Ano I - Nº 02 - Julho de 2001 - Bimensal - Maringá - PR - Brasil - ISSN 1519.6178

 

Reflexões em torno dos acidentes de trabalho no Brasil e a produção acadêmica

 

Rita de Cássia Ramos Louzada*

 

Resumo - Este trabalho objetiva  enfocar os acidentes de trabalho e a produção acadêmica em torno da questão, levando em conta as importantes mudanças observadas recentemente no mundo do trabalho. A partir de um levantamento bibliográfico procuramos assinalar por onde caminham as pesquisas, tentando verificar se e como e relacionam com o quadro oficial de acidentes de trabalho.

Palavras-chave: acidentes de trabalho, produção acadêmica, saúde pública, pesquisa em saúde

 

Se considerarmos a legislação vigente em nosso país, só é possível falar em acidente de trabalho  quando  um trabalhador é vítima de:

1 -“um acidente em decorrência das características da atividade profissional por ele desempenhada (acidente típico);

2 - um acidente ocorrido no trajeto entre a residência e o local de trabalho (acidente de trajeto); ou,

3 - um acidente ocasionado por qualquer tipo de doença profissional produzida ou desencadeada pelo exercício do trabalho, peculiar a determinado ramo de atividade constante de relação existente no Regulamento dos Benefícios da Previdência Social, ou por doença do trabalho adquirida ou desencadeada em função de condições especiais em que o trabalho é realizado e com ele se relacione diretamente, desde que constante da relação citada anteriormente". [1]

Partindo desses critérios, e tomando os dados oficiais, pode-se observar que os acidentes de trabalho no Brasil mostram um decréscimo gradativo nos últimos anos. O fato vem sendo noticiado inclusive na grande imprensa.[2] Os últimos dados estatísticos sobre acidentes de trabalho disponibilizados pelo Ministério da Previdência e Assistência Social cobrem os anos de 1997-1999. O quadro delineado, por setor de atividade econômica, é o seguinte:

Tabela 1 – Quantidade de acidentes de trabalho registrados, por motivo, segundo o setor de atividade

1997 - 1999

Setor

1997

1998

1999

Agricultura

29.687

32.892

29.137

Indústria

207.394

189.803

167.090

Transformação

159.882

144.498

128.944

Serviços

162.975

167.001

158.739

Total

421.343

414.341

378.365

Fonte: MPAS

 

Observando esses números, é possível perceber que no setor de serviços existe uma certa oscilação de valores, e isso só aparece neste item. Observemos, portanto, mais detalhadamente os dados desse setor na tabela 2.

Tabela 2 – Quantidade de acidentes de trabalho registrados, por motivo, no setor de serviços

 

1997

1998

1999

Típico

124.297

130.817

125.211

Trajeto

21.424

21.563

22.544

Doença Trabalho

17.254

14.621

10.984

TOTAL

162.975

167.001

158.739

Fonte MPAS

           

Tabela 3 – Quantidade total de acidentes de trabalho registrados, por motivo, nos diversos sub-setores do setor de serviços

 

1997

1998

1999

 

ATi

ATr

DT

ATi

ATr

DT

Ati

ATr

DT

Comércio veículos/ combustíveis

6029

988

462

5701

978

398

5199

1033

239

Comércio por atacado

9940

1494

724

9040

1226

642

8448

1232

533

Comércio varejista

22270

3553

1740

23334

3433

1577

22119

3928

1256

Alojamento e ali-mentação

6238

982

470

6583

1087

444

6524

1045

343

Transporte e arma  zenagem

17126

2827

1278

16569

2682

1222

15377

2666

1294

Comunicações

4042

1014

1114

4042

1102

849

3666

1041

726

Intermediários financeiros

2133

718

5544

2217

727

4126

2236

743

2734

Atividades imobili

 árias

1495

300

87

1422

293

74

1189

286

59

Atividades informá tica/conexas

238

146

265

268

153

214

252

181

207

Serviços prestados a empresas

24770

3959

2228

27156

4052

2062

2479

4149

1306

Administ. pública, defesa e seguridade social

4650

678

319

4963

710

256

5123

860

217

Educação

2436

519

333

2726

506

329

2653

558

240

Saúde e serviços sociais

11857

2183

1042

14753

2526

951

15221

2689

741

Atividades associa tivas, culturais e desportivas

9476

1744

1503

10389

1744

1348

10749

1785

940

Outros serviços

1597

319

145

1667

344

129

1662

348

149

Ignorado

18357

1341

1589

21538

1595

1512

21112

1351

936

 

É curioso notar que as oscilações têm marcações específicas (tabela 3), seja por sub-setor, seja por motivo do acidente. Nessa tabela a área de “administração pública, defesa e seguridade social”,  a área de “educação”, as “atividades associativas e desportivas” e também a de “saúde” tiveram o número de acidentes totais aumentados. Além disso, se observarmos mesmo os sub-setores onde o total de acidentes se mostra reduzido, pode-se perceber o quão instável é esse dado vez que ora há aumento em acidentes de trajeto (ATr), ora em acidentes típicos (ATi), ou ambos (veja, por exemplo, o item “serviços prestados a empresas”) . A oscilação de valores é constante. No entanto o que aparece completamente constante na tabela é o decréscimo de doença do trabalho em todos os sub-setores.

A produção acadêmica

Considerando o período de 1997 até hoje, levantamos a bibliografia sobre acidentes de trabalho produzida sobre nossa realidade. Pudemos observar um incremento de pesquisas sobre o tema, na base de dados LILACS (Literatura Latino-americana e do Caribe em Ciências da Saúde). Buscando os termos “acidentes and trabalho”, foram encontrados 152 trabalhos, dos quais 71 relacionavam-se efetivamente a “acidentes de trabalho”. Destes foram excluídos, para os objetivos em tela, dois artigos que enfocavam outros países (Chile e Espanha). Ficamos, portanto com 69 trabalhos, assim distribuídos:

Tabela 4 – Distribuição de freqüência dos artigos encontrados sobre acidentes de trabalho conforme o ano de publicação

PERÍODO

f

1981-1985

10

1986-1990

15

1991-1995

21

1996-2000

23

TOTAL

69

 

Do início da década de oitenta até o ano dois mil, portanto, o número de publicações indexadas aumentou em mais de 100%. Embora haja restrições à utilização deste tipo de banco de dados em função de não cobrirem a totalidade da produção acadêmica, avaliamos que é indicador interessante quando associado a outros dados. Na verdade é isto que tentamos aqui: uma aproximação dos dados oficiais sobre acidentes no Brasil e os trabalhos indexados sobre o tema, tomando como premissa a incompletude de ambos os bancos de dados.

Se compararmos a propalada diminuição dos acidentes de trabalho no país com a produção acadêmica seremos obrigados a estranhar o aumento desta última sobre o assunto. E uma pergunta impor-se-ia: haveria alguma relação entre o perfil da produção acadêmica e o quadro geral de acidentes fornecido pelos órgãos oficiais? 

Para refletir em torno disso, detalhamos a produção bibliográfica encontrada entre os anos de 1997 até hoje e obtivemos o seguinte:


Tabela 5 – Listagem dos trabalhos encontrados no período de 1997-2000 de acordo com o tema e ano da publicação

ANO

TEMA DO TRABALHO

2000

Perfil respiratório trabalhadores da indústria naval do Rio de Janeiro/RJ

2000

Acidentes de  trabalho em S. José dos. Pinhais/PR (94-97)

1999

Acidente ocupacional em equipe de enfermagem

1999

Causas de acidentes de trabalho na COPEL-PR

1999

Mortalidade por acidentes de trabalho

1999

Casos fatais de acidentes de trabalho

1999

Características  individuais, sócio-econômicas e acidentes de trabalho- Pelotas/RS

1999

Trabalhador de saúde com HIV – biossegurança

1998

Condições de trabalho na polícia

1998

Enfermagem frente ao acidente de  trabalho e  HIV

1998

Terceirização e acidentes de trabalho (90-95)

1998

Acidentes  de trabalho c/ material perfurocortante entre enfermeiros

1998

Acidentes de  trabalho afetando coluna vertebral de enfermeiros

1998

Reabilitação profissional

1997

Trabalho de coletores de lixo

1997

Análise de acidentes típicos em três empresas

1997

Acidentes de trabalho em Porto Alegre/RS

 

Encontrados, portanto, 17 trabalhos no período estudado. Deste  total, o que salta aos olhos é a maior concentração de estudos relacionando acidentes de trabalho e enfermagem (ou profissional de saúde), 1/3 de tudo o que aparece publicado no período. Aqui uma sintonia com o que se vê nos dados do MPAS (tabela 3): o saúde enfrenta aumento de acidentes e tem sido abordada por pesquisas. Afinal é a área onde observa-se  o maior crescimento, algo da ordem de 23%. Nenhum outro sub-setor apresentou este padrão, segundo os dados oficiais. Justifica-se, portanto uma concentração maior de pesquisas. Os sub-setores educação, administração pública/defesa social, atividades associativas que também apresentam aumento de acidentes ainda não aparecem contemplados por pesquisas.

Por nosso envolvimento no campo da saúde mental e trabalho, e por acompanharmos a intensa precarização dos contratos de trabalho com inevitáveis conseqüências para os sujeitos, podemos supor também que os acidentes – e aí não apenas nas categorias citadas - estejam se transformando e, com novas configurações, menos sujeitos à categorização existente, seja para os próprios profissionais de saúde que avaliam estes casos, seja para a previdência.

Além disso deve-se considerar como o que nos diz Wünsch Filho (1999), que estudando a reestruturação produtiva e os acidentes de trabalho no Brasil, sublinha:

“É possível que o desemprego induza ao aumento no número de horas trabalhadas e na intensidade do trabalho entre os que permanecem na produção e que tal fato resulte em maior risco de acidentes entre estes trabalhadores...” (p. 48)

Sustenta que isto pode ter ocorrido em determinados setores da economia, porém, prevaleceu em sua pesquisa a tendência geral relacionada ao número de indivíduos expostos. Ou seja, a redução de acidentes observada no país seria, em sua visão, resultado de menor número de trabalhadores formais. Sua pesquisa cobriu um período de 25 anos e nesse período mais de 29 milhões de acidentes e mais de 100 mil mortes relacionadas ao trabalho foram registradas no Brasil. Outros tantos atingiram trabalhadores informais, no entanto, sem registro. O mesmo se pode dizer para os “prestadores de serviço”, os autônomos, os cooperativados, etc..[3]

Acrescentamos às conclusões de Wünch Filho a hipótese de que “novos” tipos de acidentes devem estar surgindo, juntamente com a reestruturação produtiva. Acidentes que talvez por sua sutileza deixam, inclusive, de ser considerados pela legislação. Se um trabalhador acidentado ou adoecido se mantém em atividade [4], é de supor que isto o torna mais suscetível, no mínimo, a maior irritabilidade e tensão. Isto pode redundar em problemas mais ou menos graves em função do posto de trabalho, níveis de exigência no setor, relação estabelecida com pares e chefia, posição da empresa no mercado, etc. Esta possibilidade, no entanto, existe e por sua sutileza exige de profissionais de saúde uma atenção ainda maior quanto ao diagnóstico. Exige também que estes tenham condições de avaliar amplamente a situação.

Se levarmos em conta esses dados, poderíamos perguntar: a irritabilidade, a tensão ou qualquer outro mal-estar psíquico pode ser considerado como condição ou conseqüência de um acidente? Nossa hipótese é que tanto uma situação quanto outra pode ser considerada mas exige maior investimento em pesquisas, pois, o que se tem, a partir de escritos de Dejours (1988), especialmente, é que os trabalhadores – a partir das metamorfoses observadas no mundo do trabalho -  apresentam cada vez mais sofrimentos mentais difusos, que terminam por esvaziar a idéia de um acidente de trabalho stricto sensu,  Além disso os sofrimento mental não pode ser abordado de forma monocausal, o que com relação aos acidentes faz toda a diferença e torna mais complexa a sua abordagem.      


* Docente no Departamento de Psicologia Social e do Desenvolvimento/UFES. Pesquisadora do Programa Organização do Trabalho e Saúde Mental - OTSAM/IPUB/UFRJ.

_________________

Notas:

[1] Disponível no endereço www.mpas.br.

[2] Folha de S. Paulo, 4/4/99.

[3] Ressalte-se, por exemplo, o caso recente do agricultor, inválido aos 31 anos em função de intoxicação por agrotóxicos, que acionou uma indústria fumageira tentando atribuir a ela a responsabilidade por seu adoecimento. A postura da empresa diante do caso é de absoluto descompromisso com o dano causado a este trabalhador, segundo a imprensa.

[4] Veja-se o exemplo dos bancários com LER: é bastante comum vermos caixas com braços imobilizados e ainda assim atendendo o público

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