Ano I - Nº 02 - Julho de 2001 - Bimensal - Maringá - PR - Brasil - ISSN 1519.6178
Apenas
mais uma justificativa da filosofia exigida pela maneira de pensar atual,
científica
Jocelino
José*
O
século XIX nos apresenta algumas crenças, tais como: a crença alicerçada no
progresso da ciência; a crendice da verdade absoluta e a crença da razão clara
e distinta – havia nessa época promessas de uma nova era de progressos, de uma
civilização enriquecida constantemente, pelas “descobertas científicas”. É
claro que no fim desse século (século XIX) a Filosofia havia perdido, em ambos
os setores da cultura e da ciência européias, bastante do seu interesse e
influência. Os pensadores colocavam-se somente na defensiva, pois eram
obrigados a provar o direito à vida e a legitimidade da Filosofia – já que uma
grande maioria anunciava que o papel da Filosofia no desenvolvimento da vida do
homem devia limitar-se ao campo histórico.
O
século XX é conhecido como a época das crises. Dentro dessas crises encontramos
a Filosofia num processo de descaracterização. Pois a figura do filósofo
solitário tende a desaparecer e em seu lugar surgem os trabalhos coletivos. A
Filosofia, então, encontra-se diante de uma quantidade incalculável de grandes
temas e problemas, os quais exigiu um renovado esforço de aplicação de novos
princípios e métodos. Nesse sentido surgem, na tentativa de resolver os
problemas, várias correntes filosóficas: o Neopositivismo, a Fenomenologia,
Filosofia da Vida, a Hermeneutica, a Teoria Crítica de Frankfurt e a Filosofia
da Existência.
Para
Jaspers[1],
a filosofia sempre esteve presente na vida humana, seja ela percebida ou não.
Ela, desde de Sócrates[2]
até os dias atuais, busca entender o homem, o mundo e Deus. Esses três
problemas são refletidos não de modo particular - pois, se assim fossem
abordados seria apenas pesquisa científica e não reflexão filosófica - mas, de
modo interligados buscando a compreensão do todo.
Quando
nos propomos a refletir sobre questões filosóficas em qualquer espaço sociedade
(a revista Urutagua é um desses espaços) temos em mente promover o
fortalecimento do espírito humano não só dos ataques da sociedade
"capitalista-cientifista" atrelada a uma falsa maneira de pensar, mas
também para que o homem por si mesmo possa justifica-se frente a Si, ao Mundo e
a Deus.
O
mundo atual com o "barulho das máquinas" promove o esvaziamento, de
si mesmo, na vida cotidiana e isso é facilmente constatado no contato com as
pessoas, as quais vivem sem fazer uso devido do pensar e sentem de modo
superficialmente os objetos. Enfim esse modo de pensar atual (científico)
produz - na voz de Martin Heidegger[3]-
o esquecimento do sentido poético, do sagrado e do Ser.
Preocupado,
portanto, com a vida humana, a qual sem
reflexão não merece ser vivida - já afirmava Sócrates - queremos propor uma
reflexão sobre a importancia do pensar (de modo filosófico), acreditamos que é
ele quem guarda o espaço essencial para o humano. Lembrando que esse mesmo
espaço humano é ameaçado pela atividade científica na era da técnica. Temos um
dever de impedir que a razão instrumentalize inteiramente e perca a visão do
todo na vida do homem.
Podemos
fazer menção à duas maneiras de viver: o espaço
da ordem e o espaço extraordinário.
O primeiro se refere ao modo ordinário - que tem ordem, isto é, que aceita
passivamente o estabelecido - seguindo uma certa lógica-racional na vivência do
dia-a-dia. E podemos encontrá-lo tanto na existência comum das pessoas, como no
modo de existir científico.
O
segundo, o espaço extraordinário da vida humana, tem um significado não só
diferente, mas contrário ao modo de viver ordenado, isto é, foge do que esta em
ordem - padronizado, estabelecido, determinado - do comum das pessoas e do
científico. aliás o espaço extraordinário é a maneira de pensar da filosofia,
isto é, é vivência filosófica. Este toma para si o ato de pensar, que
desconcerta a ordem e exige novas respostas. Um exemplo claro, desse espaço
extraordinário, é o indagar. Pois, acreditamos que milhões de pessoa vivem sem
questionar profundamente, tanto a si como o mundo... - é o caso do senso comum
-, não se espantam (de maneira Platônica), nem são pegas por admiração (de modo
aristotélico) e suponhamos que indaguem - que é o caso das ciências - não buscam o todo, do que esta sendo
indagado, mas a penas uma parte. Como já sabemos a totalidade é uma das
principais característica da filosofia e quando uma determinada ciência busca
atingir o todo, ela necessariamente
deixar de ser ciência e torna-se-a filosofia.
Nesse
sentido não resta dúvida da necessidade de pensar, de indagar, de investigar e
de filosofar. É somente esse modo de viver extraordinário (que é a filosofia)
que permanece reservado, desde dos primórdios, o lugar do humano, do sentido da
existência e, consequentemente, o sentido do Ser, do poético e do Sagrado. A
destruição dessa maneira de pensar e de existir leva o homem ao Caos, ao
desequilíbrio e, enfim, leva a experiência do negativo - que causa angustia e
depressão extrema. Portanto, esta aqui a necessidade de filosofarmos.
Mencionamos
aqui, quem bem desafiou o poder da técnica-científica-industrial e tornou-se
o pastor do Ser, Martin Heidegger: "O
fim da filosofia revela-se como o triunfo do equipamento controlável de um
mundo técnico-científico e da ordem social que lhe corresponde
[4]
". Uma interpretação que podemos perceber em Heidegger
é que ele alerta para o perigo da técnica, e esta nos leva a acreditar que
dominando a terra resolverá os problemas da humanidade. No entanto isso é
um equívoco dirá Heidegger, na verdade é um perigo maior que bomba atômica.
Pois, o que restará do homem quando se esquece de si mesmo, do Ser, do sentido
Sagrado e do Poético?
* Acadêmico IFAMA[1] Karl Jaspers .nasceu em Oldenburg, em 1883 e morreu em Basiléia, em 1969; estudou medicina e, mais tarde, foi professor de filosofia na Universidade de Heidelberga; .sua principal obra é a Filosofia (1932), que consiste em três volumes: 1) Orientação filosófica no mundo; 2) Esclarecimento da existência; 3) Metafísica;É um autor de uma elevada sensibilidade ética, pois, opôs-se corajosamente ao nazismo alemão.[2] Sócrates nasceu em Atenas em 470/469 a. C. e morreu na mesma cidade em 399 a.C. Ele era filho de um escultor, chamado Sofronisco, e de uma parteira chamada Fenarete. Desde a juventude, Sócrates tinha o hábito de debater e dialogar com as pessoas de sua cidade. Ao contrário de seus predecessores, Sócrates não fundou uma escola, preferindo também realizar seu trabalho em locais públicos (principalmente nas praças públicas e ginásios), agindo de forma descontraída e descompromissada (pelo menos na aparência), dialogando com todas as pessoas, o que fascinava jovens, mulheres e políticos de sua época.[3] Martin Heidegger nasceu em 26 de setembro de 1889 numa cidade chamada Messkirch na Alemanha. Seus pais: Friedrich Heidegger (sacristão da igreja Santa Martin) e Johanna, ambos professavam a doutrina católico.[4] Heidegger. Os pensadores. Nova Cultural: 1999, pag 98