Ano I - Nº 04 - Maio de 2002 - Quadrimestral - Maringá - PR - Brasil - ISSN 1519.6178

Refletindo sobre os acontecimentos do dia 11 de setembro

Eugênio Almeida*

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitar a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Carlos Drummond de Andrade, 1938.

 

RESUMO:

O presente artigo foi escrito como resposta às críticas dirigidas por um de meus colegas de trabalho, a respeito de comentários feitos por mim, em sala de aula, com alunos de 7ª e 8ª séries sobre os atentados terroristas que atingiram os Estados Unidos. O que demonstra os sentimentos despertados em nossos corações e mentes pelos atentados terroristas e pela, conseqüente retaliação norte-americana. Neste texto, exponho os principais elementos dirigidos aos meus alunos sobre os acontecimentos de 11 de setembro último.

Assim, mostro que estudar História não é “relembrar” coisas passadas, mas compreender nosso presente e transformá-lo em algo melhor. Procuro demonstrar que não há no Alcorão nada que, por si mesmo, justifique os ataques terroristas. Amparado na leitura de capítulos do próprio Alcorão, destaco os versos que dão um caráter universalista e humanístico à tradição islâmica. Além de enfatizar que o chamado “fundamentalismo” islâmico está mais vinculado às crises do capitalismo contemporâneo, como afirma Robert Kurz, do que com o passado pré-moderno dos povos árabes.

O papel dos Estados Unidos merece destaque. Como potência econômica e militar hegemônica no mundo, os Estados Unidos possuem grande responsabilidade para com os destinos do planeta. Da mesma forma como deve ser repudiado todo e qualquer ato de grupos terroristas, faz-se necessário também repudiar o terrorismo de Estado. Sendo assim, não poderia deixar de acentuar a responsabilidade e questionar as idiossincrasias contidas no discurso e na prática dos governos norte-americanos.

Por fim, aposto na ruptura com o modelo imposto ao mundo pela onda globalizante, alicerçada pela ideologia neoliberal. Apostando na construção de um mundo em que se estabeleça um relacionamento mais eqüitativo entre os países ricos e pobres. Um mundo no qual o ser humano seja, finalmente, o fator determinante das políticas interna e externa das nações.

A História – a História como parte das Ciências Humanas – não pode ser encarada como atividade diletante. O estudo da História somente encerra alguma utilidade se nos auxilia compreender a nossa sociedade: na reflexão crítica sobre nosso mundo. Da reflexão, da disputa ideológica que nela reside, parece depender nosso futuro. E, é bom que se diga, não se trata de exagero retórico. Basta lembrar as “teorias” da chamada “nova ordem mundial” e do “fim da História” despachadas por pseudos filósofos, no início da década de 1990, que preconizavam a vitória definitiva do capitalismo em sua versão mais monstruosa: a neoliberal. Ou seja, o fim do pensamento reflexivo, o epílogo da liberdade de pensamento, o totalitarismo do “pensamento único”. Mas tais idéias já demonstravam suas inconsistências quando da eclosão da Guerra do Golfo, em 1991. Curiosamente, o então presidente dos EUA era George Bush, o pai. Naquele momento, por assim dizer, a História recomeçava.

A História recomeçou, mais uma vez – perdoem-me a redundância –, com os acontecimentos do último dia 11 de setembro, causando grande impacto em nossos corações e mentes. Só que desta vez a tragédia era vivenciada pelo povo norte-americano, em sua casa. É perturbador saber que atrocidades como as que ocorreram em NY e Washington, um verdadeiro crime contra a humanidade, possam ser justificadas por uma determinada “leitura”, diriam alguns, “fundamentalista”, do Alcorão – supondo verdadeiras as conclusões do governo norte-americano – e que, em nome de Deus, possa o homem fazer tantas loucuras. José Saramago, em artigo recente, chegou mesmo a denunciar um certo “fator deus” e a afirmar com ironia que: “o deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades”. (SARAMAGO, 2001)

Não tenho a pretensão de julgar qualquer religião – muito menos, como fez Saramago, todas elas –, embora compartilhe com o escritor português da mesma visão pessimista em relação a transcendência humana. Porém, gostaria de lembrar que, quase sempre, por trás de argumentações de cunho religioso há, explícita ou implicitamente, motivações políticas. Assim, correndo o risco da simplificação, o cristianismo, em seus primórdios, não teria servido de coesão ideológica para a luta dos antigos escravos contra a opressão do império romano? A Reforma Protestante, do século XVI, não acenderia a chama do “espírito do capitalismo”, dando sustentação a uma nova visão de mundo vinculada à burguesia em ascensão? O que poderíamos dizer acerca da expansão territorial norte-americana no século XIX, em boa parte, justificada pela doutrina do “destino manifesto”, de nítida inspiração calvinista, de acordo com a qual cumpria aos EUA anexar as áreas do Atlântico e do Pacífico?

Da mesma forma, não é possível desconsiderar o papel determinante do islã na unificação política das tribos nômades da península arábica, no século VII. Tampouco, pode-se desprezar, à luz dos últimos acontecimentos, a importância do “fundamentalismo” islâmico para os rumos da política internacional no mundo contemporâneo. Se levado em consideração a situação específica vivida hoje pelo Oriente Médio, poder-se-ia afirmar que as origens de seus problemas estão relacionadas a dois elementos cruciais. Em primeiro lugar, devido à dissolução do império turco-otomano e a conseqüente criação de Estados conformados aos ditames das potências européias, após 1918. Esta região sofreu, a exemplo de tantas outras situadas na periferia do capitalismo, as conseqüências nefastas da política imperialista, comandada, num primeiro momento, pelos governos da Inglaterra e da França e, durante o período da guerra fria, também pelos Estados Unidos. O segundo elemento está relacionado à criação do Estado de Israel, em 1948, em pleno território palestino, que somente veio acrescentar uma dose a mais de instabilidade no caldeirão político-religioso em constante ebulição da região, conquanto a questão palestina possa ser reportada ao primeiro conflito mundial. Assim é que Eric Hobsbawm, falando sobre as conseqüências do Tratado de Versalhes, comenta:

O  mapa da Europa tinha que ser redividido e retraçado, tanto para enfraquecer a Alemanha quanto para preencher os grandes espaços vazios deixados na Europa e no Oriente Médio pela derrota e colapso simultâneos dos impérios russo, habsburgo e otomano. (...) O remapeamento do Oriente Médio se deu ao longo de linhas imperialistas – divisão entre Grã-Bretanha e França – com exceção da Palestina, onde o governo britânico, ansioso por apoio judeu durante a guerra, tinha, de maneira incauta e ambígua, prometido estabelecer ‘um lar nacional’ para os judeus. Essa seria outra relíquia problemática e não esquecida da Primeira Guerra Mundial.(HOBSBAWM, 1994)

 

No sentido oposto ao de Saramago, me impressiona – reservado o direito à ingenuidade – o fato de que uma das maiores religiões do planeta possa servir de lastro para a intolerância e para o terrorismo. Principalmente quando, ao ler o Alcorão, me deparo com versos tão belos como os que dizem: “... quem matar um homem... é como se tivesse matado todos os homens; e quem salvar a vida de um homem, é como se tivesse salvo a vida de todos os homens”. (ALCORÃO, 5:32) Ou aquele que conclama: “Ó filhos de Adão, criamo-vos machos e fêmeas e dividimo-vos em povos e tribos para que conhecesseis uns aos outros. Aos olhos de Deus o mais nobre entre vós é o mais piedoso. Deus é informado e sabe”. (ALCORÃO, 49:13) E onde poderíamos encontrar palavras mais tolerantes em relação aos seguidores de outras religiões: “Os que crêem e os que abraçam o judaísmo e os sabeus e os nazarenos e quem quer que creia em Deus e no último dia e pratique o bem nada tem a temer e não se entristecerá”. (ALCORÃO, 5:69)

É evidente que o Alcorão, segundo a tradição islâmica, é um livro em que Deus fala aos homens – enfatizo, aos homens – sobre muitas coisas, inclusive sobre as mulheres. Portanto, trata-se de uma visão masculina do mundo – do mundo pré-moderno vivido pelo Profeta, bem entendido. Daí a lei do Alcorão, aos olhos contemporâneos, parecer pródiga em idiossincrasias, como, por exemplo, na extrema severidade ao tratar do comportamento social e pessoal, do latrocínio ao adultério. Embora, ainda hoje, a “lei de talião” seja sugestão de muita gente boa no mundo Ocidental como resposta, por exemplo, à criminalidade, sem levar em conta a face socioeconômica da questão. Mas, é bom lembrar que, segundo Mansour Challita (autor da tradução do Alcorão na qual me amparo), devido ao caráter universalista do islamismo, “o Alcorão não classifica os homens conforme sua raça, cor, nacionalidade, cultura, riqueza ou classe social”. (CHALLITA, s/d)

Mas há também os versos sobre a guerra santa, diretamente ligados à conquista e à expansão do mundo árabe pré-moderno, que se tirados de seu contexto histórico só podem servir para jogar água no moinho de líderes carismáticos como Bin Laden, assim como no da “contra-ofensiva” norte-americana. Ainda conforme Mansour Challita, “além das verdades em que o muçulmano deve crer, há cinco deveres que lhe são prescritos: a prece, o jejum, o pagamento do tributo dos pobres, a peregrinação a Meca e a guerra santa”. (CHALLITA, s/d) Para o islã o mundo é dividido entre aqueles que crêem e os que não crêem. Os que crêem são os seguidores do Livro, os que não crêem são os não crentes ou os infiéis. A todos é dada a oportunidade da conversão, desde que, é claro, se submetam aos designos de Deus (aliás, a palavra islã significa submissão). Não obstante, este dualismo não impediu que, quase sempre, prevalecesse o enorme senso prático, característico do povo árabe, na relação com os demais povos. Para além da visão religiosa, a guerra santa surge – volto a lembrar, no contexto da unificação das tribos nômades e, logo depois, na expansão muçulmana dos séculos VII ao XI – como elemento decisivo para a coesão do mundo árabe, expressando, particularmente, uma comunhão entre o proselitismo religioso islâmico, o modo de vida das tribos beduínas e os interesses dos grupos mercantis urbanos árabes da época.

Note-se que uma leitura linear do Alcorão permite encontrar uma das primeiras referências à guerra santa, da seguinte maneira: “E combatei, pela causa de Deus, os que vos combatem. Mas não sejais os primeiros a agredir. Deus não ama os agressores”. (ALCORÃO, 2:190) Dando, portanto, um caráter nitidamente defensivo à quinta prescrição islâmica. Mais adiante, as suras do Livro se abrem para a possibilidade de dar um caráter missionário, meramente proselitista, ao preceito da guerra santa, na medida que ela pode ser interpretada como sendo tão somente a luta pela “causa de Deus”, bastando para tal saber quais seriam os Seus designos. Assim, lê-se: “São realmente crentes os que crêem em Deus e em Seu Mensageiro, que não duvidam e que lutam, com sua vida e suas posses, pela causa de Deus”. (ALCORÃO, 49:15)

Por outro lado, ao ler os versos do Alcorão, penso na relativa tolerância que os conquistadores árabes possuíam no trato com os povos conquistados. Atitude, certamente, bem mais benevolente se comparada ao mundo cristão do mesmo período histórico. Em relação a este ponto, o historiador Bernard Lewis ressalta que:

Os conquistadores não interferiam na administração interna, tanto civil como religiosa, dos povos conquistados, aos quais era concedido o estatuto de Dhimis, ou seja, membros das religiões toleradas autorizadas por leis. A passagem do domínio Bizantino ao domínio árabe parece ter sido bem acolhida, de um modo geral, pelos povos vassalos, que consideravam o novo julgo menos pesado do que o anterior, não só na tributação como noutros aspectos. As próprias populações cristãs da Síria e do Egito preferiam o domínio do islã ao dos Bizantinos ortodoxos. (LEWIS, 1982)

 

E os povos das regiões dominadas não se limitaram aceitar a presença árabe, mas foram mesmo incorporados a este novo mundo, fazendo parte, inclusive, cristãos, judeus e zoroastrianos da organização político-administrativa do império islâmico. Talvez os árabes tenham sido os primeiros a compreender, na prática, o significado do conceito de hegemonia, no seu sentido gramsciano. Essa capacidade de incorporação deu ao império árabe um significativo legado cultural (principalmente no desenvolvimento da língua árabe, na arquitetura, nas matemáticas e na medicina), ao qual foi possível realizar uma síntese original e duradoura.

Deste modo, é importante lembrar que, como já ressaltou o sociólogo alemão Robert Kurz em seu livro O Colapso da Modernização:

O fundamentalismo islâmico não tem quase nada em comum com a antiga cultura islâmica da pré­-modernidade, além do próprio nome. Pois essa cultura não pode ser separada daquelas estruturas de reprodução tradicionais, pré-­capitalistas e fundamentadas numa sociedade agrária que desapareceram no mundo inteiro há muito tempo. (KURZ, 1993)

 

Para Robert Kurz, o “fundamentalismo” islâmico constitui hoje apenas um invólucro que expressaria de fato um profundo sentimento contrário ao capitalismo neoliberal, apresentado ao mundo, de maneira difusa e “bárbara”, na forma de um sentimento antiocidental, cujas raízes estariam assentadas nas políticas traçadas por instituições como o FMI e o Banco Mundial. Todas controladas pelo governo norte-americano.

Ler o Alcorão – ainda que parcial e fragmentadamente – não teve a intenção de ver o “outro lado” com seus próprios olhos, como se isso pudesse ser possível. Para isso, seriam mais eficientes as imagens transmitidas pela CNN. A leitura do Alcorão – ressalvada sua limitação – demonstrou, no entanto, que não está nele a justificativa do terror do dia 11 de setembro. Da mesma forma que não há nada nos evangelhos cristãos que leve pastores evangélicos a destruírem imagens católicas. Em conseqüência, uma coisa que fica evidente é que o “fundamentalismo”, seja islâmico ou cristão, tem outras origens, que se relacionam, como Robert Kurz aponta, com a profunda crise do capitalismo em escala planetária. Também o neoliberalismo não seria uma interpretação "fundamentalista" da obra Riqueza das Nações, de Adam Smith? Uma resposta do “núcleo duro” do pensamento econômico burguês à crise do capitalismo contemporâneo? Daí, também, não fazer sentido a idéia de choque cultural entre o Ocidente e o Oriente, como, aliás, afirmou o historiador Eric Hobsbawm:

Falar em “choque entre civilizações” é uma tentativa de redirecionar o problema. Estamos assistindo a um conflito de opiniões, não a um choque entre civilizações. Cristãos e islâmicos formam uma única civilização. Ambos têm seus valores e dogmas bem sedimentados. Portanto, tentar colocá-los em lados opostos é pretender fragilizar o argumento histórico. (HOBSBAWM, 2001)

 

Um outro equívoco é creditar a um antiamericanismo tacanho qualquer crítica que se dirija à operação militar norte-americana contra o Afeganistão. Como se fosse possível esquecer que o regime do Talibã somente chegou ao poder no Afeganistão devido à política externa norte-americana durante a guerra fria. Como se a crítica à operação “justiça infinita”, ou qualquer outro nome que ela tenha hoje, significasse alguma complacência ou mesmo cumplicidade com os atentados terroristas, ou ainda contra a própria “civilização Ocidental”. Exemplo disso nos dá o jornalista inglês Robert Fisk quando se refere ao atual clima de censura no jornalismo europeu:

Eu estava sendo acusado de antiamericano e informado que antiamericanismo é o mesmo que anti-semitismo (...) criticar os Estados Unidos neste momento é o equivalente moral do ódio aos judeus. Tudo bem escrever manchetes sobre o ‘terror islâmico’ (...) mas está definitivamente além das medidas perguntar por quê os Estados Unidos são tão detestados por tantos árabes muçulmanos no Oriente Médio. (FISK, 2001)

 

Por que o governo norte-americano não qualifica de “crime contra a humanidade” os atentados terroristas do dia 11 de setembro, ao invés de simplesmente “atrocidades terroristas”? Por que o governo norte-americano não discute nas Nações Unidas as ações conjuntas que devem ser tomadas contra Bin Laden e seu bando? São perguntas que Robert Fisk faz a seus leitores. Ele mesmo arrisca algumas hipóteses: “Ou porque os Estados Unidos são contra a justiça internacional. Ou porque especificamente se opõem à criação de uma corte internacional sob o fundamento de que seus próprios cidadãos um dia poderiam se ver diante dela”. (FISK, 2001)

Desde o primeiro momento, os meios de comunicação dos Estados Unidos, com nítida intenção de manipular a sua “opinião pública”, vêm comparando os atentados terroristas com o ataque japonês à base norte-americana de Pearl Harbor, em 1942. “O dia da infâmia II”, diriam alguns. Penso que existem mais diferenças do que semelhanças entre os dois episódios. Não somente porque Pearl Harbor é uma ilhota do Pacífico e os atentados terroristas tocaram o coração do continente, mas, sobretudo, porque naquela ocasião tratava-se de uma declaração de guerra envolvendo Estados constituídos como tais, ou melhor, confrontavam-se, então, alianças político-militares entre Estados. Falar em “guerra ao terrorismo” da maneira como deseja o governo norte-americano, ou seja, mobilizar todo um exército, o mais poderoso do mundo, na caçada a um homem, mesmo que isso signifique arrasar um país já destruído por mais de décadas de conflitos, não é apenas um erro. É manipulação da grossa, para justificar os gastos astronômicos empregados na construção do poderio militar norte-americano.

Afinal, quais eram os objetivos dos terroristas? Como se articulam e funcionam estas organizações? Quais suas bases materiais e sociais? Quantas pessoas como Bin Laden existirão no mundo? A idéia da “guerra contra o terrorismo” não é um erro apenas porque um Estado só pode declarar guerra a outro Estado, mas, principalmente, porque seria um grande desperdício de vidas, de tempo e de recursos que poderiam estar a serviço de fins mais nobres. Seria, mais uma vez, atacar as conseqüências e não as causas. Pouco se fala do fim da ajuda humanitária prestada por voluntários internacionais ao Afeganistão após o ultimato dos Estados Unidos. Porque simplesmente o terror não pode ser combatido apenas pela força das armas. Ainda mais quando se oferece como contraponto à ação de grupos terroristas, o terrorismo de Estado. E, diga-se de passagem, não de um Estado qualquer: simplesmente da maior superpotência econômica e militar da história mundial.

Uma tarefa fundamental é refletir sobre o papel desempenhado pelos EUA e pelas instituições criadas em Bretton Woods (FMI, Banco Mundial e o GATT) após 1945 e, particularmente, depois do desmoronar da ex-URSS, quando os EUA se transformam na única superpotência mundial. Neste contexto, os EUA surgem como fiadores da globalização que aparecia como uma promessa de unificação planetária, de diluição das fronteiras econômicas, políticas e culturais que separam ricos e pobres. Tendo o neoliberalismo como ideologia e a integração dos mercados nacionais ao mercado internacional como objetivo maior. Embora tenha havido um grande avanço nas telecomunicações e o aumento estrondoso dos lucros das empresas transnacionais, transformando-as em atores chaves da economia internacional, a globalização aumentou o abismo entre os países centrais do capitalismo e suas imensas regiões periféricas. Criando, inclusive, bolsões de pobreza no seio mesmo do capitalismo desenvolvido. Ganha cada vez mais força um outro elemento definidor das políticas econômicas traçadas por todos os governos: o capital especulativo. “Os mercados votam todos os dias... Não restam dúvidas que os mercados forçam os governos a adotar medidas impopulares que, no entanto, são indispensáveis. Decididamente, o verdadeiro sentido dos Estados repousa hoje nos mercados”. (BORON, 1999) A frase, atribuída a um dos maiores representantes do capital especulativo internacional, o húngaro George Soros, dá bem a noção do papel decisivo do capital financeiro na definição das políticas governamentais atualmente. O Estado se transforma em mínimo para o investimento social e máximo para atender as demandas do grande capital.

Não é mais admissível que os Estados Unidos atuem como se não devessem satisfação às demais nações. Não é mais possível admitir a onipotência de sua política internacional, o desrespeito aos acordos e resoluções internacionais que refletem, em grande medida, as pressões da opinião pública internacional em relação a uma maior humanização da política e da economia mundiais. É neste sentido que o francês François Heisbourg, diretor da Fundação para a Pesquisa Estratégica, alerta:

Na administração Bush, o unilateralismo tornou-se o modo de operação característico dos Estados Unidos: abandono do protocolo de Kyoto; rejeição do acordo de verificação do tratado de proibição das armas biológicas; recusa de entrar nas negociações sobre o tráfico de armas de pequeno calibre; intenção proclamada de abandonar o tratado de mísseis antibalísticos. (ANTUNES, 2001)

 

É preciso pensar a responsabilidade de instituições financeiras internacionais como o FMI e o Banco Mundial. É urgente uma nova política internacional amparada num relacionamento mais eqüitativo entre os países do Norte desenvolvido e do Sul periférico. É preciso combater a brutal concentração de renda existente no mundo, que tem no Brasil um de seus maiores exemplos. É preciso entender que a existência da humanidade está ameaçada sem uma política de desenvolvimento econômico auto-sustentável. É preciso compreender que a humanidade nunca esteve diante de tão grande dilema, situação criada pelo incrível desenvolvimento das forças produtivas verificado nas últimas décadas: ou funda suas bases materiais em uma lógica que permita a toda humanidade a satisfação de suas necessidades básicas ou sucumbe diante do terror e da barbárie. E não me refiro apenas ao detonar de bombas humanas.

Além do Oriente Médio, faz-se necessário também olhar para a América Latina, a África e a Ásia e enxergar a enorme dívida histórica que os EUA e o restante do mundo dito civilizado possuem com estes continentes. No caso específico da África, a monstruosidade torna-se ainda mais evidente: trezentos anos de tráfico de escravos, quase um século de neocolonialismo e décadas de monetarismo e ajuste neoliberal. Nas palavras de Eric Hobsbawm: “alguém está tentando dizer ao presidente George Bush que sua política externa negligenciou as necessidades de grande parte dos países árabes e islâmicos, dos países em desenvolvimento; que nenhum país é hegemônico o suficiente para governar o mundo sozinho.” (HOBSBAWM, 2001)

 

REFERÊNCIAS:
ANTUNES, Claudia. Crise de liderança foi agravada por Bush, Folha de São Paulo – Especial, de 16/09/2001.
BORON, Atílio A.. Os “novos leviatãs” e a pólis democrática: neoliberalismo, decomposição estatal e decadência da democracia na América Latina. In “Pós-neoliberalismo II”, Emir Sader e Pablo Gentili (orgs.). Petrópolis, Ed. Vozes, 1999.
CHALLITA, Mansour. O Alcorão, Rio de Janeiro, Prisma, s/data.
FISK, Robert. Como pode os Estados Unidos bombardear este trágico povo? Distribuído por ae@listas.portoweb.com.br, em 24/09/2001.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991), São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
HOBSBAWM, Eric. Jornal O Globo, de 18/09/01.
HOBSBAWM, Eric. Jornal O Globo, de 18/09/2001.
KURZ, Robert. O colapso da modernização: da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial, Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1993.
LEWIS, Bernard. Os árabes na História, Lisboa, Ed. Estampa, 1982.
SARAMAGO, José. O fator Deus, Folha de São Paulo, de 19/09/01.


* Professor de História, formado em Licenciatura Plena pela Universidade Federal Fluminense (UFF), e professor regente da rede municipal da Cidade do Rio de Janeiro.