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Ano I - Nº 03 - Dezembro de 2001 -
Quadrimestral - Maringá - PR - Brasil - ISSN 1519.6178
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O Professor de geografia: sua prática profissional, sua prática social... [1] Silvana de Abreu
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Resumo: Analisar
o papel do professor de geografia, sua prática social, sua prática profissional,
consolida-se no objetivo desse artigo. Trata-se de defrontar a base teórico-discursiva
dos professores e sua prática. Trata-se de analisar a sua prática, na
prática do outro. Palavras-chaves: Metodologia, Formação, Prática, Ensino de Geografia. Abstract: This main of
this article was to analyze the
paper of the geography teacher, this social practice and this professional
practice. This argument front to concepts and intentions presents in the
teachers theoretical-discursive support and teachers practice. It´s to
analyze your practice in the other´s practice. Key-words: methodology;
geography teaching; practice; formation. |
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O
convite para pensar sobre a temática “Geografia: prática profissional,
prática social”, de pronto, nos conduziu à possibilidade de discutir,
particularmente, as práticas profissional e social do professor de Geografia.
Um tema complexo, oportuno e instigante,
afinal, muitas relações seriam possíveis de serem estabelecidas. É
claro que, enquanto docente em um curso de formação de profissionais,
que vão ser, na sua maioria, professores de geografia no ensino fundamental,
médio e até no superior, temos nos preocupado sempre com a base teórico-metodológica
– a chamada bagagem – ou seja,
aquele arcabouço de conhecimentos que os cursos de formação se propõem
e que, efetivamente, temos conseguido “oferecer” para os acadêmicos
mas, principalmente, como isso se reverte na sua prática. Foi
essa uma das preocupações que nos
levou a trabalhar com a análise da formação do professor de geografia:
sua formação, discurso e prática,
o que teve início com o mestrado em 1989 e vem persistindo em minhas
investigações, até os dias atuais. Inclusive, vimos tentando socializar
um pouco essas “angústias”, através de orientação de pesquisas, na disciplina
Trabalho de Graduação, e em projetos de ensino que orientamos na disciplina
Prática de Ensino de Geografia. Atualmente,
temos nos dedicado também a outra vertente de pesquisa da geografia;
desenvolvemos um trabalho, no nível de doutorado
[3]
, que fugiu um pouco da temática direta da educação,
estando mais voltado para a análise de políticas públicas para o desenvolvimento
econômico no espaço mato-grossense
[4]
, mas, por incrível que possa parecer, essa vertente
de investigação foi suscitada justamente no processo de produção da
pesquisa, no mestrado (ABREU, 1993), face as preocupações dos colegas
professores de geografia da rede pública de ensino fundamental e médio,
que apontavam para “vácuos”
na sua formação acadêmica, que lhes dificultavam tratar o local. Talvez,
uma justificativa para o forte apego ao livro didático e, consequentemente,
para um olhar exterior para
o oeste brasileiro, para o Mato Grosso do Sul, enfim, talvez, um olhar
“paulista”, já que boa parte dos autores
de livros didáticos, pelo menos aqueles adotados nas Redes de Ensino
Municipal e Estadual, sejam, não somente paulistas, mas metropolitanos.
Ou seja, esses professores referiam-se a própria incapacidade de olhar
o locus, de dentro. Quando
elaboramos o esboço dessa nossa conversa, pensamos, realmente, em fomentar
um diálogo que permitisse “nos inserir” - a nossa prática, na prática
do outro -, obviamente, relativizando, em muito, essa relação, já que
existem muitos canais para a formação, além da academia. O sindicato,
a Associação dos Geógrafos Brasileiros, o partido político, são todos
espaços de formação, de prática, de aprendizagem... O que estaria considerando aqui, como formação,
poderia ser a consolidação de uma visão de mundo que se constrói pela
prática, pela teoria, pela prática..., em um processo, onde está presente,
também, a academia, já que estamos pensando no profissional professor de geografia. Assim, a formação do professor de geografia precisa
ser pensada a partir da preocupação com a prática do futuro professor
(onde estaria impressa, inclusive, a prática do professor da universidade)
nesse sentido, precisamos pensar: que conceitos e habilidades
devem ser consolidados ? Ou
antes, talvez, que projeto “formador” de professor de geografia pretendemos?
Essas
são questões importantes para nós que estamos na universidade - docentes
e acadêmicos -, afinal o que é a formação senão uma “fôrma” (ou uma
forma) que resulta de diversas relações? Uma
outra reflexão importante quando pensamos a prática/na prática é sobre
o locus onde ela se dá e que nos remete à escola (e pode nos remeter,
também a universidade). O
que é a escola? Historicamente,
alguns autores já têm colocado que a escola é o espaço privilegiado
do conhecimento, embora não o tenha sido da análise do próprio conhecimento,
o que imprimiria uma relação ensino-aprendizagem onde o professor tem
sido, caracteristicamente, o emissor e o aluno o receptor do conhecimento
já sistematizado. Mas isso não é aleatório. Na
perspectiva imposta pelos interesses da sociedade capitalista, onde
a escola, na forma como a conhecemos, foi concebida, a função do professor
tem sido ensinar, instruir, transmitir conhecimento, o que reduziu o
ensino a uma função mecânica, descontextualizada, que vem contribuindo
para a manutenção do status quo. O
exercício da docência na escola formal está
subordinado à divisão técnica e social do trabalho – há quem
produza e quem transmita conhecimento – , em outras palavras, o professor
não é produtor de conhecimento. Essa é uma máxima internalizada. Hoje,
mais do que nunca, a escola (e também a universidade) vem sendo convocada
a formar indivíduos para o mercado – um mercado que, em tese, alardeia
a necessidade de uma formação integral, que libere a criatividade e
que garanta conhecimento técnico-científico para que o indivíduo possa
criar suas próprias oportunidades. Nesse
sentido, existem as “receitas” para a educação (bem formuladas pelo
Banco Mundial) que são a LDB (Lei de Diretrizes e Bases), os PCNs (Parâmetros
Curriculares Nacionais), as DCNs (Diretrizes Curriculares Nacionais)
e existem os “medidores” como o ENEM (Exame Nacional no Ensino Médio)
e o Provão ou, ainda, as Avaliações das Instituições e dos Docentes
– que, nas Universidades Federais, resultaram na GED (Gratificação de
Ensino e Docência) –, em uma política que, ao quantificar, individualiza
e, muitas vezes, tem conduzido para o descompromisso com a qualidade,
em função da quantidade. Isso
tudo está ocorrendo no processo contraditório, ou não, do sucateamento
das instituições públicas de ensino, em todos os níveis. Por que “contraditório/ou
não”? Porque
deveria, do ponto de vista do projeto neoliberal, ter conduzido as universidades
públicas para a fila (ou o filão)
da privatização, o que ainda não aconteceu. As
universidades públicas têm resistido, majoritariamente, ainda passando
às margens dessas “novidades”, em alguns momentos e lugares, como um
processo de resistência, na forma apontada por Chauí (1989). Contraditoriamente
aos resultados esperados pelo Governo Federal, os “medidores” têm apontado
para uma qualidade no ensino público, quase impossível de ser explicado,
se considerarmos os minguados investimentos em pesquisa, ensino e extensão;
os baixos salários dos profissionais docentes; a retração no número
de bolsas para pesquisa, desde a iniciação científica, até a pós-graduação;
a falta de recursos para equipamentos e construções, entre outros. Do
ponto de vista das escolas de ensino fundamental e médio, observamos
que boa parte dos professores têm permanecido alheios ao significado
de todas as “novidades”. Um exemplo seria a interpretação das “agências”
de ensino que impõem tudo que o Ministério de Educação encaminha, sem
discussão. Quando
os PCNs – Parâmetros Curriculares Nacionais – passaram a ser referencial
de ensino nas escolas de ensino fundamental, o que foi colocado em questão
é que era preciso adequar os “programas” dos professores, por um lado,
e encontrar/adequar livros didáticos que respondessem aos conteúdos
dos Parâmetros. Na
mesma direção tem caminhado a elaboração dos Projetos Pedagógicos e observamos que, em grande parte das escolas, têm sido construídos
como cópias fiéis dos programas de livros didáticos adotados, que por
sua vez, em muitos casos, são adequados aos Parâmetros... Os professores têm sido utilizadores do conhecimento padronizado pelos livros didáticos, ou mesmo, de outras formas, como os PCNs, por exemplo. Vimos
percebendo e analisando, que a separação entre a teoria e a prática
(ABREU 1996; 1997), já na formação universitária, é um elemento a ser
considerado para compreender o papel que o professor tem assumido de
assimilador/transmissor de conhecimentos. Acreditamos, ainda, que isso
conduz, inclusive, à própria incompreensão do professor sobre seu papel
e, portanto, contribui para a descaracterização e desvalorização da
profissão. Esse,
obviamente, é um processo geral e está relacionado a uma questão de
caráter mais amplo, qual seja, uma política educacional, que cada vez
mais privilegia e consolida uma estrutura de dominação social e que
se dá, tanto via escolas públicas de ensino fundamental e médio, como
através da formação dos professores, nos cursos de licenciaturas, privados
ou públicos. Além
disso, como nos referimos, é preciso considerar as várias instâncias
em que se dá o processo de formação. Nesse sentido, as mudanças ocorridas,
apenas no nível dos cursos de formação, terão sempre um alcance limitado,
se não forem também modificadas as condições em que ocorre o exercício
da prática profissional. Essa
assertiva é fundamentada no reconhecimento de que um cabedal científico
consistente é fundamental, tanto para o bom desempenho de um professor
dentro da sua habilitação, como também para que ele possa compreender
o processo educacional e as dificuldades que envolvem a relação ensino-aprendizagem,
de modo a assumir um compromisso profissional que é, também, um compromisso
social. No entanto, não é o único viés a ser considerado; existem aspectos
da cotidianeidade que igualmente precisam ser incorporados para compreender
a prática. Um
exemplo que tivemos oportunidade de conhecer, na elaboração dos Projetos
Pedagógicos, foi a mobilização de professores, pais e estudantes, em
escola do município de Dourados - MS que, uma vez por semana, utilizavam
o tempo de uma aula, para discutir, em conjunto, um projeto para a escola
e, inclusive, o destino dos recursos. O aprendizado desses alunos, pais
e professores, certamente não vai ser matéria de avaliação, sequer vai
para o programa dos professores como “matéria dada”. Destarte, certamente,
contribuiu para a formação cidadã dos personagens desse processo Outro
elemento que considero importante pontuar é especificamente sobre a
geografia e seu papel enquanto disciplina do currículo escolar, já que
a prática profissional do professor se dá mediada pelos saberes sistematizados
de geografia. A
geografia “escolar”, ao utilizar-se do método de análise descritivo-fragmentário,
(re)produziu idéias de uma sociedade isenta de contradições, cuja “identidade”
foi construída pelo território do estado-nação (ser brasileiro, ser
americano, etc) e que, enquanto saber escolar, este modo de construir
o conhecimento geográfico tomou formas de matéria decorativa, ou decoreba,
como mesmo denominam os alunos em sentido pejorativo, ainda hoje. A
esta geografia convencionou-se chamar de “geografia tradicional”. São
várias as correntes: determinismo geográfico, possibilismo, nova geografia,
apenas para citar algumas que tiveram maior divulgação no nível acadêmico
e didático-escolar. Ao
movimento de superação e crítica desse modo de pensar e fazer a geografia,
convencionou-se chamar de geografia crítica, justamente pelas análises
e questionamentos ao papel ideológico da geografia, seja na pesquisa
científica, atuando no planejamento atrelado aos governos, seja nos
bancos escolares ... Podemos
nos lembrar do livro de Lacoste (1995) – “A
geografia, isso serve em 1º lugar para fazer a guerra” –, onde o
autor desmascara o papel ideológico da geografia, apresentando o seu
atrelamento ao poder estratégico dos Estados-Nação (determinismo e possibilismo),
tanto do ponto de vista do planejamento e ações de guerra, como através
do ensino escolar, inculcando o nacionalismo patriótico, leitura essa
que, na minha geração, era obrigatória e que continuo achando importante,
pois trata-se de um dos marcos desse movimento, que talvez, já possamos
chamar de clássico. Essa
vertente crítica da geografia demonstrou que o método empírico-descritivo
imprimiu ao saber geográfico uma carga de “inutilidade” porque, como
disciplina escolar, não passava de uma matéria para a qual bastava ter
boa memória. Mas,
a chamada “Geografia Crítica” não restringiu-se apenas a crítica aos
geógrafos tradicionais e seu método descritivo-fragmentário, que permeou
o início do debate nos anos de 1970 e 1980, embora seja possível perceber,
até, que houveram aqueles que ficaram apenas na elaboração do discurso
panfletário; esse movimento fomentou a possibilidade de consolidação
do contra-discurso ideológico, assumindo muito evidentemente, a prática
profissional, um papel de prática social ... e, ao mesmo tempo, a prática
social, como prática profissional. Mas
como esse processo todo está presente no saber-fazer do professor? Temos
constatado que o discurso dos professores traz versões de concepções
de espaço e sociedade que apresentam um direcionamento para a contestação
a ordem sócio-espacial estabelecida, contudo, sem respaldo científico
(teórico-metodológico) tal feito não ultrapassará os limites de um discurso
crítico. Nesse sentido, a crítica
sem a compreensão da realidade, tem sido, mais panfletária e vazia de
conteúdo do que uma análise da produção do espaço geográfico: é senso comum. É
o que temos chamado de crítica pela crítica. Nesse caso, ela pode
se efetivar como uma prática social, deslocada da prática profissional,
por quê? Porque pode suscitar dúvidas e fomentar o movimento. No
caso do professor de geografia, é preciso saber, por exemplo, que há
uma diferença temporal entre o homem e as rochas, as espécies vegetais,
enfim, a natureza “natural”, até mesmo para compreender que é um tempo
incompatível com a sociedade industrial, que polui o ar, que desmata
as florestas, que queima o cerrado para plantar pastagens e soja, que
provoca o assoreamento e que, também, socializa os danos ambientais;
além de promover a pobreza. Por
isso, estudar sobre a natureza natural é importante, assim como é importante
compreender que o pensamento acerca da natureza externa, no contexto
da sociedade capitalista é fundamental para a educação ambiental que
deve ir além da preocupação com a seleção do lixo coletado ou com o
fechamento das torneiras. É
óbvio que muitos são os fatores que
influenciam o tipo de prática panfletária a que nos referimos–
crítica pela crítica –, formando
uma teia de relações que envolvem: as precárias condições de trabalho
nas escolas; os baixos salários - que implicam no acúmulo de aulas para
perceber uma maior remuneração –; a burocracia escolar, associada ao
desalento em continuar os estudos – pelo pouco incentivo salarial que
isso representa –; a “clientela” empobrecida, em alguns casos brutalizada
e, inclusive, as dificuldades em conciliar
os afazeres domésticos com a profissão, o que acontece com a
maioria das professoras, que têm dupla jornada de trabalho. Existem
ainda, outros elementos, esses de ordem mais direta, que envolvem o
discurso e a prática do professor, quais sejam, a sua formação teórica
específica e o uso do livro didático, muitas vezes utilizado sem a devida
reflexão. No
trabalho com a geografia, pensamos que é necessário a preocupação e
o comprometimento com o humano – enquanto sociedade, que é dividida
em classes antagônicas – e com
a natureza apropriada; relações
fundamentais para compreender o espaço segmentado e contraditório que
continuamente é (re)produzido. Trata-se,
pois, de capacidade teórica para compreender o processo de reprodução
da sociedade, que hoje, sabemos, é mundialmente capitalista. É preciso
compreender, também, as transformações provenientes das relações que
lhe são pertinentes, quais sejam: de trabalho (ou de falta de trabalho),
de poder (inclusive técnico-científico) e ideológico-cultural. Nesse
sentido, o conhecimento teórico é essencial, tanto no desempenho do
professor, dentro de sua especificidade, como também para que ele possa
compreender o processo educacional e assumir um compromisso profissional
com a transformação da sociedade : uma prática
profissional-social, ou, talvez, uma prática social-profissional. Acreditamos
que falta (tanto na universidade, como em outros níveis) o entendimento
do professor e do aluno como sujeitos no processo ensino/aprendizagem;
falta uma relação teoria e prática que conduza a descoberta do novo,
à produção do conhecimento e não unicamente a sua apreensão e reprodução. A
reflexão em torno dessas questões está longe de ter seu fim e não temos,
aqui, essa pretensão. Apenas desejamos fomentar discussões e invocar
a atenção para a necessidade do debate sobre o papel da geografia –
enquanto ciência e disciplina dos currículos escolares – e, também,
da universidade – enquanto locus de formação do professor, assim como
da produção do conhecimento.
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