Ano I
- Nº 02 - Julho de 2001 - Bimensal - Maringá - PR - Brasil - ISSN 1519.6178
Enlatados
que fizeram minha cabeça
Fábio
Viana Ribeiro*
Sempre
imaginei que críticos profissionais de cinema ou televisão assistiam a tudo que
dizia respeito do assunto que estavam falando. Que haviam visto, não sei bem
como, todos os filmes da semana ou ficavam em casa, 24 horas por dia, assistindo
e analisando a programação. É verdade que sempre também tive dúvidas meio
esquisitas a respeito do trabalho de alguns profissionais. Por exemplo, se os
melhores pintores do Renascimento usavam ou não uma régua quando tinham, em
seus quadros, de reproduzir uma figura cheia de retas (um templo, por exemplo);
ou se faziam tudo no pincel mesmo, à mão. Ou se um desses abnegados que dedicam
suas vidas à escrever um dicionário (da língua portuguesa, por exemplo) começam
“do zero” ou dão uma “olhadinha” em algum dicionário anterior.
De
qualquer forma, ao falar do assunto, farei o que nenhum deles fez, assumindo
desde já meu modus operandi. Primeiro, que não tenho televisão a cabo;
segundo, que o único aparelho de televisão que tenho em casa é um de 14
polegadas, em relação ao qual já pensei seriamente em dar para alguém ou fazer
aquilo que sempre foi um de meus sonhos mais sinceros: jogá-lo pela janela do
apartamento e vê-lo se espatifar no lote vago que tem ao lado. Os motivos disso
tem a ver, quase totalmente, com a baixíssima qualidade daquilo que se tem para
assistir na televisão. Se me recuso terminantemente a assinar um serviço de
televisão a cabo é, para início de conversa, não ter de estar sempre
constatando que pago para ver uns 30 canais que equivalem (em qualidade) à meia
dúzia de canais (de certa forma) gratuitos de sinal aberto. Fora outras
compensações: ficar livre da TV Senado e similares; dos canais de compras; da
CMT; das dublagens horrorosas da TNT, etc. As desvantagens são poucas: deixo de
ver alguns filmes legais (que em geral são exibidos 9 horas da manhã ou 5 horas
da madrugada...) e me desatualizo um pouco em relação à vida sexual das girafas
(no caso do Discovery, canal especializado em bichos).
Voltando
ao assunto, é, a partir destas precárias condições, que falo sobre o que vai
acontecendo na televisão. A essa altura já devo também ter dado a entender que
considero 90% das coisas que constam da programação como coisas que sequer
compensam a energia elétrica que se gasta com o aparelho ligado. Decidir o que
há de pior no meio desse oceano de lixo
eletrônico é coisa para especialistas. Intuitivamente me passam pela cabeça
programas como o do Sérgio Mallandro na CNT; os dominicais de esporte da
Bandeirantes; o daquela cover da Hebe Camargo, também na CNT, etc.,
etc., etc., etc. Isso, e o porquê (?!) disso é assunto para outra hora. Melhor
seria tentar falar das poucas coisas boas que ainda agonizam na televisão ou
ainda podem ser lembradas.
Se
for o caso de imaginar agora o que de melhor há (ou havia), na televisão,
pensaria naqueles enlatados americanos antigos. Não, não há muito de
nostalgismo ou falta de patriotismo nessa consideração... Até porque existem
(ou recentemente existiram) exemplos de coisa muito boas que são feitas hoje
(por exemplo “Anos Incríveis”; “Arquivo X” fase
“pré-delírios-conspiratórios-para-aumentar-a-audiência”; as pérolas
cinematográficas exibidas no “Cinevida”, “Mochilão”, da MTV brasileira, etc.).
Passados tantos anos é de se concluir que havia alguma coisa de legal e muito
bem sacado em alguns desses enlatados, a ponto de criarem fãs tão fiéis quanto
os que ainda hoje encontro. A lista de alguns deles: “Perdidos no Espaço”; “Os
Invasores” (que, apesar de feito para ser sério, é engraçadíssimo); “Viagem ao
Fundo do Mar” (mais ou menos o mesmo caso); “Jornada nas Estrelas” (o cult
do cult: a “insânia” de seus fãs chegou ao ponto de criarem um
dicionário inglês-klingon); “Agente 86”; “Rim-Tin-Tin” (esse ainda
passa); “Batman” (na versão em que os socos apareciam escritos na tela...);
etc., etc., etc... Por que eles eram tão legais? Ou, o que dá no mesmo, por que
as pessoas gostavam e continuaram a gostar tanto de seus episódios?
Entre
outras coisas, por conta, imagino eu, de terem em sua “receita” duas coisas
fundamentais para quem gosta de televisão: eram divertidos e garantiam sempre
um final-feliz. Pode parecer um comentário “alienado”, mas, pensando bem, os
tais enlatados tinham o mérito de não prometerem nada além daquilo que ofereciam.
Nesse sentido a coisa é até bem mais honesta e bem menos “armada” que alguns
debates de nossas emissoras educativas... Claro, diversão e final feliz existe
também em um monte de outros enlatados recentes (não muitos, pensando bem...).
Mas aí minha explicação é a de que os tais “enlatados que viraram cult
eram realmente grandes sacadas. No sentido de criarem “mundos à parte”,
suficientemente seguros para que seus fãs encontrassem ali um monte de
referências (ou simplesmente, divertidos escapismos) que lhes garantiam aquilo
que em geral a chatice ou a dureza da vida cotidiana não pode oferecer. Há
coisa de dois anos atrás assisti a uma matéria sobre os Smiths. Imagens dos
shows, comentários de Morrissey, dos outros integrantes e dos fãs. Um desses
últimos falava que o fã dos Smiths era o tipo de pessoa já incapaz e incrédulo
para tentar qualquer coisa, qualquer coisa que implicasse sair de seu quarto e
pensar em mudar alguém ou algo. De que o que mais gostavam nas letras do grupo
era o fato de que, tudo bem, em suas pobres vidas ninguém nunca lhes daria a
menor importância ou talvez eles próprios nunca conseguissem convencer ninguém
dos motivos de seu tédio, de seu desânimo com a vida ou do cansaço de se
sentirem sempre sozinhos. E que então, sempre assim, como sempre estavam, era
sempre um alento saber que pelo menos aquelas letras diziam isso por eles. Os
tais enlatados, no fundo, talvez também falassem disso.
*
Docente na Universidade Estadual de Maringá e doutorando em Ciências Sociais na
PUC/SP - fviana@cybertelecom.com.br