão, a qual contribui, de certa maneira, para a construção
do trabalhador polivalente. Os
valores educacionais para a construção do trabalhador polivalente, tornam-se
explicitos com as novas habilidades que lhes são exigidas para o trabalho:
habilidades de trabalhar em equipes; de tomar decisões; de Ter iniciativa
para responder aos impasses que ocorrem no processo de trabalho e de
se buscar uma aprendizagem contínua. A “polivalência” para Antunes é
uma exigência “mais individualizada do mercado” a ser
atendido com menor tempo e com padrão de qualidade dos produtos. Para
que isso se processe, “é preciso que a produção se sustente num processo
produtivo flexível”, permitindo que um trabalhador opere várias
máquinas, rompendo “com a relação um homem/uma máquina” fundamentada
no fordismo. Segundo Salermo, o termo “polivalência”
tem um caráter multifacético e, propõe várias indagações que ajudam
a definir o termo, no qual, autores aqui estudados tem posições
definidas. Uma de suas indagações levantada na definição do termo é
“Um trabalhador é capaz de trabalhar em mais de uma máquina, ainda que
estas sejam semelhantes?”. Isto reflete no pensamento da sociologia
do trabalho como um objeto de discussão, pois, o caráter polivalente
do trabalhador pode ser definido
como um homem/várias máquinas, o que nos permite afirmar que o trabalhador
está com o seu tempo ocupado constantemente na operação das máquinas,
realizando mecânica e repetitivamente as muitas tarefas impostas pelo
capitalista no processo de produção. Portanto, na polivalência, há um aumento
intensivo do trabalho, pois o tempo automático ou semi-automático
das máquinas é o que exerce o controle sobre o trabalhador, que
precisa estar constantemente se deslocando de uma máquina a outra, elevando
seu desgaste físico-mental, na repetição do trabalho, determinado pelo
ritmo das máquinas. Na materialização do seu trabalho, antes
o trabalhador observava a máquina por algum tempo. Na polivalência,
seu tempo é utilizado para operar
as várias máquinas postas sobre sua responsabilidade. A introdução da polivalência nos trabalhadores, foi radicalizada
por Ohno, objetivando, através da experiência, um aumento da capacidade
produtiva para atender a demanda. O experimento consistia na reagrupação
de máquinas umas próximas às outras para que os trabalhadores as operassem. Nas palavras de Ohno...
...decidi
lançar a experiência que consistia em reagrupar máquinas nos mesmos
lugares. Cada operador tinha assim
o encargo de três ou quatro máquinas realizando cada um operações
de diferentes escopos...
[36]
Este processo de reagrupamento de máquinas
permite ao capitalista diminuir de forma radical o espaço entre as máquinas,
visando diminuir o tempo de deslocamento dos trabalhadores na operação
das mesmas, gerando uma intensiva extração de sobre trabalho. Em sua implantação, este método organizacional
dá uma falsa aparência e induz, ideologicamente, o trabalhador a pensar
que é o dono da produção, sendo
qualificado para não depender das chefias para produzir.
4. ADMINISTRAÇÃO COM OS OLHOS: o controle do processo produtivo
Para ter o controle sobre o ritmo da produção,
Ohno instituiu a “administração com os olhos” para as
gerências. Criou cartazes que foram colocados acima dos postos de trabalho,
no qual, procura informar sobre as condições das linhas e os problemas
que a ela vierem a ocorrer. Basta o trabalhador levantar os olhos para
ver o cartaz indicador, pois, cada padrão de operação e evidenciado
em cada posto de trabalho.
[37]
O controle direto do ritmo da produção
ocorre pela sinalização ¾ constituindo-se de indicadores luminosos ¾, localizados acima dos postos de trabalho ¾ nominado sistema Andon ¾, que tem por função assegurar o fluxo da produção,
alertando os trabalhadores, sempre que se fizer necessário, sobre as
dificuldades ou as falhas encontradas no ritmo do trabalho previamente
programado para a produção. Coriat nos dirá que os...
...cartazes luminosos, colocados acima de cada seção
de linha de produção, se acedem indicando se um dos operadores da linha
encontra uma dificuldade qualquer que perturba o desenvolvimento ordinário
e programado da produção. Luz alaranjada se trata de ajuda, luz vermelha
se é preciso parar a linha. Assim, a todo instante, a chefia dispõe
das informações que lhes são necessárias para assegurar-se de que o
fluxo da produção se desenrola sem maiores problemas.
[38]
No dizer do seu criador:
O Andon é uma das ferramentas da administração
pelos olhos. É um indicador luminoso que fica suspenso acima da linha.
Ele funciona da seguinte maneira: enquanto as coisas estão normais,
a luz é verde; quando um operador tem que fazer alguma regulação na
linha e pede ajuda, a luz é laranja; se é preciso parar a linha para
resolver um problema, a luz é vermelha. Os trabalhadores são encorajados
a não hesitar a parar a linha; é o melhor meio de garantir que tudo
será feito para eliminar prontamente as anomalias.
[39]
Esse sistema de organização, pressupõe
uma intensificação da exploração do trabalho, não só pela fato
dos trabalhadores estarem agregados simultaneamente a várias máquinas mas, também, pela cadência ditada pelo sistema
de luzes. Na luz verde, funcionamento normal, portanto, intensidade
máxima; na luz laranja, prudência, diminui o ritmo da produção, sem,
contudo, paralisar o processo
produtivo, procurando resolver o problema, sem causar prejuízos para
a produção e luz vermelha, problema: para-se a produção, para que um
grupo de trabalhadores possam rapidamente resolver o problema, utilizando-se
sempre dos “cinco porquês”. Esse sistema “possibilita ao capital
intensificar ¾ sem estrangular ¾ o ritmo produtivo do trabalho”. “As luzes devem
alternar sempre entre o verde e o laranja, de modo a atingir um ritmo
intenso de trabalho e produção”.
[40]
Antunes nos dirá que Gounet fará forte
crítica a Coriat, pois o mesmo...
...reconhece que o sistema de luzes permite um melhor
controle da direção sobre os operários, mas omite o principal: que esse
método serve para elevar continuamente a velocidade da cadeia produtiva.
Ao permanecer oscilando entre o verde e o laranja, a direção pode descobrir
os problemas antecipadamente e suprimi-los de modo a acelerar a cadência
até que o próximo problema ou dificuldades apareçam.
[41]
O paradigma de organização do trabalho desenvolvido
por Ohno, no interior da fábrica Toyota, traz, para o capital,
um forte crescimento econômico a custos reduzidos de produção e de força
de trabalho, pois a flexibilidade alcançada no mundo do trabalho, possibilita
ao capital ganhos extras de produtividade e de mais-valia.
. A intensidade da exploração do trabalho,
nas “ilhas de excelência e produtividade”
[42]
, criada pela organização do trabalho, que tem como
mentor Ohno, é o ponto central sobre a qual está assentada a
relação social entre capital e trabalho nas grandes indústrias. Em estudos realizados pelo DIEESE,
sobre o funcionamento da ilhas ele registra que:
... na produção por ilhas (...), a produção escoa
sem interrupções, tal qual a fluência de um rio. Dentro da ilha,
a peça sai de uma operação e entra em outra, imediatamente, quer
o meio usado para isso seja manual ou automático, através de robôs ou
esteiras de pallets. E o estoque não se forma, reduzindo-se o tempo
total entre o início e o final da operação. Na operação dessas ilhas as empresas procuram a polivalência (...) ou seja: um operário
pode trabalhar simultaneamente em mais de uma máquina. As vantagens
da produção em ilhas para
as empresas são inúmeras. A saber: 1. elimina os estoques; 2. aumenta
o giro da produção; 3. intensifica o trabalho dos operários devido ao
menor tempo de esperas e pausas; 4. proporciona flexibilidade na produção
e na distribuição da mão-de-obra pelas diversas máquinas.
[43]
As conseqüências do Sistema Toyota de
Produção, consolidado na organização do trabalho capitalista, é o controle
permanente do processo produtivo ¾ o mesmo foi internalizado
pelos trabalhadores ¾ e, ao mesmo tempo, na
polivalência e nas equipes que compõem as ilhas de excelência há
um aumento da jornada de trabalho ¾ propostas por elas
¾, definindo como será produzida a quantidade de peças
determinada pela empresa, o tempo a ser gasto na produção e quem ocupará
determinado posto de trabalho. Com uma produção flexível ¾ extingue-se os postos fixos de trabalho ¾ realizando um rodízio, para que todos os envolvidos
no processo de produção façam de tudo um pouco. O que está presente neste paradigma de
produção é a flexibilidade produtiva como eixo central para determinar
a produção, Harvey coloca que a flexibilidade conseguida
na produção e no mundo do trabalho, aliado ao consumo, como sendo fruto
da busca de soluções financeiras as tendências da crise do capitalismo,
significa dizer que o “sistema financeiro alcançou um grau de autonomia
diante da produção real” sem igual na história do capital.
CONCLUSÃO
A sociedade tecnizada, que se constituiu,
a partir do rompimento da organização fordista, procura “inovar” as
relações de produção, constantemente, criando novos métodos de organização
do trabalho, com o objetivo de racionalizar a produtividade e a finalidade,
única, de aumentar a taxa de mais-valia.
A
organização do trabalho, sob o princípio da flexibilidade e da polivalência,
adapta-se às circunstâncias do mercado internacionalizado e da competitividade
entre as empresas, e necessitam qualificar a classe que produz e
que vive do trabalho para produzir mercadorias dentro dos princípios
da qualidade total. Com esta preocupação, os intelectuais orgânicos,
sob o comando do capitalista, passam a investir na reordenação e imprimem
uma reengenharia no modo de produzir mercadorias, objetivando, com isto,
uma maior racionalidade produtiva e, consequentemente, criar mecanismos
para domesticar os trabalhadores e, assim, aumentar sua capacidade
produtiva. O
trabalho, agora, organizado sob a flexibilidade e polivalência, passa
a exigir do mundo do trabalho, um trabalhador qualificado e disciplinado,
para atender as normas da empresa, que o revestem de parceiros, pois
tornam-se responsáveis por seus atos de produção. A produção passa a
ser coletiva, realizada por trabalhadores qualificados e através das
“ilhas de produtividade”, que foram criadas, para determinar o quantum
a produzir e, a qualidade dos produtos é, por esta “célula” verificada.
O
sistema de organização do trabalho flexível, pressupõe uma intensificação
da exploração do trabalho, não só pela fato dos trabalhadores estarem
agregados simultaneamente a várias máquinas
mas, também, pela cadência ditada pelo sistema de luzes. Na luz
verde, funcionamento normal, portanto, intensidade máxima; na luz laranja,
prudência, diminui o ritmo da produção, sem, contudo,
paralisar o processo produtivo, procurando resolver o problema,
sem causar prejuízos para a produção e luz vermelha, problema: para-se
a produção, para que um grupo de trabalhadores possam rapidamente resolver
o problema, utilizando-se sempre dos “cinco porquês”. Esse sistema “possibilita
ao capital intensificar ¾ sem estrangular ¾ o ritmo produtivo do trabalho”. “As luzes devem
alternar sempre entre o verde e o laranja, de modo a atingir um ritmo
intenso de trabalho e produção O paradigma
de organização do trabalho desenvolvido por Ohno, no interior
da fábrica Toyota, traz, para o capital, um forte crescimento econômico
a custos reduzidos de produção e de força de trabalho, pois a flexibilidade
alcançada no mundo do trabalho, possibilita ao capital ganhos extras
de produtividade e de mais-valia. . A intensidade da exploração do trabalho, nas “ilhas de excelência e produtividade”, criada pela organização do trabalho flexível, que tem como mentor Ohno, é o ponto central sobre a qual está assentada a relação social entre capital e trabalho nas grandes indústrias.
Quadro Adaptado 1. PROCESSO DA PRODUÇÃO CAPITALISTA FLEXÍVEL
Quadro Adaptado 2. A ACUMULAÇÃO FLEXÍVEL SENGUNDO SWYNGEDOUW
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