O
surgimento da Revista Brasiliense,
em setembro de 1955, representou, portanto, o nascimento de uma publicação
independente no campo da esquerda comunista, principalmente na medida em
que rompia com o controle material do PCB. Publicada pela Editora
Brasiliense, de propriedade do historiador e editor paulistano Caio Prado
Júnior, a revista beneficiou-se do fato de não precisar de recursos
provenientes de anúncios comerciais ou da chancela do Partido Comunista,
sobrevivendo com recursos próprios. A
liberdade de atuação da Revista Brasiliense revelou-se também na escolha dos seus
colaboradores, ocorrida de maneira absolutamente informal, através de uma
rede de relacionamentos pessoais. [2]
Para um de seus colaboradores no Rio de Janeiro, o jornalista Fernando
Segismundo, entre seus articulistas estavam pessoas oriundas de uma ampla
frente de tendências políticas e ideológicas espalhadas do centro à
esquerda. Encontravam-se entre eles até mesmo figuras desprestigiadas no
PCB, ou que ao longo de sua trajetória tiveram problemas com a direção
do partido, como Heitor Ferreira Lima e Octávio Brandão. Nos
seus cinqüenta e um volumes, publicados bimestralmente e de modo
ininterrupto durante nove anos, a Revista Brasiliense defendeu posições nacionalistas, porém
criticando as versões oficiais, de Juscelino Kubitschek a João Goulart
(LIMA, 1986, p.172). No
"Manifesto dos Fundadores", esta publicação se apresentou como
um "centro de debates e estudos brasileiros, aberto à colaboração
de todos os que já se habituaram ou se disponham a abordar seriamente
esses assuntos". Antônio Albino Canellas Rubim, no capítulo que
redigiu para a História do Marxismo no Brasil, acentuou a originalidade
do programa político contido na revista, tendo escrito que, mesmo antes
do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), em 1956,
Caio Prado Júnior e Elias Chaves Neto organizaram "uma publicação
político-cultural orientada pelo marxismo e pelo nacionalismo,
independente e divergente das teses do PC" (RUBIM, 1998, p.320). No
mesmo sentido, Gildo Marçal Brandão enfatizou que, "sem
compromissos orgânicos com o partido", a Revista
Brasiliense obteve uma "maior incidência na vida
intelectual", tratando-se de uma publicação "aberta e
frentista" (BRANDÃO, 1997, p.214).
Pesquisas
focadas na política interna do partido e no processo de apogeu e crise do
stalinismo no PCB mantiveram essa mesma caracterização. Frederico Falcão
tratou-a como parte do processo de “desestalinização”, afirmando que
nela se "reproduziram por quase dez anos as posições de pecebistas
e de intelectuais do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB)
sobre o nacionalismo, tendo a revista, no entanto, contestado alguns
aspectos do pensamento nacionalista dominante” (FALCÃO, 1997, p.279).
Fernando Limongi, porém, relativizou a relação entre a Revista
Brasiliense e o ISEB, considerando-a tênue e insuficiente. Para este
autor, embora houvesse um claro distanciamento entre o núcleo dirigente
do PCB e os principais incentivadores da revista, sua proposta partiu de
um grupo de intelectuais marxistas, enquanto os principais membros do ISEB,
numa referência a Guerreiro Ramos e Hélio Jaguaribe, que dominaram a
produção do instituto na sua primeira fase, pretendiam formular uma
teoria que superasse o marxismo. (LIMONGI, 1987, p.37). Nas
páginas da Revista Brasiliense encontramos
uma vasta quantidade de artigos dispostos a discutir os efeitos negativos
do imperialismo, a questão da propriedade da terra e as condições de saúde
e alimentação do povo nas regiões mais distantes do Brasil. Por outro
lado, em concordância com os objetivos expostos no manifesto de fundação
da revista - criada com o propósito de apoiar "a renovação e os
progressos da cultura" - também encontramos uma grande presença de
artigos de crítica literária, estudos históricos, filosóficos e sociológicos.
[3] Na
Revista Brasiliense, embora
houvesse um espaço significativo para o debate político-ideológico,
acompanhando os temas colocados pela esquerda comunista, este não superou
o espaço dedicado ao debate de temas literários e culturais (LIMONGI,
1987). Esta característica resultou da forte presença na revista de
colaboradores que, embora na maioria das vezes fossem simpatizantes do
partido, não estabeleciam relações orgânicas com o PCB, se
interessando pela publicação devido ao seu aspecto cultural e científico. Mesmo
que a Revista Brasiliense
primasse em ser uma publicação pluralista e aberta a diversas contribuições
- "prescindindo de ligações de ordem política e partidária"
-, verifica-se nela uma presença acentuada de pessoas que eram de algum
modo vinculadas ao PCB. [4]
No entanto, enquanto era recebida com grande aceitação nos meios acadêmicos
e literários, dentro e fora de São Paulo, como se percebe na lista de
signatários do seu manifesto de fundação, a recepção da Revista
Brasiliense nos meios pecebistas, desde as primeiras conversas em
torno de sua criação, mostrou-se altamente crítica. [5] Este clima de
estranhamento levou o escritor Afonso Schimdt, diretor de redação da Revista
Fundamentos, a desligar-se dela, em razão de uma deliberação do
Comitê Regional Paulistano do PCB. Embora
tenham despertado a censura partidária, os responsáveis pela Revista
Brasiliense sempre evitaram qualquer espécie de confronto direto com
o PCB, mesmo que estivessem se colocado constantemente numa direção
contrária às suas teses principais. Esse ponto fica evidente pela ausência
de Caio Prado Júnior e Elias Chaves Neto no mais significativo debate
partidário da época, a controvérsia sobre o stalinismo e seu legado na
cultura política pecebista, após a divulgação do Relatório Krushev
durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS).
Entre 1956 e 1957, apesar da atitude conservadora assumida pelo núcleo
dirigente do PCB, cerceando o debate em nome da "unidade do
partido", a discussão acerca do Relatório Krushev seguiu adiante
nos diversos órgãos da imprensa partidária. Até que uma intervenção
mais direta levasse à expulsão do chamado "grupo renovador",
favorável a ampliação desse debate, questionou-se o "mandonismo, o
dogmatismo e a ausência da democracia interna", como reflexos do
autoritarismo stalinista no PCB (SEGATTO, 1995, p.41). Na Revista
Brasiliense, a polêmica entre "abridistas" e "fechadistas"
sequer foi mencionada. Não houve também qualquer referência às publicações
O Nacional e Novos
Tempos, que passaram a difundir as idéias renovadoras após a saída
de seus representantes do PCB. O silêncio manteve-se entre os editoriais,
nada tendo sido publicado a esse respeito. O XX Congresso do PCUS, tema de
fundo da polêmica, recebeu um único artigo , O XX Congresso do PCUS nos
quadros do mundo atual, de Álvaro de Faria (1956), em que foi ressaltado
apenas a continuidade deste encontro em relação ao que o antecedeu, e
que seria o último presidido por Josef Stálin. Para este autor: "as
três teses que mais surpreendem neste XX Congresso - a de que a paz está
sendo imposta; a de que o mundo marcha para a coexistência entre os dois
sistemas, e a de que entramos em um período de desenvolvimento pacífico
- são apenas a atualização, num estágio mais avançado, das que haviam
sido formuladas no XIX Congresso".
Em Legalidade Socialista, Elias Chaves Neto (1956) abordou
indiretamente o assunto, tendo reafirmado a continuidade da política
externa soviética, assentada na idéia de coexistência pacífica. Em
relação aos danos causados ao socialismo pelo "culto à
personalidade", vigente nos anos de apogeu do stalinismo, considerou
que este "só não produziu males maiores porque o marxismo-leninismo
já havia penetrado suficientemente fundo nas fileiras do partido e nas
massas da população". O diretor-responsável da Revista
Brasiliense evitava assim um tratamento mais profundo acerca de um
tema que causava tanta polêmica naquele momento entre os comunistas
brasileiros. Esse
absenteísmo pode ser entendido a partir da intenção de manter o caráter
de pluralidade e independência que acabamos de frisar, evitando-se uma
demasiada aproximação da revista com questões mais diretamente ligadas
às disputas internas do partido. Para Fernando Limongi, o distanciamento
da Revista Brasiliense em relação
às disputas internas do PCB evidenciava o isolamento político de seus
mentores, representantes de um grupo que já havia defendido teses minoritárias
em ocasiões anteriores (LIMONGI, Op. Cit., p. 28).
Consideramos,
entretanto, que numa conjuntura identificada com um intenso processo de
renovação nos quadros de dirigentes comunistas, essa atitude revelava,
antes mesmo de uma crônica fragilidade política, uma opção de
manter-se, malgrado as diferenças, no limite da participação e do
centralismo partidário. Esta atitude evidencia
os limites da crítica exercida pela revista em relação ao
partido, que pode ser entendida pelo seu pertencimento a uma cultura política
que entendia a "forma-partido" como instrumento essencial na
luta revolucionária. __________ [1] Deste grupo apenas Álvaro de Faria, Caio Prado Júnior, Elias Chaves Neto, Paulo Alves Pinto e Salomão Schattan participaram efetivamente da Revista Brasiliense. Depoimento de Paulo Alves Pinto ao autor. Atibaia, 10 janeiro de 2000. [2] "A cada número corríamos atrás de pessoas do nosso conhecimento para poder fechar a edição. Estas pessoas não eram necessariamente comunistas, na verdade faziam parte do nosso relacionamento direto, ou então chegavam até nós através deste". Depoimento de Paulo Alves Pinto ao autor. [3] A divisão da Revista Brasiliense em quatro grandes vertentes de interesse aponta para o seguinte resultado quanto a incidência temática dos artigos e notas publicados: 1- Assuntos políticos: "Política Nacional" (93 artigos e notas), "Política Internacional" (52), "Socialismo e Socialismo no Brasil" (20), "Política Externa Brasileira" (18), "Operariado e Sindicalismo" (16), "Nacionalismo" (12) e "Movimento Estudantil" (6), 217 ou 28% da revista. 2 - Assuntos econômicos: Todos o artigos e notas classificados como "Economia Nacional" (66 artigos e notas), "Capital Estrangeiro e Imperialismo" (35), "Petróleo e Petrobrás" (10), "Economia Internacional" (4) e "Energia Atômica" (2), 117 ou 15,2 % da revista. 3- Assuntos sociais: Todos o artigos e notas classificados como "Medicina e Alimentação" (49 artigos e notas), "Educação" (31), "Questão Agrária" (29), "Nordeste: Análises e notas de viagem" (11) e "Emprego e Previdência" (6), 126 ou 16,3 % da revista.4 - Assuntos literários, acadêmicos e culturais: Todos os artigos e notas classificados como "Literatura" (105 artigos e notas), "História" (61), "Teatro" (28), "Filosofia" (24), "Sociologia" (24), "Arte e Arquitetura" (19), "Cinema" (19), "Marxismo" (9), "Ciência" (6), "Psicologia e psiquiatria" (5), "Antropologia" (4), "Música" (4), "Pesquisa Científica no Brasil" (3), "Teoria Econômica" (2) e "Esperanto" (1) e "Geografia" (1), 315 ou 40,5 % da revista. [4] Considerando os dez colaboradores mais freqüentes da revista, notamos que, excetuando-se o sociólogo Florestan Fernandes, todos eram ligados ao PCB. Esses colaboradores foram: Elias Chaves Neto (47 artigos), Caio Prado Júnior (34), Heitor Ferreira Lima (28), Álvaro de Faria (26), Everardo Dias (22), Paulo Alves Pinto (15), Florestan Fernandes (12), F. Pompeo do Amaral (12) e Samuel B. Pessoa (12). [5] Paulo Alves Pinto
recorda-se do assunto da seguinte maneira:"O partido não
aceitava a criação de um órgão independente em São Paulo, como nós
queríamos criar. E você sabe, uma revista não é criada da noite
para o dia. Então, desde que começamos a tratar do assunto foi uma
ciumeira muito grande. O Caio, que participava da Revista Fundamentos,
foi muito hostilizado. Um figurão do partido, eu me lembro muito bem,
me disse para não participar da revista, para não dar força ao
Caio, dizendo assim: Ele é árvore que já deu fruto”.
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Referências
bibliográficas: BRANDÃO,
Gildo Marçal. A esquerda positiva: as duas
almas do PCB. São Paulo:
Hucitec, 1997. CHAVES
NETO, Elias. Política de união nacional. Revista
Brasiliense, nº 1,
set/out, 1955, p. 48-65. ____________.
Emancipação Nacional e Defesa da Constituição. Revista Brasiliense, nº 5, mai/jun, 1956, p. 1-21. ____________.
Legalidade socialista. Revista
Brasiliense, nº 8, nov/dez, 1956, p. 17-31. FALCÃO,
Frederico. As ilusões da estratégia.
Dissertação (Mestrado em História) - Instituto de Filosofia e Ciências
Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1997. FARIA,
Álvaro de. O XX Congresso do PCUS nos quadros do mundo atual. Revista Brasiliense, nº 5, mai/jun, 1956, p. 22-32. LIMA,
Heitor Ferreira. Revista Brasiliense: sua época, seu programa, seus
colaboradores, suas campanhas. In: MORAES, Ricardo (Org.). Inteligência
brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1986. LIMONGI,
Fernando. Marxismo, nacionalismo e cultura: Caio Prado Júnior e a Revista
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Ciências Sociais nº. 5 vol. 2. São Paulo: Vértice, 1987. RUBIM,
Antônio Albino Canelas. Marxismo,
cultura e intelectuais no Brasil. In: Moraes João
Quartim (Org.). História do
marxismo no Brasil, vol. 3. Campinas: Unicamp, 1998. SEGATTO,
José Antônio. Reforma e Revolução:
as vicissitudes políticas do PCB (1954-64). Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1995. Documentos: Dossiê
30-k-33 Caio Prado Júnior. Fundo DEOPS. Arquivo Público do Estado de São
Paulo. Entrevista
de Fernando Segismundo ao autor. Rio de Janeiro, agosto de 1998. Entrevista de Paulo Alves Pinto ao autor. Atibaia, janeiro de 2000. |
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2001/2006 - Revista Urutágua - revista acadêmica multidisciplinar
Departamento de Ciências Sociais Publicada em 03.12.04 - Última atualização: 16 agosto, 2006. |