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Ano I - Nº 03 - Dezembro de 2001 -
Quadrimestral - Maringá - PR - Brasil - ISSN 1519.6178
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A sujeição em La Boétie e Foucault: refletindo sobre liberdade Ana Lúcia Rodrigues*
“Ousarei
o que um homem pode ousar!“ Macbeth
INTRODUÇÃO Buscaremos refletir sobre a liberdade, ou antes, sobre a
constante perda que sofre o homem toda a vez que consente em submeter-se.
Após estudar O Discurso da Servidão
Voluntária de Etienne de la Boétie (1530-1563), é impossível não
se sentir muito incomodado com a seguinte questão: por que consentimos
em submeter-nos? Para refletir sobre os mecanismos de submissão do poder,
estudaremos paralelamente a La Boétie, algumas obras de Michel Foucault,
nas quais ele discute a relevância alcançada pelo poder sobre os homens,
reconhecendo a existência da liberdade apenas como reação ao poder.
Foucault (1985:88-89) concebe poder,
Hoje há carência de questionamentos sobre sermos livres,
provavelmente porque, admite-se comumente a liberdade como pressuposto,
sendo impossível afirmar em determinados lugares o contrário. A sociedade
é legalmente constituída e a liberdade só se efetiva nas relações com
o poder, porquanto a submissão ao “poder” é que garante aos cidadãos
a condição de livres. Continuamos perguntando: que espécie de liberdade
é essa? Será a única possível? Ao homem não deve restar então a esperança
de encontrar aquela chama ardente que tem perseguido ao longo das gerações?
Várias são as concepções de liberdade que encontramos. Por
exemplo, para Rosseau o homem nasceu livre mas a sociedade impede a
liberdade; em Kant os homens para serem livres devem obedecer as leis
que são externas a eles; da mesma forma Hobbes considera a impossibilidade
do homem exercer livremente sua existência. Essas e outras leituras
acrescentam noas questões à primeira: Em que medida a liberdade não
é usurpada pelo poder? Em que medida a liberdade passa a ser um elemento
que justifica o poder político? Como falar em liberdade se existe poder?
Como falar em liberdade se não existe poder? Por que o valor liberdade
foi apropriado e é utilizado por diferentes campos do pensamento e por
diferentes campos das práticas e das ideologias? O gozo da liberdade
será sempre insuficiente? PRIMEIRA PARTE: LA BOÉTIE PERGUNTA ACERCA DAS CONDIÇÕES
DA SUBMISSÃO Etienne de La Boétie escreveu em 1548 um “panfleto”
[1]
chamado Discurso
da Servidão Voluntária no qual busca responder sobre as razões que
levam os homens a obedecerem a um ou mais senhores. Inicia-o com uma
fala de Ulisses em Homero que diz ser preciso obedecer a um só rei. Porém vai afirmar ser um infortúnio estar sujeito quer a
um ou a mais de um homem, “o qual
nunca se pode se certificar de que seja bom, pois sempre está em seu
poderio ser mau quando quiser; e em ter vários senhores, quantos se
tiver quantas vezes se é extremamente infeliz” (La Boétie, 1999:11).
Para ele (Ibid., p.12) importa entender
Para La Boétie (Ibid.,
p.13) é sempre lamentável que a maioria sirva à minoria, muitas vezes
composta não de um forte que se impõe por isso, mas, de “homenzinhos”
covardes. E os que se submetem? Serão igualmente covardes? Ora, naturalmente em todos os vícios há algum limite além
do qual não podem passar; dois podem temer um e talvez dez; mas mil,
um milhão, mil cidades, se não se defendem de um, não é covardia, que
não chega a isso, assim como a valentia não chega a que um só escale
uma fortaleza, ataque um exército, conquiste um reino. Então, que monstro
de vício é esse que ainda não merece o título de covardia, que não encontra
um nome feio o bastante, que a natureza nega-se ter feito, e a língua
se recusa nomear? A defesa da liberdade parece ser um imenso incentivo a toda
e qualquer luta. A bravura que um homem mostra quando empunha uma bandeira
para ser livre é de se admirar. Esse é um daqueles momentos raros em
que vem à luz as características melhores do humano; em que vislumbramos
um sentido para a vida que cotidianamente não encontramos. Para deixar de servir La Boétie mostra que não é necessário
tirar nada do tirano, basta nada lhe dar, basta não fazer nada contra
si. Restabelecer a liberdade significa “...de bicho voltar a ser homem” (Ibid., p.14), pois os homens só não terão a liberdade, se não a desejarem.
O autor (Ibid., p. 16) pergunta:
A seguir busca as raízes da servidão, para ele tão profundas
que o homem já nem sente a liberdade como um bem natural, pois se assim
fosse “...seríamos naturalmente
obedientes aos pais, sujeitos à razão e servos de ninguém” (Ibid., p. 17). Outrossim reconheceríamos
a todos os demais como iguais (“irmãos”).
A natureza não teria enviado para cá a todos como se fosse para uma
guerra, onde o mais forte dominaria sobre o mais fraco. Prossegue argumentando em favor da liberdade ser natural,
utilizando exemplos apanhados entre os animais: os bois que gemem sob
peso do jugo, o pássaro que se debate na gaiola, o elefante que, na
iminência de ser capturado crava seu marfim nas árvores, etc. e pergunta:
“...que mau encontro foi esse que pôde desnaturar
tanto o homem, o único nascido de verdade para viver francamente, e
fazê-lo perder a lembrança de seu primeiro ser e o desejo de retomá-lo?”(Ibid., p. 19) Sendo homem só duas razões podem levar à sujeição: “que sejam forçados ou iludidos” (Ibid., p. 20). Os primeiros que são subjugados
o são pela força, porém os que vêm depois aceitam a servidão de bom
grado. “Desse modo os homens nascidos
sob o jugo, mais tarde educados e criados na servidão, sem olhar mais
longe, contentam-se em viver como nasceram; e como não pensam ter outro
bem nem outro direito que o que encontraram, consideram natural a condição
de seu nascimento” (Ibid).
La Boétie reconhece que a natureza tem menos poder sobre
os homens do que o costume, pois é natural ser livre, mas se a liberdade
não for cultivada ela se perde
e aí o homem se acostuma à servidão e a acha natural. Aí está portanto
a primeira razão da servidão voluntária: o
costume (Ibid., p. 24). Desta primeira, afirma decorrer outra: “que sob os tiranos as pessoas facilmente se
tornam covardes e efeminadas”(Ibid.,
p. 25). Exemplifica com Hipócrates,
que não se corrompeu pelos presentes e promessas do rei, mantendo-se
fiel aos seus bons princípios. Gente subjugada é incapaz de grandes
coisas sendo sempre muito frouxas.
E mais, afirma que: “o natural da arraia miúda, cujo número é cada
vez maior nas cidades, é que seja desconfiada para com aquele que a
ama e crédula para com aquele que a engana” (Ibid.,
p. 27). Uma série de ferramentas são utilizadas pelo tirano para
entorpecer o povo: teatros, jogos, farsas, espetáculos, gladiadores,
bichos estranhos, medalhas e principalmente festas com muita comida.
Porém adverte La Boétie (Ibid.,
p. 28) que, “Os broncos não percebiam que apenas recobravam
parte do que era seu e que até mesmo no que recobravam o tirano não
lhes tivesse tirado.” Uma característica da tirania, conforme La Boétie (Ibid., p. 29), é criar um ambiente de mistério em torno dos superiores:
Os tiranos alcançam a obediência dos súditos também por devoção. La Boétie (Ibid., pp. 31-32) apresente a seguir as bases onde se apoia a tirania:
Encerra o texto conclamando as pessoas a fazer o bem, argumentando
que, em caso contrário, haverá o encontro com o castigo, o que ao tirano
e seus súditos por certo está reservado, considerando-se que a tirania
é totalmente contrária a deus.
SEGUNDA PARTE: REFLETINDO SOBRE PODER E LIBERDADE EM MICHEL
FOUCAULT Em Michel Foucault, nosso contemporâneo, podemos reencontrar
a mesma discussão acerca de como se dá a sujeição, ou, em suas palavras:
“... de que regras de direito
as relações de poder lançam mão para produzir discursos de verdade?
Em uma sociedade como a nossa, que tipo de poder é capaz de produzir
discursos de verdade dotados de efeitos tão poderosos?” (Foucault,
1985: 179) Para esse autor, a liberdade só pode existir em oposição
ao poder, pois o poder não é contra a liberdade. Não importa sua origem,
importa como ele é, como é exercido. Ainda mais, Foucault (Idem, pp.148-149) afirma
que o poder não é apenas repressivo, ele também é criador, subtraindo-lhe
a característica negativa quando afirma que,
Não se deve falar de poder apenas institucional, pois suas
relações são muito flexíveis. O poder exercido pelo síndico de um prédio
ou por um policial na esquina é o mesmo poder do presidente da república
ou de um ministro de estado. Poder é diferente de dominação, que não
é a sua essência; não pode ser reduzido a instituição disciplinar. As
reações contrárias ao poder buscam resistir a ele, não eliminá-lo, pois
não existe verdadeiramente relações binárias do tipo, dominante e dominado.
É possível compreender sua racionalidade no seu funcionamento, pois
há uma intencionalidade (estratégia) nos fins, que são decifráveis.
Afirma Foucault (1985:91):
Há dentro das relações de poder um espaço de enfrentamento:
daí a liberdade, ou a sua possibilidade, que só existe pois o poder deflagra
reação e quando reagimos, quando enfrentamos alguém é porque esse espaço
existe. Pois, por exemplo, quando as relações são de constrangimento ou
de escravidão não se pode falar sequer em exercício do poder, que só se
exerce efetivamente, afirma Foucault (Ibid.), sobre homens livres.
E aqui, no campo das correlações de força, nossa questão
se põe mais explicitamente, através da análise dos mecanismos do poder.
Pode-se dizer que o sujeito que aceita se submeter é suprimido. As exceções
são os que sabem se libertar. É possível a constituição do sujeito sem
sujeição? Para Foucault isso implica na transformação do homem como
objeto do saber, sendo a liberdade construída num processo, numa vida
construída na maneira como cada um determinar, “mas,
isso não quer dizer que resulte da escolha ou da decisão de um sujeito,
individualmente”(Ibid., p.90). Esse paradoxo nos lembra
Shakespeare na peça A tempestade,
especialmente quando Próspero, o senhor da ilha, se dirige a Ariel,
seu súdito, e diz: “Serás tão livre como os ventos das montanhas,
só porém quando exatamente cumprires
em todos os seus pontos as minhas ordens” (Shakespeare, 1914:44). Por que somos reprimidos, ou como pergunta o autor: “por que dizemos, com tanta paixão, tanto rancor
contra nosso passado mais próximo, contra nosso presente e contra nós
mesmos, que somos reprimidos?” (Foucault, 1985:14). O poder se mascara sob o aparato jurídico e, afirma o autor,
somente assim consegue ser tolerável, pois se totalmente cínico fosse,
talvez não seria aceito. É admitido pelos homens, “...talvez porque lhes é, na mesma medida, indispensável: aceitá-lo-iam, se
só vissem nele um simples limite oposto a seus desejos, deixando uma
parte intacta - mesmo reduzida - de liberdade? O poder, como puro limite
traçado à liberdade, pelo menos em nossa sociedade, é a forma geral
de sua aceitabilidade”(Ibid.,
p.83). Portanto nos caminhos que escolher trilhar - não importa
onde se chegue - e mais, na própria escolha é que há a liberdade, numa
vida construída como cada um determinar, ao criar as condições de coexistência
com o outro, ao se relacionar com todos os demais, pois a liberdade
não pode ser exercida a partir do sujeito e para o sujeito, mas vivenciada
por ele nas relações com todos os demais. TERCEIRA PARTE: poucas
RESPOSTAS
As relações entre a questão primeira levantada por La Boétie
e as discussões de Foucault sobre o poder podem ser vislumbradas nos
apontamentos precedentes. É possível encontrar La Boétie respondendo
que a submissão se dá pois o indivíduo a deseja, do contrário dela se
libertaria e Foucault afirmando que a liberdade só se constitui dentro
das relações de poder, num espaço de enfrentamento que o sujeito estabelece,
ou não. É possível observar que as respostas de ambos têm áreas de
confluência. Por exemplo, quando atribuem ao indivíduo a possibilidade
do alcance da liberdade; o primeiro ao afirmar que dizendo não ao jugo
o sujeito se livraria das amarras e o segundo imputando ao indivíduo
a escolha entre reagir ou não à submissão que sofre. Se nos processos construídos pelos homens - individualmente
ou em coletividade - é que a liberdade pode ser encontrada, resta-nos
buscá-la como um valor que direcione nossas ações. Importante destacar
aqui: possivelmente jamais seja encontrada integralmente nenhuma espécie
de liberdade, pois toda vez que nos aproximamos o objetivo se afasta
constantemente, constituindo-se na “eterna
busca” dos homens. Daí a dificuldade de responder a todas as questões que surgiram
dessas nossas reflexões. Parece que a única liberdade possível é aquela
constituída nos mecanismos jurídicos a partir dos embates com o poder
e, assim sendo, esta seria a liberdade que tanto temos buscado. A mesma
que é usurpada pelo poder e então, concedida através de um aparato político
que, aliás, se legitima nas próprias concessões. Diferentes campos do pensamento e diferentes campos das práticas
e das ideologias se apropriam da liberdade atribuindo-lhe concepções
que identificam a si mesmos, todavia não conseguem imprimir à realidade,
que muitas vezes coordenam, uma prática efetiva de liberdade. Enfim, se é necessário continuar questionando para continuarmos
a construir o que é mais valoroso no ser humano, esse trabalho é um
exercício que busca contribuir para tal construção, pois iniciamos com
perguntas e finalizamos com muitas mais. Principalmente uma que permaneceu
após todas as discussões dessa matéria: o
gozo da liberdade será sempre insuficiente?
* Professora do Departamento de Ciências Sociais da UEM-Universidade Estadual de Maringá e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais-PUC/SP
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