Ano I - Nº 03 - Dezembro de 2001 - Quadrimestral - Maringá - PR - Brasil - ISSN 1519.6178

 

Sobre Livros, Sebos e Frequentadores de Sebos

 

Fabio Viana Ribeiro*

Eu não sabia ler, mas me lembro bem das cores das ilustrações, lembro que o papel não era bom, mas as cores eram muito, muito vivas e fortes. Eu devia ter uns cinco a seis anos de idade, eu me lembro que era um dia de chuva, e essa cena eu não esqueço. Minha mãe pegou os livros e a chuva era muito forte, uma tempestade. Aí acabou a luz, e ela colocou os livros na sala, eu e meu irmão, e ela acendeu uma vela e ficou lendo pra gente, até o medo da chuva passar. E eu me lembro, dela, da voz dela, dos livros, da vela queimando e do medo da chuva passando.

O livro de onde tirei o trecho acima se chama “Cartografia Sentimental de Sebos e Livros” [1]; no caso, reproduzindo a lembrança do proprietário de um dos sebos de Belo Horizonte. Comprei-o numa livraria de São Paulo mais por saudades de Belo Horizonte. Nasci nessa cidade e lá vivi até os 27 anos de idade; quase metade deles frequentando assiduamente todos os sebos que lá existem. Até então também nunca havia visto ou ouvido nada a respeito de nenhum livro que falasse de sebos.

 

Sebos (ou “livraria de livros usados”) são lugares muito peculiares. Em tudo: em livros, naturalmente; em vendedores; em frequentadores. Encontrar um livro que fala sobre sebos é meio como descobrir que alguém resolveu tornar público um de seus segredos. Frequentadores de sebos são em geral pessoas esquisitas ou, no mínimo, tomadas por esquisitas. Afinal, que graça pode haver em se ficar dentro de uma loja “com cheiro de livro velho”, horas e horas, procurando por livros que em geral não estão em nenhuma lista de mais vendidos ou serviram de tema para algum filme hollywoodiano? Provavelmente nenhuma, para a maior parte das pessoas que conheço.

 

Lendo essa “Cartografia de Sebos”, novamente me dei conta de que minha vida foi em boa parte definida nesses lugares. Não exatamente assim, pelos “lugares”, mas pelos livros que ali ia encontrando e lendo. Guy de Maupassant, Anatole France, Knut Hamsum, Alphonse Daudet, William Thakheray, Omar Kháyyám, Edgar Allan Poe, etc., etc., etc... Antes, também, pela Biblioteca Pública da cidade. Mas, depois, o prazer (mais ou menos como o dos bibliófilos) de também os ter, exclusivamente para mim. Ler livros assim, frequentando lugares desse tipo, implicava quase que necessariamente, ou produzia quase que obrigatoriamente, a formação de um tipo de personalidade. Um tipo de prazer e um tipo de felicidade (obtidos com a leitura de livros fantasticamente interessantes e diferentes de tudo que um adolescente poderia saber a partir da televisão ou dos amigos) que dificilmente poderiam ser compartilhados com outras pessoas. Acho que, por isso, a maioria das pessoas que frequentam sebos são, como se sabe, pessoas voluntariamente condenadas a serem esquisitas e solitárias.

 

É engraçado pensar hoje que, se tivesse dependido da educação formal que recebi, o normal teria sido desenvolver, desde a mais longínqua infância, o mais sincero ódio aos livros. Aliás, esse mesmo que os adolescentes costumam revelar, ao serem “obrigados” a ler qualquer coisa para o vestibular ou propósito equivalente. Ou seja, o primeiro livro que me caiu nas mãos, foi “O Gaúcho”, do José de Alencar. Um dos livros mais chatos já concebidos pela mente humana. Mais ou menos pelo mesmo período (naturalmente no colégio) tive contato com coisas igualmente horripilantes, das quais, felizmente, só me lembro hoje praticamente dos títulos: “A vaca voadora”; “A vaca na selva”; “Os trabalhadores arrancam os paralelepípedos”; “O passo de Estefânia”; “A hora da estrela”; “Senhora”; “Em liberdade”; etc... Até hoje não sei bem o motivo (nem nenhum professor da área me deu uma explicação convincente) pela qual só deveríamos ler literatura brasileira e eventualmente portuguesa. De preferência do tipo “intragável”; já que Machado de Assis, Lima Barreto, Autran Dourado e outros formavam minoria nesse mar de coisas apavorantes.

 

Mas, voltando ao assunto, talvez não seja o caso de se pensar que as pessoas que frequentam sebos e bibliotecas venham a se tornar pessoas solitárias e “esquisitas” por esse motivo; mas sim que sebos e bibliotecas sejam refúgio preferencial de pessoas solitárias e esquisitas. De modo que tendo, por algum milagre, sobrevido a essa técnica “anti-livro” do sistema regular de ensino, mesmo assim vim a desenvolver uma quase veneração por esses lugares. Em meio a tudo o que para mim representam (se alguém já assistiu a um filme que se chama “Fahrenheit 451” saberá mais exatamente o que estou dizendo...), talvez o que mais me atraia em sebos é, tanto quanto o tipo particular de isolamento que possuem em relação ao mundo exterior, a sensação (real, inclusive) de que a qualquer minuto podemos encontrar qualquer coisa fantástica e absolutamente esquecida numa prateleira empoeirada. Lembro-me nitidamente do dia em que encontrei, numa livraria, a edição de um livro do Rilke que um amigo meu procurava há séculos. Da forma engraçada com que ele me perguntou onde, se era verdade mesmo, etc. Parecia haver ganhado na loteria. Ou, comigo, do dia em que achei, por um preço insignificante, um dificílimo exemplar de “O coração das trevas”.

 

Não, eu não gosto de ir ao restaurante mais legal da cidade e ficar falando alto sobre quantos livros tenho, quanto de espaço eles ocupam em minha casa. Nem gosto de ficar desfilando pelas ruas com nenhum deles debaixo do braço. Ou qualquer idiotice do gênero. Gosto de ler meus livros, de deixá-los no quarto em que durmo, de saber que outros existem nos sebos que conheço; que minha vida, a melhor parte dela, está dentro de um monte de páginas e capas coloridas. De saber que se o mundo das coisas “reais”, onde existem as pessoas que nunca acharam que valesse a pena ler um livro, me parece tão interessante de ser vivido, a isso só devo atribuir aos livros que li e ao tempo que frequentei os sebos de minha cidade.

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* Professor Assistente do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá - UEM.


[1] DELGADO, Márcia Cristina. Cartografia Sentimental de Sebos e Livros. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. p. 83.