Ano I - Nº 03 - Dezembro de 2001 - Quadrimestral - Maringá - PR - Brasil - ISSN 1519.6178

 

Quem disse que as crianças não precisam de filosofia?

 

Claudinei Luiz Chitolina*

 

Interessa aqui responder ou fazer objeções ao texto divulgado pela Internet sob o título: As crianças precisam de filosofia? (Paulo Ghiraldelli Jr.). O exercício da crítica filosófica não é apenas uma possibilidade entre outras, mas uma necessidade que brota da própria natureza da filosofia. Contudo, a tarefa crítica da filosofia não pode prescindir de critérios que possam balizar (normatizar) a reflexão filosófica. Portanto, trata-se de distinguir a crítica da falsa crítica travestida de atrativos psicológicos. Quando se pretende refutar uma tese, idéia ou argumento do ponto de vista filosófico, deve-se lançar mão de argumentos supostamente melhores, dotados de maior consistência e coerência lógicas.

Identificar e desmascarar as falácias nos argumentos do autor do referido texto é o objetivo da objeção aos pretensos argumentos usados no texto: As crianças precisam de filosofia? Vamos a análise lógica destes enunciados:

- “É claro que as crianças não precisam de filosofia, porque Platão disse que elas não precisam”. Invocar a autoridade de Platão para endossar ou referendar uma idéia pode ser de grande importância quando se trata de demonstrar a construção lógica de um pensamento, a validade de um argumento. Ora, não é este o caso do autor do texto. O apelo à autoridade constitui neste enunciado um argumento ad baculum, isto é, a sua força não é lógica, mas psicológica, portanto não se trata de convencimento mas de persuasão. Pretende-se com isto dizer que para fundamentar uma idéia temos que recorrer à prova racional. Ora, o argumento platônico não pode ser desvinculado do contexto em que se encontrava. A ameaça à moralidade que os pseudofilósofos (sofistas) representavam à educação da juventude grega, foi certamente o motivo pelo qual Platão preferiu interditar a filosofia às crianças e aos adolescentes. Deste modo, as razões do interdito platônico não são filosóficas, mas extra-filosóficas. A resposta do filósofo não é filosófica, porque o acesso à filosofia é antes de tudo um problema de ordem política, depois de ordem filosófica ou pedagógica. Trata-se de fazer uma crítica a Platão, de demonstrar entre outros erros pedagógicos de seu programa educacional, que a restrição de idade imposta ao estudo (ensino) da filosofia constitui um arbítrio, não um argumento. Por isso, não está claro que as crianças não precisam de filosofia. A opinião (doxa) nunca é um argumento, mas uma impressão que carece de força lógica. Neste argumento observa-se a ocorrência flagrante de um raciocínio enganoso, atraente, porém, sem consistência. Platão que tanto fez para combater e expulsar os sofistas de sua República, talvez pudesse ensinar isto também. É preciso jogar Platão contra Platão. O temido aqui neste caso é o próprio filósofo que se deixou seduzir pelas vestes da sofística. Portanto, proibir a filosofia não é filosófico.

--“ A filosofia não é coisa de criança”. A forma negativa desta proposição pressupõe, isto é, traz implicitamente uma falsa idéia. Qual? A de que existem coisas que são e outras que não são de criança. A tarefa da filosofia é a de explicitar o que se encontra implícito. Ora, questionar a normalidade e a naturalidade do mundo é essencialmente um ato filosófico. Por esta razão, não se pode pretender concluir que a ordem estabelecida se identifica com a verdade das coisas. Ninguém duvida que uma criança possa ser competente (capaz) em áreas como: música, xadrez, ginástica olímpica, futebol, matemática etc. São os adultos que demarcam o território que separa o mundo das crianças do seu. Esta forma de pensar não é filosófica, mas ideológica porque escamoteia o problema, afirma uma situação. Nesta perspectiva, somente os adultos são racionais, as crianças são pré-racionais, ou candidatas à racionalidade adulta. Para os defensores desta idéia, o modelo adulto é o único modelo e a única forma de racionalidade possível. A criança deve satisfazer-se em imitar e seguir os adultos, porque eles são expressão autêntica de vida racional. O romantismo rousseauiano que ressoa neste argumento impede de ver que o conceito de infância tem uma história e que a forma como os adultos pretendem educar as crianças muda ao longo da própria história e em cada sociedade. Naturalizar o social é cometer um suicídio filosófico, é negar a própria filosofia. Fazer filosofia é negar uma ordem, opor-se ao estabelecido. O positivismo não é uma boa filosofia, porque não permite indagar dos pressupostos da estrutura social. Para os adeptos do positivismo, só há progresso dentro da ordem estabelecida. O que parece ser à primeira vista um argumento, não resiste à análise lógica. Trata-se neste caso, da falácia do argumento ad hominem (circunstancial). Este argumento ataca não o conteúdo da proposição, as idéias do oponente, mas a pessoa dele. As crianças seriam neste sentido incapazes de pronunciar o discurso filosófico simplesmente porque são crianças. No plano filosófico isto implica considerar outra coisa: o valor de verdade de uma idéia independente da pessoa que a produziu. Nada é mais falacioso que afirmar que a criança é incapaz de fazer filosofia porque é criança. Além disso, o argumento é tautológico, circular e incapaz de demonstrar a si mesmo.

“Se fizer isso, como eu estou falando, você poderá criar um bom jovem e/ou uma boa jovem”.

A verdadeira filosofia tem uma característica ímpar: é mais a procura do saber, que o próprio saber. É diálogo humilde, atento e rigoroso. O sentido do étimo filosofia implica isto. Invocar a si mesmo como autoridade num assunto é assumir a posição do tirano, do absoluto, que impede alguém de pensar diferentemente cortando-lhe a cabeça. Isto aconteceu na história recente do Brasil. Os militares quando subiram ao poder não permitiam nenhuma idéia contrária. O pensamento autoritário para lembrar Paulo Freire impede o pensamento divergente, porque não comunica, faz comunicados. Por isso, a filosofia foi banida do currículo e até hoje não temos dado à filosofia o lugar e a importância que merece no currículo escolar. O diálogo é a primeira condição de toda filosofia possível. A filosofia não cabe prescrever um receituário para uma boa educação, mas pensar os seus problemas, apontar caminhos, respostas e não soluções.

A proposta de se ensinar filosofia com as crianças não é menos filosófica que a proposta de se ensinar filosofia com ou para os adultos. Pode-se dizer que a “posição filosófica” do autor do texto: As crianças precisam de filosofia?, é semelhante a de um franco atirador, que atira no que vê e acerta no que não vê. De acordo com a razão é melhor  não falar de coisas sérias quando não se tem a disposição para a seriedade que determinado tema requer. O texto As crianças precisam de filosofia? quando em confronto com  o pensamento daqueles que refletem, discutem e escrevem acerca das relações entre filosofia e infância sugere um profundo desconhecimento da natureza deste problema. Parece que o autor está a dizer: “Não li e não gostei”. Ora, abandonar os preconceitos, os pré-juízos, as falsas convicções e certezas não é a primeira condição de toda filosofia? 

As crianças não são nem perversas, nem inocentes, mas potencialmente capazes de ser uma coisa ou outra. De acordo com a tradição cultural, espera-se das crianças e mulheres que sejam lindas, charmosas, afetuosas, engraçadas e não racionais. Quando se observa alguma criança que possui uma capacidade intelectual além do “normal”, logo recorremos à psicologia para afirmar que se trata de uma criança superdotada, de um pequeno gênio. O confisco adulto da filosofia é expressão de um desejo inconfesso de  poder, de domínio, isto é, de direito exclusivo em relação aos bens da filosofia. Fazer a criança parecer indigna à filosofia é garantir inconscientemente o status intelectual do filósofo acadêmico ou profissional. A rebeldia infantil mostra exatamente como a criança é tratada e educada em nossa sociedade. Temos que ver a criança como sujeito e não como objeto da vontade e dos desejos dos adultos. Se as crianças não fazem filosofia não é porque são incapazes, mas porque são impedidas pelos adultos. Com que direito, com que razão? O mito da idade da razão é ainda vigente em nossa educação. As relações de poder entre adulto e criança merecem uma filosofia da infância. Se a filosofia tem um papel insubstituível na formação crítica do pensamento, então por que mantê-la distante das crianças?

* Docente na Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí – FAFIPA- PR