Introdução
Este
artigo visa analisar a demanda por terapia psicanalítica, existente entre indivíduos
de segmentos de camadas médias urbanas, como resposta ao sofrimento psíquico,
fruto de suas experiências cotidianas. A ênfase está na esfera
particular da vida psicológica individual como meio de apreensão da
realidade social. A reflexão aqui apresentada é parte da pesquisa
realizada com estudantes universitários que fazem terapia psicanalítica,
apresentada como nosso trabalho de conclusão de curso (TCC) em Ciências
Sociais pela Universidade Estadual de Londrina. A escolha do domínio
privado se deve ao fato de que em nossa sociedade complexa, é nesse âmbito
que se realizam as práticas da organização significativa que articulam
os vários referenciais de identificação, inclusive os da esfera pública
(Machado apud Duarte, 1986, p.16).
Segundo
Carvalho (1996), o mundo moderno nasce da ruptura, maldizendo e amaldiçoando
o passado. Seu presente é sem vínculos ou ligações com heranças de
outros períodos, o resultado disso é a mudança constante, sendo a
inconstância uma das principais características dos tempos modernos. O
desenvolvimento do sistema capitalista de produção, que marca o início
da era moderna, criou uma sociedade fundamentada numa acentuada divisão
social do trabalho, aliada a um exacerbado aumento na produção e
consumo, articulando um mercado mundial a um rápido e violento processo
de crescimento urbano. As sociedades modernas são caracterizadas por
diferentes divisões e antagonismos sociais que produzem uma pulverização
de identidades, o homem moderno é aquele que constantemente tenta
(re)inventar a si próprio.
Nesse
sentido, um dos focos de análise da
antropologia contemporânea se refere às sociedades urbanas modernas,
também chamadas de complexas, fazendo distinção quanto à experiência
em sociedades tribais e de pequena escala, cuja cultura é relativamente
homogênea. Segundo Velho (1999), a problemática central dessa vertente,
diz respeito à unidade e à descontinuidade dos sistemas sociais nos
centros urbanos, privilegiando tanto o consenso quanto o conflito quer por
parte do indivíduo, quer por parte da sociedade/cultura. A noção de
complexidade traz a idéia de categorias sociais distinguíveis e de uma
heterogeneidade cultural entendida como a coexistência, na maior parte do
tempo conflituosa, de uma pluralidade de tradições étnicas, religiosas
e ocupacionais. A dinâmica desse sistema social, cultural, econômico e
político, acaba por resultar em formas específicas de sofrimento psíquico,
onde se misturam sentimentos de desencantamento, apatia, busca de
identidade, desorientação, narcisismo e conflitos de relacionamento
social.
Assim,
compreender os motivos que levam indivíduos intelectualizados das camadas
médias a buscarem tratamento psicanalítico, não poderia deixar de
passar pela conceitualização da noção moderna de pessoa,
de indivíduo ou de “ser”. A idéia de pessoa formada por esses indivíduos
psicanalizados, diz respeito menos a uma noção acabada de pessoa, e mais
a um sujeito em movimento e a uma noção que é reconstruída e
redefinida permanentemente. Mais que um “ser”
a pessoa é um devir, numa
constante busca de uma interioridade que só se realiza plenamente em relação
a uma dimensão exterior ao sujeito: de tornar-se “si mesmo” (MALUF,
1999). Desta forma, a pessoa que busca a terapia psicanalítica está
voltada para sua subjetividade, e é nesse espaço interior que ocorrem as
transformações, na medida em que o indivíduo encontra a sua
“verdade”. Nesse sentido, a grande problemática que parece marcar esta
pesquisa se refere à idéia
de um desconhecimento de si, que resultaria numa ansiedade crescente e
acarretaria um sofrimento psíquico individual.
Este
artigo se refere a uma “cultura psicanalítica”, que diz respeito ao boom
da psicanálise,
principalmente no Brasil, a partir da década de 70, resultando num
processo de psicologização de setores da vida social brasileira. Essa
cultura é composta por uma visão de mundo e um ethos
particular onde o indivíduo é visto como uma unidade de representação,
e a vida social é examinada como a coexistência e o confronto entre
esses indivíduos e o meio social. Assim, segundo Figueira (1985), ao
analisar a cultura psicanalítica, chega-se à noção de individuação,
que consistiria no efeito da psicanálise de fortalecimento do ego e de um
enriquecimento do indivíduo, tornando-o mais pleno e consciente. O
processo de individuação, produzido pela psicanálise, passa pela razão,
na medida em que atingir a lucidez e o auto-conhecimento se tornam o
objetivo final do tratamento.
Dentro
das sociedades modernas ocidentais, há diferentes experiências sociais
que mostram diferentes conteúdos para o individualismo, desse modo, as
crises das sociedades modernas, como o desmapeamento das mediações entre
indivíduo e sociedade, não constituem fenômeno que se expresse de forma
homogênea por toda a sociedade, mas a psicanálise acabou se estendendo a
universos das camadas médias urbanas que se constituíram em uma
clientela potencial em termos culturais e financeiros. Outros segmentos
sociais, não apenas por motivos econômicos, mas devido a diferenças de
experiências sócio-culturais, vivenciam e representam a questão do
indivíduo de outra forma, como por exemplo, as representações sobre
sofrimento psíquico das classes trabalhadoras urbanas, considerado como
doença de nervos, noção bem distinta do universo de camadas médias
psicologizadas (DUARTE, 1986).
O
discurso dos indivíduos que fazem terapia psicanalítica é concebido não
só como forma de representação, mas como de ação, pois é através da
fala que ele elabora seus conflitos em relação a um saber espontâneo da
realidade de seu tempo e espaço. Assim, o indivíduo psicanalizado entra
em contato com seu inconsciente, atentando para a existência de algo além
do que julga pensar e que é possível falar pelo silêncio. Deste modo, a
clínica é vista como um espaço social de exposição de angustias,
sofrimentos, desesperanças, de busca de sentido e de construção/desconstrução,
onde o indivíduo expõem não só suas fraturas subjetivas, como também
as do mundo onde vive (SOARES, 2000).
Para
Velho (1999), é através da verbalização de um discurso que se obtém a
indicação entre projetos verbalizados e não verbalizados, ou seja, ações
conscientes ou inconscientes. É dessa perspectiva que se coloca a reflexão
que o próprio indivíduo faz sobre suas condutas e sentimentos através
das narrativas pessoais.
Desta
forma, a técnica de pesquisa mais apropriada para os objetivos deste
trabalho, foi a entrevista em profundidade que possibilitou apreender o
percurso individual da experiência terapêutica e acabou confundindo-se
com parte da história de vida do sujeito que, no momento de sua
narrativa, organiza sua experiência e os sentidos a ela atribuídos. As
narrativas dos sujeitos sociais sobre seus itinerários pessoais e suas
experiências terapêuticas, segundo Maluf (1999), trazem, de forma
acentuada, essa dimensão de desvendamento ou de revelação da construção
social da pessoa e dos sentidos atribuídos a sua experiência. Assim, o
antropólogo acaba escutando com atenção os indivíduos, seus diálogos,
suas queixas, seus sofrimentos, suas histórias.
Segundo
Levi-Strauss (2003), o psiquismo individual não reflete o grupo, muito
menos o pré-forma, mas é necessário uma complementariedade entre
psiquismo e estrutura social. Segundo o autor, a única garantia que
podemos ter de que um fato total corresponde à realidade é que ele seja
apreensível numa experiência concreta de uma sociedade localizada num
tempo e num espaço, mas também de um indivíduo qualquer dessa
sociedade, pois jamais podemos estar certo de que atingimos o sentido e a
função de uma instituição se não somos capazes de reviver sua incidência
numa consciência individual. Assim, deve-se coincidir a objetividade da
análise histórica ou comparativa, com a subjetividade da experiência
vivida.
A
narrativa pessoal sobre a eclosão de um determinado sofrimento impõe ao
indivíduo a necessidade de reflexão acerca de sua aflição,
problematizando a respeito do sentido e do por que de tal sentimento,
levando o indivíduo a repensar a sua própria experiência e trajetória
de vida, constituindo seu self.
Além disso, na análise das narrativas pessoais é possível apreender o
modo como o indivíduo julga ser visto pelo outro – como ele se vê
sendo visto – informando a visão que tem de si mesmo. Assim, a construção
elaborada acerca de sua biografia deve ser coerente ao interlocutor, pois
caso contrário, o sujeito corre o risco de ver sua tentativa de
manter/construir uma identidade e trajetória de vida ser desacreditada e
inviabilizada. A narrativa dessa forma é vista como constituinte da construção
de uma versão coerente de si (SOUZA, 1998).
A
importância da análise das narrativas biográficas, segundo Rabelo e
Alves (1999), é que ela permite apreender dimensões da experiência
emotiva do indivíduo, na medida em que põe à vista uma relação entre
o sujeito e o contexto em que está inserido, o que constitui material
fundamental da pesquisa. Segundo os autores: “A emoção brota da forma
pela qual o indivíduo apreende sua situação particular em um dado
contexto” (RABELO; ALVES, 1999, p.194). Dessa forma, entende-se a emoção
como algo que sempre se alimenta da cultura, e varia de acordo com concepções
subjetivas de pessoa, corpo, identidade, ou seja, constituem um self que se situa e orienta de maneira específica a cada
contexto. Assim, as narrativas de emoções são a tentativa de
interpretar essas experiências, explorar reflexivamente seus contextos,
tornando-as claras e manuseáveis, e esse pode ser o caminho tomado pelos
indivíduos que buscam a terapia psicanalítica a fim de um
autoconhecimento para melhorar suas relações sociais. Nas palavras dos
autores, “(...) as narrativas que os indivíduos elaboram não apenas
refletem uma percepção do mundo, mas conduzem a um modo específico de
ser no mundo” (RABELO; ALVES, 1999, p.2001). A apreensão dessas
narrativas é relevante, então, na medida em que conduzem uma
antropologia interessada em compreender e teorizar sobre as relações
entre subjetividade, cultura e sociabilidade.
Apresentarei
aqui a análise de um dos entrevistados desta pesquisa, sendo esta
entrevista a que considero mais sintetizante das idéias desse trabalho.
Assim, analiso a entrevista com Mariana,
que tem 22 de idade, pertencente às camadas médias urbanas, estudante do
último ano do curso de Ciências Sociais pela Universidade Estadual de
Londrina em terapia psicanalítica há um ano. Nesta pesquisa, o sujeito
da análise, por pertencer às camadas médias urbanas, intelectualizadas
e psicologizadas, possui uma vivência de experiências ecléticas, que
cada indivíduo percorre segundo suas escolhas e itinerários singulares
referentes a universos simbólicos diferenciados. Nesse sentido, a experiência
do indivíduo é melhor compreendida analisando seu próprio discurso, sua
narrativa. Segundo Maluf, “(...) cada um conta sua história pessoal e
se representa nessa história" (1999, p.74), onde o coletivo, o
cultural e o individual se encontram e expressam a dinâmica do processo
subjetivo e social.
Subjetividade,
cultura e psicanálise
Acerca
da demanda por terapia psicanalítica Figueira afirma ser:
“(...)
de grande valor heurístico a problematização da ‘demanda de
tratamento psicanalítico’. (...) a partir de explicações que definem
e redefinem o lugar da demanda, é possível imagina-la localizada em
qualquer ponto de um continuum.
Em um dos extremos deste continuum
o indivíduo (vontade do sujeito; problemas do sujeito; psicologia) no
outro a sociedade (a vontade do sujeito é expressão da sociedade ou de
uma parte sua; os problemas do sujeito são produzidos pela sociedade; ciências
sociais)” (FIGUEIRA, 1981, p.7-8).
A
busca voluntária por terapia psicanalítica nos dias de hoje, se refere a
uma busca dos indivíduos dos grandes centros urbanos por uma intimidade,
interioridade, por uma definição privada de sua vida. A antropóloga
Maluf (1999) realizou um estudo etnográfico
em Porto Alegre com pacientes, terapeutas e buscadores de culturas
terapêuticas e espirituais alternativas no Brasil. Nessa pesquisa, a
autora pontua que esses indivíduos estão atrás de tornar-se “si
mesmo”. Esse devir significa o reencontro de uma essência sufocada e
deformada pela educação e pela socialização na família, na escola, na
sociedade. É nesta mesma lógica que Mariana, sujeito de minha pesquisa,
aponta para o motivo pela busca de terapia psicanalítica. Em suas próprias
palavras:
Foi
pra me conhecer especificamente, me conhecer mesmo, porque eu estava muito
preocupada em saber se os outros iam dar conta dos meus problemas
entendeu?! Não é pra você chegar lá e sentar e falar “Ah, mas mau
pai faz isso, isso e aquilo, ah, mas meu relacionamento com a minha mãe
é esse, ah, mas meu namorado é um filho da puta porque faz não sei
quanto tempo que a gente ta junto e o cara não muda nisso, nisso e
aquilo”, então aquela pessoa vira pra você e fala “Mas e você?
Aonde você entra nisso tudo?” (...) Então ta sendo bom pra mim nesse
sentido, porque além d’eu ir lá desabafar, eu to pensando mais em mim
sabe, e a Mariana. O que a Mariana é?
Até onde vai meu limite?
(...)
eu nunca tive um relacionamento fácil com meu pai, eu tinha até enquanto
eu era criança, que aí eu não pensava, não opinava, não entrava em
contradição com ele, depois...acabou, imagina, filha única, mulher, e
ele foi do tipo que aprontou quando era novo, então ele imagina que eu
iria seguir o mesmo rumo, então a gente nossa...eu não consigo sentar
com meu pai pra discutir política porque a gente vai brigar, o negócio
acabou se dissipando para todas as áreas de relacionamento.(...) ele não
vai mudar sabe?! É o que eu to vendo, não vai, ele é desse jeito, eu
tenho que me preocupar comigo, porque os outros não se preocupam com a
gente. To aqui hoje batendo um papo com você, os meus problemas vão ser
um ponto da sua pesquisa. Tipo assim, você ta preocupada com meus
problemas até ali, e é assim com todo mundo, não importa se é teu
parente, se é teu amigo, a gente tem que ir atrás das nossas coisas, e
foi o que me fez correr atrás de tratamento, porque eu comecei a ver que
eu tava começando a entrar em depressão com 22 anos de idade (...)
emagreci 3 quilos em uma semana, então eu falei “não, tenho que correr
atrás de mim, porque eu não to vendo ninguém correr, então eu que tenho que correr” e fui sabe, e posso
te dizer que melhorou.
Mariana
parece sofrer devido a uma falta de entendimento de si, sua necessidade de
autoconhecimento parece se referir a uma necessidade de constituição do
próprio self. É uma
busca do fortalecimento desta idéia do “eu” que se reconhece, conhece
seus limites, para poder dar conta de si sozinho, “sem precisar contar
com ninguém”.
Segundo
Velho (1986), a definição básica de sociedade complexa moderna é a
coexistência de vários domínios que, embora relacionados, apresentam
especificidades e relativa autonomia, assim, há diferentes códigos
operando em função de diferentes domínios. Por domínio entende-se a
família, o trabalho, a política, a amizade, a religião, a sexualidade,
o lazer. Desse modo, as especificidades desses domínios estão
relacionadas à diferença de ethos e representação do próprio indivíduo, nesse sentido, de
alguma forma, o sujeito tem que decidir e escolher um caminho específico,
ou seja, é preciso definir e descobrir o que se quer, o que o indivíduo
pretende. É segundo essa máxima das sociedades complexas que a construção
da identidade se torna um problema central. Para Oliveira (2002), é
preciso separar o Eu e a Identidade ou as Identidades que um indivíduo
pode assumir nas sociedades modernas. Manter a integridade de seu Eu
parece constituir hoje preocupação central das pessoas que buscam uma
terapêutica a fim de “autoconhecimento”. Pois enquanto as identidades
são experimentadas como pluralidades na vida social, o Eu é
experimentado como uno, pois é ele que garante a continuidade e
multiplicidade de identidade.
Assim,
a grande tendência do pensamento ocidental moderno diz respeito ao self ser independente da visão do outro, ser anterior aos papéis
sociais que desempenha, ser o somatório de vários papéis que
desempenha, ou se o indivíduo realmente é o que ele faz. Ora, diante de
tantos questionamentos a respeito da própria noção de pessoa referente
ao indivíduo moderno, as crises
existenciais oriundas dessa fragmentação identitária não poderiam
deixar de ser experienciadas. Segundo Velho, “Cabe distinguir o lugar do
indivíduo na construção social da identidade de qualquer grupo ou
sociedade e o desenvolvimento de uma ideologia individualista que, em
principio, estaria vinculada a tipos particulares de experiência e história”
(VELHO, 1999, p.45). Esses indivíduos psicologizados de camadas médias são
possuidores de uma liberdade relativa, que existe em função de um enorme
campo de possibilidades de desempenhar diferentes papéis sociais, o que
resulta numa fragmentação que permite o deslocamento de um domínio para
outro. A busca é então, em meio a esses múltiplos papéis a serem
desempenhados, algo a ser apreendido que possa atribuir consistência e
coerência à existência.
Segundo
Velho (1999), o lugar do indivíduo na construção social de seu Eu, está
intimamente relacionada ao desenvolvimento de uma ideologia individualista
em suas relações, sendo as crises da vida e o recurso à psicanálise
momentos privilegiados para perceber uma vertente individualizante nos
sujeitos. A entrevistada continua:
Sabe
quando você começa a desconfiar assim: “não, mas não é possível
que 90% das pessoas me falando uma coisa e eu achar outra, tem que ter
alguma coisa errada. Além de ter sido por isso, sabe quando você começa
a notar que os amigos com quem você conversa já tem a mesma opinião
sempre sobre seu assunto, não tinha mais como conversar com ninguém
sobre meus problemas entendeu?! (...) Ninguém mais agüentava ouvir, você
começa a perceber isso nos outros, você não é tonto sabe?! Aí eu
falei assim: “Ah, então beleza, não vou mais encher o saco de ninguém
para falar das minhas coisas”, além
do que, as pessoas acabam participando dos seus problemas de uma
forma ou de outra, e todo mundo que ta no meio envolvido é igual a você,
pra dar um palpite, pra dar uma opinião, uma orientação, vale tão
pouco quanto a sua. Então eu falei “ah, vou procurar alguém de fora,
alguém tipo assim, imparcial entendeu, que eu vou chegar lá, vou poder
falar, vou poder desabafar, e vamos ver o que dá.
(...)
sabe quando você fica menos crítica para as coisas dos outros, por
exemplo, se eu to falando dos meus problemas para alguém, e essa pessoa
ta olhando pro lado, paciência, realmente essa pessoa não tem a obrigação
de me entender, e se eu tivesse num dia ruim e essa pessoa chegasse
falando um monte de coisa, eu ia fazer o mesmo que essa pessoa, que eu to
julgando que eu tenho que ter atenção, que eu tenho que ter conselho,
que eu tenho que ter paciência, eu ia fazer o mesmo que ela. (...) eu to
vendo que o que ela (analista) ta querendo trabalhar comigo é que a
responsabilidade da minha vida não depende só dos outros, depende do que
eu to fazendo.
(...)
pretendo chegar a alguém que pare de achar que depende dos outros para
ser feliz, que dependo da aprovação dos meus pais para eu ser feliz, que
eu dependo das mudanças do meu namorado para eu ser feliz, que dependo do
meu êxito em tudo para eu ser feliz, para ser satisfeita, buscar começar
entender que no fundo, no fundo, eu dependo de mim, os outros não vão
ficar fazendo as coisas para mim. Não é você Maria Carolina que vai
resolver meus problemas, que vai todo dia me elogiar, eu é que tenho que
me achar, e eu não me acho hoje, te dizer que eu acordo todo dia e falo
“ai como eu sou linda, ai como eu sou feliz” é mentira, dizer “como
meus problemas perto dos outros são pequenos” mentira, eu sei que tem
gente 10 mil vezes com problemas mais sérios do que o meu, só que o que
eu tenho hoje me incomoda muito, então é isso que eu to buscando (com a
análise), tentar ser uma pessoa mais forte nesse sentido, e fazer as
coisas por mim e não sempre em função dos outros.
Nesse
trecho da entrevista, fica claro a busca por uma individuação típica da
ideologia moderna. O indivíduo dos grandes centros urbanos, busca de
alguma forma uma valoração de si mesmo, já que o outro estará ocupado
consigo mesmo. Assim, torna-se
essencial constituir uma auto-estima, construir o próprio self,
sua individualidade, privacidade. Um sentimento narcísico que se refere a
“busca por um lugar ao sol” numa sociedade super populosa como os
centros urbanos. Além disso, esse sujeito busca conhecer a si próprio,
“dar conta de si sem precisar contar com ninguém”, somente à uma
dimensão individualizante da cultura moderna, tal noção poderia estar
presente como uma condição, uma necessidade para se estabelecer qualquer
em relacionamento.
A
necessidade de uma não dependência do outro constitui um dos grandes
paradoxos das sociedades complexas, já que vivemos em sociedade e
buscamos relações com os outros. A total independência é ilusória
quando se relaciona socialmente, mesmo que essa relação seja
superficial. Os indivíduos de camadas médias incorporam de maneira mais
intimista a esfera privada, mas a grande questão desses indivíduos é
que eles atuam no domínio público, conforme analisa Velho, “Tanto
homens como mulheres trabalham e têm algum tipo de participação ou
inserção na vida pública, com maiores ou menores responsabilidades”
(VELHO, 1986, p.40). É dessa forma que se estabelece a tensão entre a
esfera pública e a privada. Como Velho (1986) bem analisou, o encontro e
o desencontro com o outro constituem preocupação central deste universo.
A tensão entre individualização e a busca de sociabilidade e de aliança,
acabam permeando a discurso de Mariana, já que ao mesmo tempo em que ela
não quer depender absolutamente de ninguém, ela fica extremamente
magoada e irritada quando percebe que as pessoas não tem tempo, paciência
e atenção para ouvir seus problemas. O paciente psicanalítico parece um
consumidor ansioso de reasseguramento de sua subjetividade autêntica, de
um aprofundamento de sua vida própria, para só assim, conseguir da
melhor forma (re)estabelecer as relações sociais de forma que estas
sejam agradáveis tanto a si próprio quanto para o outro (FIGUEIRA,
1981). E essa tensão ficou evidente no discurso da entrevistada, pois
aparecem reclamações sobre a relação familiar, a relação afetiva, a
relação entre amigos, sendo essas dificuldades de relacionamento como
uma das principais causas para a busca de terapia psicanalítica.
Segundo
DaMatta (2000) há uma diferença de conceito entre os termos
individualidade e individualismo. Para o autor, há uma passagem da
individualidade, que seria as experiências da condição humana, para o
individualismo que é uma ideologia central para as civilizações
ocidentais. Segundo DaMatta, a modernidade diz respeito à
institucionalização do indivíduo enquanto valor postulado maior do que
a sociedade da qual ele é parte. Muitas sociedades do mundo reconhecem e
são capazes de institucionalizar a experiência da individualidade, como
à experiência apontada por Dumont (1985), de estar fora-do-mundo e,
portanto, livre das obrigações sociais. Isso pode ser visto nos papéis
histórico do profeta, do messiânico, do místico, do curador, do xamã,
do feiticeiro, dos santos, dos peregrinos. Esse indivíduo fora-do-mundo,
no entanto, vivencia e conceitualiza o coletivo como complementar, se
individualiza temporariamente para cumprir suas obrigações sociais. Já
o nosso individualismo vivencia o afastamento do grupo como um movimento
marcado por interioridade e subjetividade. Foi somente na civilização
ocidental que o indivíduo não só é parte essencial do mundo, como também
um ser dotado de uma independência e de uma autonomia que não tem
paralelo em nenhuma outra sociedade. Enquanto nas civilizações
individualizantes há uma interdependência do indivíduo com o social,
nas civilizações ocidentais modernas prevalece um sentimento de
autonomia, uma liberdade que se constitui como instituição, um
sentimento de não ser subjugado, de fazer como bem entende.
A
independência em todas as esferas da vida social e a (auto) referencia do
indivíduo para tudo, como parâmetro, como juízo, se mostra como algo
fundante para alcançar o bem-estar individual, mais um exemplo da
necessidade de constituição de uma individualização, no entanto tal
condição se torna inviável visto que o indivíduo vive em sociedade e
em relação com o outro em quase todos os momentos de sua vida.
Essa
necessidade de uma cisão entre a sociabilidade e a individualidade, acaba
por resultar em relacionamentos, cada vez mais superficiais e faltosos,
como aponta Mariana. Parece que qualquer forma de relação se constitui
num campo de batalha onde ambas as partes se defendem como pode uns dos
outros. O resultado disso, é que nos centros urbanos os indivíduos
tendem a se isolar cada vez mais uns dos outros, o sentido de
comunidade/coletividade fora perdido, resultando no surgimento de novos
arranjos sociais, redes e grupos associativos, como a internet por
exemplo. Mariana aponta essa característica das sociedades complexas
quando conta seu estranhamento em sua primeira seção de análise:
No
primeiro dia foi muito estranho. Porque é uma salinha, um sofá pra você
sentar e um outro em que ela senta na sua frente, uma pessoa que você
nunca viu na sua vida, que fala baixinho, calminho, sabe quando você
pensa “meu, o que eu to fazendo aqui?”, você maior sem jeito de começar
a falar, tanto é que a primeira coisa que falei pra ela foi
“Priscila, eu não sei o que te falar”, daí ela, “calma,
agente vai conversar, a gente tem 50 minutos pra conversar, fala o que você
quiser, como foi seu dia hoje?” Meu, era uma pessoa estranha, como que
você vai começar a falar dos seus problemas, o que você sente, o que
você acha, para uma pessoa que você nunca viu, pra mim aquilo foi...aí
depois que você começa a se sentir mais a vontade, ela vai te fazendo
perguntas, vai te ajudando a falar, tipo, você lança um comentário
“ah, meu dia foi assim” e ela “mas por que?”, ela vai puxando as
coisas, você não precisa ficar neurótica, querendo saber “ai vou
chegar lá hoje e o que eu vou falar pra ela?”, é uma coisa que vai
acontecendo naturalmente. E outra coisa que me deixou meio assim no
primeiro dia foi que lá pro fim da sessão, quando eu tava me soltando
mais, aí ela virou pra mim com o maior cuidado, mas pra gente é desagradável:
“Olha, então, nosso encontro de hoje acabou, semana que vem a gente
continua”, eu olhei e pensei “nossa, então ta”. Pra mim foi muito
estranho aquilo, mas é compreensível porque ela tem horário.
(...)
ela queria tanto que eu falasse, a hora que eu comecei a falar, acabou o
tempo e ela teve que encerrar o negócio sabe?! Me senti mal. (...) queria
que ela continuasse me ouvindo oras, ela perguntou, eu tava respondendo,
daí ela vira pra mim e fala “ó, acabou nosso tempo vem semana que
vem”, foi uma situação sabe...eu acho que ela percebeu da minha parte
porque ela virou pra mim, como era o primeiro encontro,
e disse “você vai querer voltar, vai querer dar
continuidade?”, e eu falei que não sabia, não falei vou, falei “eu
vou pensar essa semana e eu ligo aqui” e falei séria sabe?! (...) Daí
eu voltei porque eu compreendi que essa mulher tem horário, tem outros
pacientes, não é assim, ela não tem todo tempo do mundo pra ficar me
atendendo.
(...)
porque uma vez nesse tempo todo que eu tava louca com todas essas idéias
passando pela minha cabeça, foi uma pessoa que parou e ficou me ouvindo,
olhando no meu olho o que eu tava falando, sentada na minha frente, sem ta
cutucando não sei o que, acendendo cigarro, ela teve aquele momento pra
mim assim como eu tive para ela, ela sentou, me ouviu e se interessou pelo
o que eu falava, me perguntou “mas por que? Mas será?”, por isso foi
bom, que diferente de tudo o que tava acontecendo comigo até então, foi
uma pessoa que teve um momento para aquilo. Não que minhas amigas não
tenham, de repente meu namorado nunca tenha tido, mas foi diferente sabe,
tipo você sentir que realmente alguém estava se importando, prestando
atenção, querendo te ajudar de alguma maneira.
Segundo
Benjamin, no texto “O Narrador” (1994), estamos incapacitados de
exercer uma faculdade que a princípio parece segura e trivial, que é a
faculdade de intercambiar experiências. A causa disso se refere à
transitoriedade frenética de nossas experiências de vida no interior das
sociedades modernas. Nesse sentido, fica evidente uma cisão do eu com o
outro, parece estarmos próximos só na aparência, na essência nos
isolamos uns dos outros, é por isso talvez, que o indivíduo cada vez se
conhece menos, segundo Benjamim (op.cit.), é através do compartilhamento
de experiências de vida, exercidas no saber narrar e ouvir, prática
comuns nas cidades pequenas ou em sociedades tribais, que constituem o
modo como os indivíduos orientam suas vidas, pois assim atribuem a ela
algum sentido.
Essa
necessidade de ter alguém exclusivamente para si, escutando, prestando
atenção e se interessando somente por você, constitui algo cada vez
mais complicado nos nossos dias, pois nossa comunicação está repleta de
ruídos que vem de todas as
partes devido ao ritmo acelerado de nosso cotidiano, além das imagens e
barulhos por toda parte, e
que são inerentes aos centros urbanos. Outro ponto é a busca pela
constituição de uma individualidade presente nos indivíduos que faz com
que ninguém ocupe sua mente com os problemas do outro, pois a máxima de
nossa atual sociedade é pensar primeiro em si mesmo e depois no outro, o
problema é que diante de nossa atribulada vida cotidiana, parece ser o
tempo dedicado aos outros cada vez mais escasso.
Para
Lévi-Strauss (2003), toda cultura pode ser considerada como um conjunto
de sistemas simbólicos, nesse sentido, não se pode reduzir o social ao
psicológico por meio das psicopatologias, pois cada sociedade possui suas
formas preferidas de distúrbio mental, sendo estes distúrbios tanto
quanto as formas normais, função de uma ordem coletiva. Assim, segundo
ele, os diferentes tipos de distúrbios se dispõem em categorias, admitem
classificações, e as formas predominantes não são as mesmas em toda
sociedade ou segundo esse ou aquele momento da história de uma tal
sociedade.
As
neuroses atuais, presentes em nossas sociedades ocidentais e complexas,
freqüentam um mundo de buracos, de vazios no psiquismo, uma dificuldade
de efetuar o processo de simbolização e representação, onde as condições
de formação dos objetos não se cumprem, seja por excesso ou falta de
experiências sensíveis ao espírito humano. Segundo Lowenkron (2003), as
manifestações de sofrimentos psíquicos atuais se referem aos
transtornos depressivos, ao sentimento de vazio interior, os de redução
de auto-estima e de falta de identidade, somatizações graves e abusos de
drogas e outras atividades perversas. Assim, se constituem novas doenças
da alma que são produtos dos novos tempos, de uma nova ordem social e das
desordens que lhe são próprias.
A
autora salienta o aparecimento de uma cultura narcísica, que constitui
uma imagem idealizada do ser, para ela, “Alteração do sentido de
tempo, intenso temor ao envelhecimento e à morte, fascínio pela
celebridade, deterioração das relações entre os homens, negação
feroz da dependência ao outro, são alguns dos padrões característicos
da cultura contemporânea fortemente narcísica” (Lowenkron, 2003,
p.997). A ideologia individualista pode ser a grande produtora desse
narcisismo, além da lógica da sociedade de consumo, que promove a ilusão
de satisfação de todos os desejos e de uma liberdade individual
irrestrita. Tais sentimentos acabam por produzir um mal-estar na forma de
apatia, vazio interior, solidão e fracasso.
O
desafio tanto do psicanalista e principalmente do paciente é que o
sofrimento subjetivo se manifesta sob forma de sintomas narcísicos e
depressivos, em indivíduos que cada vez mais, como já foi visto, tem
dificuldades para articular numa narrativa as próprias histórias, vivências
e dores. Uma das questões dessa pesquisa se refere a uma peculiaridade da
terapia psicanalítica frente a outros tipos de psicoterapia como a
comportamental, ou então às terapias orientais neo-espiritualistas. As
áreas das perturbações da vida a qual os pacientes psicanalíticos se
voltam não são exclusivamente médicos e nem exclusivamente
secularizado. Muitos indivíduos de camadas médias urbanas procuram terapêuticas
que promovem alívio rápido de seus males, tornando-se dependentes de
medicamentos, relutando em aceitar a perspectiva de longo prazo, vendo
como impossível para seu ritmo de vida a regularidade dos encontros que
demanda a terapia psicanalítica. Há àqueles que buscam um retorno à
espiritualidade, ao metafísico, ao secular para encontrar as respostar em
um outro plano que não seja o da realidade concreta. Mas há quem quer
simplesmente ser ouvido, quem quer (re) construir seu aparelho psíquico,
entrar em contato com seu “eu”, através do inconsciente, restabelecer
sua capacidade de representação dos significados, atribuir por si mesmo
os sentidos de suas experiências, pelo menos no tempo em que estiver
dentro da clínica. Mariana sabia que essa terapia que ela havia escolhido
para dar conta de seu sofrimento poderia não ter fim, era um tratamento
em longo prazo, mas ela gostava do modo como a terapêutica funcionava,
gostava de falar e ser ouvida gostava da sensação de exclusividade que o
analista proporcionava.
Evans-Pritchard
(2005) analisa o sistema de bruxaria dos Azande na África, como sendo um
sistema sustentado por uma teoria das causas. Segundo o autor, o problema
que os Azande procuram solucionar com sua crença na bruxaria é o
seguinte: Por que acontece a mim e não aos outros uma desgraça? Em nosso
sistema de pensamento, dizemos que pode ser má sorte, eles dizem que é
por conta da bruxaria. A bruxaria não responde de que morreu, mas por que
morreu uma pessoa. Evans-Pritchard conclui que a mente dos Azande trabalha
com os mesmo moldes lógicos que a nossa, apenas utilizando materiais
culturais diferentes. Assim, a crença no sistema de bruxaria teria o
mesmo sentido de cura que no valor atribuído a terapia da psicanalítica,
ou seja, tanto a magia quanto à psicanálise utilizam proposições que
se apresentam de maneira não verificável concretamente pelo
cliente/paciente.
Segundo
Monteiro (1986), as operações mentais da magia comportam julgamentos de
valor fundamentados mais na afetividade que na razão. No entanto, essa
dimensão afetiva não retira o rigor desse pensamento, pois a lógica que
governa o pensamento coletivo é mais exigente que o individual. São as
necessidades reais comuns e constantes que a magia satisfaz, dando a ela
sua razão de ser, sua coerência. Essa forma de funcionamento do
pensamento mágico pode ser análoga ao pensamento psicanalítico, e nesse
sentido, é preciso saber em termos de que tipo de representação os
indivíduos acreditam que a magia é eficaz, e em que tipo de representação
os indivíduos das camadas médias urbanas acreditam que a psicanálise
seja eficaz. Pois segundo Monteiro, procura-se um mágico porque se
acredita nele de antemão, para a autora “Dessa crença participam o mágico,
o cliente e o grupo social como um todo” (Monteiro, 1986, p.61), da
mesma forma acontece com o indivíduo que procura a terapia psicanalítica,
pois há uma crença coletiva, pelo menos do grupo no qual o indivíduo
está inserido, de que este profissional possa curar todo sofrimento e
aflição.
Segundo
Monteiro (1986), é atribuindo um sentido coletivamente estruturado às
desordens individuais que o rito se torna eficaz. O distúrbio quando se
torna acessível a uma significação, se constitui para o individuo num
instrumento e compreensão de seus conflitos e da forma como esses
conflitos se relacionam com a ordenação do mundo social, nas palavras da
autora, “Frustrações, antagonismos, contradições pessoais se
articulam num sistema de significação que permite ao indivíduo
compreender que os males que o afligem não advêm simplesmente de sua
fraqueza ou incapacidade pessoal, mas têm a ver com o lugar social que
ocupa” (Monteiro, 1986, p.65). Ora, é nessa capacidade de atribuir
sentido às aflições e sofrimentos que a psicanálise atua em seus
pacientes/clientes.
Conclusão
Segundo
Velho (1986), na sociedade moderna o indivíduo tende a se pensar a
unidade básica significativa, a medida de todas as coisas, e isso fica
mais evidente nas camadas médias intelectualizadas que interiorizam e
vivenciam a ideologia individualista. A extrema valorização do privado
em detrimento da esfera pública, apresentada pelos indivíduos de camadas
médias, parece estar vinculada a uma estrutura sócio-cultural. A
categoria social da sociedade brasileira, segundo Velho (1986), tende a
sublinhar uma rejeição à política, no sentido da vida pública, e o
investimento existencial é, dessa forma, concentrado no privado. Parece
haver uma tendência de afastamento progressivo com relação aos domínios
objetivos da sociedade, o foco se vira para a subjetividade, sendo esta
valorizada e considerada a válvula propulsora de um verdadeiro bem estar.
Parece
que a essência dos indivíduos das camadas médias nos grandes centros
urbanos, não depende de circunstâncias externas, depende exclusivamente
do valor que ele mesmo se dá, parece que é nesta máxima que as pessoas
que se utilizam da terapia psicanalítica justificam a necessidade e
utilidade deste tratamento. Segundo podemos ver nos trechos da entrevista
de Mariana, o autoconhecimento é algo que em primeiro plano serve ao próprio
indivíduo, um privilégio à si próprio, um cuidar de si, e as conseqüências
disso são melhores relações com o outro, pois ela julga ser esse
autoconhecimento fundamental para a não dependência do outro em nenhuma
de suas relações, e de acordo com Cassirer: “Aquele que vive em
harmonia consigo mesmo, com seu demônio, vive em harmonia com o
universo” (CASSIRER, 1994, p.19).
Assim,
pensar a demanda por terapia psicanalítica, é pensar na representação
do sofrimento psíquico feita pelos indivíduos como algo inerente à
sociedade, pois é por ela produzido. Voltar-se para a subjetividade,
nesta pesquisa, constituiu-se como um paradigma teórico relevante para
entender a realidade social. Não é o homem político, nem o homem econômico,
mas é o homem social que interage com os outros e constitui a sociedade
ao mesmo tempo em que vai se constituindo, num processo contínuo e sem
fim. Dessa forma, o indivíduo não pode ser considerado apenas em sua
dimensão biológica e objetiva, há de se voltar à atenção para a
subjetividade, segundo Velho, “O homem é um organismo superior, com um self
cujas potencialidades podem ser desenvolvidas” (VELHO, 1986, p.14).
Este
trabalho visava discutir, indiretamente, os efeitos da constituição de
uma “cultura psicanalítica” e a “psicologização” de alguns
setores da vida social. A cultura psicanalítica pode ser analisada como
ideologia, visão de mundo ou como sistemas de representação articulada
a um segmento social específico,
estabelecendo um eidos e
um ethos específico. Segundo Figueira (1985) o eidos se estabelece num sentido de uma lógica para o pensamento,
que inscrita num âmbito pessoal, possa dar conta de explicar o mundo
externo. O ethos é visto
como um psicologismo individualizante que privilegia a expressão das emoções,
onde o inconfessável é tratado como algo recalcado, atribuindo um sabor
de liberação pessoal e bem estar aos envolvidos nesse processo terapêutico.
Dessa forma, o centro da análise dessa cultura está no self
das pessoas que participam dessa cultura psicanalítica. Assim, a relação
entre ciências sociais e psicanálise, nesta pesquisa, buscou codificar
os sentimentos, atribuindo um ponto de vista que permita compreender o que
ocorre com as emoções e com o imaginário no cotidiano desses sujeitos,
entrando em temas que levam em conta o ponto de vista dos próprios indivíduos
inseridos nessa cultura.